sexta-feira, 29 de junho de 2018

De Chávez a Maduro: o baque da transição

O blog publica hoje colaboração do jornalista Lucas Berti, sobre as últimas eleições na Venezuela. O texto foi escrito antes do pleito, e apresenta análise da história recente do país, em especial da transição entre os governos Hugo Chávez e Nicolás Maduro. A colaboração foi feita por intermédio da estudante do curso de História - América Latina da UNILA Bia Varanis. Agradecemos ao Lucas e à Bia por essa participação no blog.



De forma atemporal e independente dos resultados, as eleições presidenciais na Venezuela refletem além das fronteiras. A simples expectativa por votações em nível federal, que coloca a densa crise política do país à prova, evoca mais do que um teste de fogo interno aos caribenhos. Pelo grande nível de desconfiança em torno da votação, o chavismo virou presa. E Maduro, por tabela, também.
Em 2014, quando Nicolás Maduro debutava no poder em Miraflores, sede do poder em Caracas, o país a noroeste da Amazônia ainda vivia o luto pela morte de Hugo Chávez. O icônico líder político, que assumiu o poder em 1999 com seu imaginário guerrilheiro, deixava a seu sucessor, em 2013, não só a missão de perpetuar uma forma controversa de fazer política, mas a necessidade de se blindar diante de um período que viria a ventar contra nos anos seguintes.   
O leme que guiava os rumos da América, antes virado à esquerda em meados de 2010, acompanhou o padecimento dos principais governos socialistas pelo continente. A saúde do chavismo, então, calhou de padecer junto com a de Chávez.
À medida que o vermelho desbota abaixo do Equador, Maduro, responsável por dar sequência à solidez representativa de Chávez, começava a sofrer com a crise. Sem o respaldo da esquerda nos países vizinhos e com a desvalorização do preço dos barris de petróleo, produto base da economia, o madurismo enfrentava sua primeira zona de turbulência.
Com a baixa da commodity somada à sucessiva chegada da centro-direita nas capitais latinas, a falta de carisma do novo presidente ficou evidente. Sem manejo para fazer boa diplomacia, viu a economia entrar em uma espiral inflacionária, com alta de preços estimada em 68,5% em 2014, de acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do país.
O mandatário não conteve o efeito dominó. Em 2015, a inflação acumulada no país chegou a alarmantes 180%, à época a mais alta do mundo segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). O efeito afetou o Produto, que começava a recuar em larga escala diante da gestão conflituosa. No ano seguinte, as projeções jogavam taxas acima de 600%. A sucessão de erros seguia.
A derrocada econômica, que levava o Bolívar (moeda local) a uma desvalorização galopante – também por conta da emissão em excesso de papel-moeda – intensificou uma grava crise de abastecimento, tirando produtos básicos da gôndola de supermercados e farmácias e derrubando o poder de compra da população.
Para um governo de cunho social, que oscilava, segundo as críticas, entre o estigma de regime populista e uma mera tentativa de dar sobrevida ao assistencialismo, ver a população à míngua da fome e da escassez era um sinal de declínio. A partir desse ponto, a imagem da Venezuela no mundo além de seu território era de caos socioeconômico. E Nicolás Maduro seguia como personificação da ruína.
Política estremecida
Já imersa em um nevoeiro de fragilidade institucional que ajudou a derrubar a popularidade de Maduro ano a ano, o contexto político da Venezuela seguiu um script tempestuoso.
Ainda no primeiro semestre de 2017, o governo decidiu votar pela polêmica Assembleia Nacional Constituinte, um órgão de poder que, além de tomar o poder legislativo, poderia alterar leis, tomar decisões eleitorais e estaria, inclusive, acima das ordens presidenciais.
Desde o anúncio das votações, em maio daquele ano, manifestantes foram às ruas pelo veto da medida que, segundo eles, centralizava ainda mais o poder. O governo respondeu com repressão, deixando mais de 120 mortos e revelando uma intransigência característica dessa gestão feita com punho de ferro. Até agosto, pelo menos 70 fatalidades foram atribuídas a forças de segurança do governo, segundo a ONU.  A ideia de regime ganhava força.
Já cercada pelo abismo geral, mas respaldado pela ANC, Maduro entrou em 2018 fazendo pedidos emergenciais para que as eleições fossem antecipadas de dezembro para abril e, depois, para 20 de maio.  A cúpula internacional respondeu às alterações.
Sob acusações de fraude, a principal votação do país não deve ser reconhecida por órgãos do exterior, bem como por boa parte do Mercosul e pela política agressiva de Donald Trump, que não esconde seu posicionamento contrário ao que chama de “ditadura”.
As eleições podem tanto dar fim ao madurismo, como podem colocar mais seis anos em seu horizonte de liderança. Ainda que diga adeus ao cargo, Nicolás Maduro seguirá à sombra de Chávez no canto mais frio da desaprovação popular, entregando um país que patina na maior crise de sua história. Caso vença, terá a inevitável missão de recuperar a quarta nação mais populosa da América e tentar, enfim, sondar um legado que nunca existiu.  

