quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Sem nome! Porque algo sem nome não tem um dono

As linhas a seguir foram tecidas em prol de um trabalho acadêmico para a disciplina Eurocentrismo e Colonialidade, ministrada pelo o professor Gerson Ledezma no segundo semestre do ano de 2016, na Universidade Federal da Integração Latino-Americana. Trabalho esse que visava quebrar de certo modo os moldes engessados do mundo universitário, pois os estudantes poderiam optar em desenvolver artigos, ensaios possibilitando até manifestações artísticas, como no meu caso que de modo sintético, optei em me expressar por um viés poético a partir dos conteúdos debatidos em sala e reflexões que a disciplina me permitiu.

Sem nome! Porque algo sem nome não tem um dono.

Atualmente o capitalismo está apático,
Depois da colonização
Europeus e seu sistema hierárquico.
Colonialidade do ser e do saber
Tudo farinha do mesmo saco.

Sob as entranhas da ganância,
Banhada a ouro e temperada de arrogância.
Atacaram a Síria responderam com terror na França.
Em 1998 ergueram do mundo a taça,
Antes de 1492 não existia a ideia de raça.
Meus olhos se entristecem ao meio de tanta desgraça,
Qual sua válvula de escape?
Uns optam por súplicas aos céus,
Já eu jogo no time da cachaça.

Aqueles que não valorizam os reais valores
Colocam em tudo um preço,
E ainda se consideram vencedores.
Chegaram de maneira naval,
Padronizando e vendendo a ideia do que é ser normal.
Mataram para impor um conceito,
Até hoje muitos bóiam nas ondas dos preconceitos.
Opa! Nesta brincadeira caímos da gangorra,
Inferiorizados pela hierarquização colonizadora.

Aí, sem maldade!
Tecnologia, progresso e civilidade,
Trouxeram a ideia de propriedade.
Resistiu, vacilou o rei já assina,
Derramam as lágrimas nativas,
A ordem rabiscada com uma pena
provocando demasiada chacina.

Rótulos nos potes de estereótipos,
Silêncio no set, câmera ação, zoom
Atualmente algo comum no país do bumbum,
Tarcísio Queiroga desde 1991,
Surfando pelas veias abertas da América Latina
Fruto de glórias e carnificinas
Flechas, pólvora e um pouco de glicerina,
Conquistadores sob impérios de cocaína,
Indígenas subjugados pelos portadores de batinas.

A tal troca cultural,
Às vezes se dá de forma brutal,
12 de outubro de 1492
Não gostei, mas não dá pra mudar de canal.
2016 se devoram por causa do pré-sal
A batalha dos famintos dentro de algum tribunal.

Assim, mais uma vez ressalto,
América rolou o maior assalto.
Realmente aqui a comédia não foi tão divina.
Pois, enquanto a Europa recua a tropa,
E o tempo não volta,
O poder troca de mão,
AlI right, “MAYDAY, MAYDAY” Tio Sam na missão,
Boom! Iraque na mira do canhão,
Violência gera violência, agressão gera agressão
Pode anotar, pois a natureza vai cobrar
Com licença! Já está passando o furacão Katrina,
Naqueles que jogaram a bomba de Hiroshima,
Fazendo do mundo o que bem entendem,
Literalmente nos jogando na latrina.

Extraído de https://media.giphy.com/media/s3gy5Ez7f7HMs/giphy.gif, acesso em 20/09/2017


Tarcísio Queiroga

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

"Foi uma experiência única": entrevista com Ariana Mara da Silva, bacharel em História – América Latina pela UNILA



Nessa semana de mobilizações em torno do projeto da UNILA, trazemos ao blog um pouco da experiência de nosso curso de História pelo olhar de Ariana Mara da Silva, formada no curso em 2016. Atualmente na pós-graduação da Universidade Federal da Bahia, Ariana conta sua visão do que a UNILA proporcionou de único em sua formação, descrevendo ainda a pesquisa que realiza atualmente no mestrado, sobre mulheres lésbicas negras artistas de rap na América Latina, também marcada por estudos iniciados na UNILA. A entrevista foi realizada por Alexandre Araújo de Sousa, bolsista de extensão do blog.

Quando você entrou no curso de História – América Latina da UNILA? E porque escolheu a UNILA?

Ariana Mara da Silva: Eu entrei na UNILA em 2011. O nome do curso ainda era “História e