Lucas Berti é jornalista e escreve sobre América Latina no Da Fronteira Pra Lá e também em seu twitter @lucasberti.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Dia Internacional do Ioga no Blog de História da UNILA


No dia 21 de junho de 2015, celebrou-se pela primeira vez o Dia Internacional do Ioga. A criação desta celebração internacional de um conjunto milenar de princípios e práticas, estreitamente associado ao Sul da Ásia, foi realizada por meio de uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, em dezembro de 2014.

Para lembrar a data, que este ano traz o lema de “Ioga para a paz”, indicamos a leitura de duas postagens do ano de 2016 sobre Ioga:








Profa. Mirian Santos Ribeiro de Oliveira

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Sujismundo ou como a ditadura nos olhava: o autoritarismo e a associação entre povo, sujeira e doenças


Retomamos as postagens do Blog de História da UNILA em 2018 com post do prof. Paulo Renato, a respeito de campanha de higiene da Ditadura Militar brasileira dos anos 1970, que muito nos revela acerca das visões daquele regime sobre o povo. Boa leitura!

Em tempos de intervenção militar no Rio de Janeiro e de pré-campanha eleitoral na qual candidatos e eleitores expressam o seu saudosismo pelos tempos da ditadura no Brasil, cabe lembrar que a visão autoritária dos militares sobre o povo brasileiro se manifestava inclusive sobre práticas simples do cotidiano. Conforme destacam Maria Hermínia Tavares de Almeida e Luiz Weis, nos “(...) regimes de força, os limites entre as dimensões pública e privada são mais imprecisos e movediços do que nas democracias” (ALMEIDA; WEIS, 1998, p. 327).
Um exemplo dessa visão autoritária pode ser vista em Sujismundo, personagem patrocinado pela ditadura na década de 1970. Sujismundo foi para as telas da televisão e até mesmo dos cinemas para “educar” o povo brasileiro quanto à limpeza de ambientes, higiene pessoal e prevenção de doenças. Pode-se argumentar que seria uma questão de saúde pública e que os militares teriam sido movidos pelas melhores intenções. Contudo, cabe prestar bastante atenção nos vídeos de Sujismundo reunidos a seguir:




Sujismundo é sempre o culpado pelos seus atos e pelos problemas que causa aos que estão e vivem ao seu redor. Parece viver em um mundo ideal, onde todos teriam educação, saúde, trabalho, transporte e as ruas seriam limpas – se não fosse o Sujismundo, claro! A poluição dos rios seria culpa “das pessoas” que os sujariam e o grande problema seriam os “Sujismundos” que tomariam banho neles – vale recordar que o “progresso” da ditadura aumentou bastante os nossos problemas ambientais, mas é claro que não há uma única palavra sobre isto nas histórias de Sujismundo. E, segundo o Dr. Prevenildo, os que não teriam acesso à saneamento básico poderiam facilmente resolver este problema construindo fossas por conta própria. O autoritarismo se manifesta quando um governo se isenta de responsabilidades pelos problemas de sua sociedade e tenta culpar grupos sociais específicos ou indivíduos que seriam representantes destes grupos. Porém, no caso de Sujismundo, o discurso autoritário se esconde, por exemplo, no discurso “científico” do Dr. Prevenildo. Sidney Chalhoub, ao analisar o discurso higienista no Brasil na segunda metade do século XIX e início do XX, destaca que o “(...) mais trágico em toda essa história é que a alegação de 'cientificidade' (…) traz sempre em seu cerne a violência contra a cidadania. Se os administradores (…) são eles próprios governados por imperativos ditos 'científicos' (…), não há o que negociar com os cidadãos, essa massa de ignorantes portadores de todos os vícios (…).” (CHALHOUB, 1996, p. 58). O “não há o que negociar” se manifesta quando Sujismundo é retratado como indiferente à insatisfação daqueles que estão ao seu redor, quando é alvo de chacota ou, ainda, no episódio em seu ambiente de trabalho, quando é colocado para trabalhar dentro da lixeira pelo seu chefe – por isso não era chefe e nunca o seria. Eram anos de industrialização e interessava à ditadura formar uma mão-de-obra sadia, disciplinada e produtiva.
É claro que essa associação entre povo e sujeira já existia antes da ditadura e continua existindo sob formas variadas. Uma variação dessa imagem é a que associa os mais pobres à violência, como estamos vendo com frequência atualmente. É um discurso elitista que tem o objetivo de legitimar hierarquias e exclusões sociais, como se essas práticas não estivessem presentes em diferentes grupos sociais. Entretanto, a ditadura potencializou a difusão dessas imagens pejorativas sobre o povo ao coibir com particular intensidade a livre manifestação daqueles que eram e são vítimas desses discursos preconceituosos.

Referências bibliográficas.

ALMEIDA, Maria Hermínia Tavares de; WEIS, Luiz. Carro-Zero e Pau-de-Arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz (Org.). História da Vida Privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. v. 4.
CHALHOUB, Sidney. Cidade Febril: cortiços e epidemias na Corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

Prof. Paulo Renato da Silva

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Entrevista em vídeo: María Silvina Sosa Vota, bacharel em História – América Latina, Mestre em Integração Contemporânea da América Latina (ICAL-UNILA)

Encerramos nesta semana mais um semestre de nosso blog com uma postagem especial: a primeira entrevista em vídeo produzida por nosso projeto. A entrevistada é María Silvina Sosa Vota, bacharel do curso de História – América Latina. A semana que escolhemos para a publicação da postagem proporciona também uma oportunidade de parabenizar Silvina, que na última sexta-feira (dia 15/12), defendeu seu mestrado no Programa de Pós-Graduação em Integração Contemporânea da América Latina (ICAL) da UNILA, com a dissertação "Prensa Satírica en el Río de la Plata a Finales del Siglo XIX: el caso de 'El Mosquito' (Buenos Aires) y 'La Ortiga y el Garrote' (Montevideo)". O trabalho foi orientado conjuntamente pelos professores Paulo Renato da Silva e Rosangela de Jesus Silva (ambos do curso de História - América Latina da UNILA), e contou, na banca, com os professores José Alves Freitas Neto (UNICAMP) e Viviane da Silva Araujo (UNILA).
Acompanharemos, na entrevista, Silvina falar de sua experiência na UNILA, e os significados de ser latino-americano. A entrevista foi conduzida, produzida e finalizada pela equipe do blog nesse semestre, equipe que merece nossos cumprimentos pelo ótimo trabalho realizado no projeto: os bolsistas Rodrigo Ishihara Abranches e Alexandre Araujo de Sousa, e os voluntários Tarcisio Moreira de Queiroga Júnior e Marcella Vieira.
Continuaremos com postagens ao longo das férias, e desejamos aos leitores um ótimo final de ano e um Feliz 2018!



Pedro Afonso Cristovão dos Santos

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Tradiciones y conmemoraciones populares en Paraguay

Paraguay tal vez sea uno de los países con menos feriados en América Latina, pero si es un país con muchas tradiciones culturales que se conmemoran cada año. Algunas conmemoraciones tienen explicaciones muy ficticias, otras tienen sentido, pero no importa; lo importante es que siempre se conmemora sin importar la clase social a la cual se pertenece.
El mes de las tradiciones o conmemoración es el mes de octubre y noviembre. Comenzando por el 1° de octubre fecha en la que se conmemora la llegada del ‘’Karai octubre’’ (señor octubre); según la tradición popular en esta fecha se debe de preparar un plato tradicional denominado ‘’Jopará’’ (mezcla) que únicamente se prepara en esta fecha y es preparada en todos los hogares del país, incluso en los patios de comidas o restaurantes a lo largo y ancho del Paraguay.
Karaí octubre es un festejo guaraní que se remonta mucho antes de la llegada de los españoles a América, cuando en la época en que florecían los lapachos los guaraníes notaban que aflojaban sus reservas de alimento, ya que no había frutos que recoger en el monte y los animales estaban muy flacos por la salida del invierno, y la agricultura que hacían (maíz, mandioca, batata) recién se sembraba a partir de ese mes. En fin, lo único que había por doquier era miseria.
Pero como el guaraní era un hombre muy positivo en su manera de pensar, no veía mejor manera de contrarrestar esta miseria que hacer una gran comilona y danzando para que su Dios Tupá (Dios Padre) aleje la pobreza. Cuando llegaron los españoles y al convivir con los guaraníes, vieron precisamente que al comenzar la temporada de primavera se quedaban cortos de alimentos, adoptaron esa tradición uniéndose a la gran comilona y al baile.
Según la tradición, octubre es el mes en que escasean los alimentos: la mandioca, el maíz y otros productos vegetales son más difíciles de conseguir en el campo. Por eso, el día 1 se come puchero con locro, poroto, arroz y verduras en abundancia, el muy famoso “jopará’’.  El Karaí (señor) Octubre es, según la creencia popular, un duende maléfico que sale todos los 1 de octubre a recorrer las casas y ver quiénes tienen suficiente comida. Es un duende inspector que va mirando si la gente sembró y trabajó durante el año y supo guardar para los meses en que no hay cosecha. Ese día al pasar por las casas debe comprobar que hay suficiente comida y que la convidan a sus vecinos. A quienes no cuidaron los castiga con miseria hasta fin de año y a los que tienen para convidar los premia con abundancias. A continuación, la imagen del Karai octubre: 


Y como era de esperarse en mi casa no se ha dejado pasar la fecha, como cada año mis padres nos muestran a mis hermanos y a mí de cómo preparar el tradicional plato del ‘’Jopara’’. Reunidos en la casa en familia se conmemoro el 1 de octubre para espantar la escasez alimentaria y así asegurarnos con la abundancia en lo que resta del año. Aunque yo no sé hasta qué punto esto pueda ser cierto, ya que la escasez o abundancia depende de otros factores y no solo de la llegada del karai octubre. Lo cierto y lo concreto es que estas tradiciones unen a la familia para disfrutar de buena comida y mucha alegría.
A seguir comparto las fotos de ese día en familia conmemorando el 1 de octubre.




Fotos tomadas por: Mariela Raquel Melgarejo
Fecha: 01/10/2017
Ciudad del Este, Paraguay 

Otra de las fechas conmemorativas tradicional en Paraguay es el 1 y 2 de noviembre, el 1 se celebra la fiesta de Todos los Santos se remonta a principios del siglo IV, cuando la iglesia decidió honrar a los mártires por el poder romano. Y el 2 de noviembre se celebra el día de los difuntos.
En estas fechas en Paraguay se acostumbra a realizar comilonas en honor a los seres familiares difuntos, además algunas familias asisten a misa muy temprano para luego ir a visitar la tumba de los difuntos en el cementerio para limpiar la última morada, elevar alguna oración, cambiar las flores, recordar con dolor a esos familiares que ahí descansan, pero mirando la vida por delante con la esperanza de honrar la memoria de esos allegados que ya no están.
Estas visitas son siempre acompañadas de muchas golosinas y chipa paraguaya que son repartidas entre todos los presentes y niños que frecuentan la zona en estas fechas. Según la explicación dada por mis abuelos estas actividades son realizadas por una creencia religiosa que los gastos realizados en ese día son hechos en honor al difunto, como una ofrenda por el alma de la persona fallecida. Generalmente en estas fechas los cementerios se llenan de personas que visitan la tumba de sus seres queridos. 




Mariela Raquel Melgarejo López 

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Jardim Jupira: uma heterotopia (*) do medo iguaçuense


As fronteiras nacionais são fenômenos bem mais complexos, não se resumem a limites, divisas, tratados diplomáticos, nem podem ser simplificados como o lugar do narcotráfico e do contrabando. Não existe a fronteira em abstrato, o que existem são situações sociais e singulares de fronteiras. Alguns fenômenos podem ser generalizados para outros contextos fronteiriços e outros são específicos de uma dada configuração social. (ALBUQUERQUE, 2010, p. 42).

            A cidade de Foz do Iguaçu limítrofe com os países do Paraguai e Argentina, possui população estimada em 263.915 habitantes, de acordo com dados do IBGE 2016. A construção da Ponte da Amizade que interliga Foz do Iguaçu no Brasil e Ciudad del Este no Paraguai, nas décadas de 1950-1960 significou um marco nas relações socioculturais e econômicas de ambas cidades.
             A difundida imagem da cidade de Foz do Iguaçu enquanto local turístico por causa das Cataratas das últimas décadas está atrelada à construção da empresa binacional Usina de Hidrelétrica Itaipu entre 1975 e 1982. De acordo com Aparecida Darc de Souza, docente na Universidade Estadual do Oeste do Paraná, a construção, foi responsável pela alteração da estrutura urbana e da dinâmica social e econômica local, fator que promoveu uma rápida urbanização espacial (SOUZA. 2009; P.79).
            A não planejada urbanização resultou na configuração de espaços de ‘centrais’ e ‘periféricos’, atrelados aos aspectos econômicos e as delimitações sobre quem os ocupariam. Ao propor o estudo dos autores Gonzalez e Hasenbald (1982) considero a  analogia que fazem entre as condições atuais de vida da população negra nas periferias, e o passado vivenciado no estigma das senzalas. Assim, as favelas teriam sucedido as senzalas, e sempre nas margens, ou em regiões periféricas do centro, lá estão os “negros e seus locais”.
            O “lugar de negro” no tempo colonial correspondia ao não lugar do senhor – ou seja, à senzala, à cozinha ou o local de produção. Nas sociedades atuais esses espaços se converteram nas cidades dormitórios, favelas, fábricas escuras, mas é dentro das prisões, hospícios e cemitérios que a exclusão nega a esses sujeitos suas faculdades políticas (Gonzalez, L; Hasenbald,C. 1982 P15-16).
            O bairro do Jardim Jupira, ou favela do bolo como é conhecido, é um espaço periférico na sociedade iguaçuense, facilmente associado ao tráfico e ao comércio ilegal de mercadorias. Dada a proximidade com a Ponte da Amizade, não é apenas um local do encontro do nacional e internacional; mas é um local criado sobre o imaginário do medo, da violência e do perigo. Dessarte, os residentes desta fronteira sendo eles, imigrantes, indígenas ou negros pobres, estão a margem também das politicas eugênicas e xenofóbicas proposta pelo Estado. Os discursos midiáticos corroboram na  (re)produção da heterotopia do terror atrelado ao espaço.
            Também podemos considerar a relação entre centro e periferia enquanto um pensamento abissal da modernidade que pode ser traduzido pelo que chamou Boaventura de Souza Santos (2007) de dois universos destino, no qual a realidade estaria divida por linhas radicais. Contudo, essas linhas consistem num sistema de distinções visíveis e invisíveis, sendo que as invisíveis fundamentam as visíveis (SANTOS. 2007; P.1).
            O silêncio que continua sendo entendido estatalmente como cumplicidade, embora simbolize também um intento de seguridade interna e externa dentro da periferia. O Estado, por vezes, é o maior repressor nesses espaços. A realidade na periferia segue marcada pela frase que nos deixou o cantor e compositor Sabotagem: ‘a maior malandragem da vida é viver’.
          Como Albuquerque (2010, p. 42) bem exemplifica, fronteira não deve ser entendida apenas como delimitação territorial, e tampouco reduzida ao local do ilícito. Assim sendo, as linhas geográficas naturais ou criadas, não delimitam apenas os pertencimentos estatais no caso da região da Tríplice Fronteira, mas atuam como um sistema de divisões invisíveis, que quando baseadas em esteriótipos fundamentam a recusa do tido ‘outro’ seja ele internacional ou nacional.

(*) NOTA: Heterotopia, conceito foucautiano usado para se referir aos locais sobre os quais são projetados características duais, por vezes antagônicas.  Texto base do conceito -FOUCAULT, Michel. Outros espaços. Ditos e escritos, v. 3, p. 411-422, 2001.

Referências:
ALBUQUERQUE, José Lindomar C. A dinâmica das fronteiras: os brasiguaios na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. São Paulo: Annablume, p. 33-58, 2010.
GONZALEZ, Lélia; HASENBALG, Carlos Alfredo. Lugar de negro. Editora Marco Zero, 1982.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Novos estudos-CEBRAP, n. 79, p. 71-94, 2007.
SOUZA, Aparecida Darc de. Formação econômica e social de Foz do Iguaçu: um estudo sobre as memórias constitutivas da cidade (1970-2008). 2009. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.


Raquel Santos Souza, Graduanda do curso de História - América Latina pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Filme histórico: fonte histórica e seus tipos, por Gabriel Antônio Butzen

O filme se constitui como um artefato culturas de extremo contato com a sociedade atual. Marc Ferro (1992) diz que todo filme que é produzido em um determinado tempo é uma fonte histórica, que pode ser analisada como tal. Ou seja, analisar o contexto de sua produção, a data que o filme foi realizado e as pessoas que participaram de sua construção. Outros estudos (SOUZA, 2012) também apontam que a narrativa fílmica também é importante para o estudo da história (mais especificamente, do ensino de história). É baseado nesses estudos que podemos classificar os tipos de filmes históricos.
Em resumo, podemos definir três tipos de filmes históricos (SOUZA, 2012):

1.    Filme Histórico que narra um fato histórico.  O filme, nesse caso, tem a intenção de narrar um fato no passado que “realmente aconteceu”, contando a história objetiva do passado.
 

O filme “O Jovem Marx” (2016) é um exemplo de filme que narra um fato histórico (Extraído: http://cinecartaz.publico.pt/Filme/371697_o-jovem-karl-marx. Acesso em: 15/10/2017).

2.    Filme Histórico que recua ao passado. Aqui o filme usa um tempo histórico, uma data, como “pano de fundo” para uma narrativa ficcional do passado. Assim é uma história inventada que se passa em um tempo histórico.


O filme “Pra Frente Brasil!” (1982) é um exemplo de filme que recua no passado para narrar uma história ficcional. (Extraído: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pra_frente,_Brasil. Acesso em: 15/10/2017).

3.    Filme Histórico de “cultura de massa”. Esse filme pode ser tanto um filme histórico ou um filme que recua ao passado, mas sua maior característica é a de estar presente para o “grande público”, como cinemas e televisão. Pois muitos filmes históricos tem a característica de ser “cult”, pertencer a um grupo mais fechado de espectadores.

O filme “Dunkirk” (2017) pode ser caracterizado como filme histórico de fato histórico, mas teve relativo sucesso e foi exibido nos cinemas, podendo ser também um filme de “cultura de massa”. (Extraído: http://www.imdb.com/title/tt5013056/. Acesso em: 15/10/2017).

Saber a diferença entre esses tipos de filmes abre um leque maior de possibilidades de estudos históricos com essas fontes históricas. Um exemplo é como uma determinada sociedade do passado lidava com filmes históricos, qual tipo de filme essa sociedade mais assistia? Ou no ensino de história e filmes, analisando qual a recepção dos estudantes de um filme histórico em comparação com outros tipos de fontes históricas (como livros, imagens, esculturas). Saber essas categorias pode contribuir para a pesquisa acadêmica.

Referências:

FERRO, Marc. Cinema e História. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
SOUZA, Éder C. de. O Uso do Cinema no Ensino de História: Propostas Recorrentes, Dimensões Teóricas e Perspectivas da Educação Histórica. Escritas. Araguaiana, v.4, p.70-93, mar. 2012.


Autor: Gabriel Antônio Butzen, estudante de História – Licenciatura – UNILA.

Revisão: Pedro Afonso Cristovão dos Santos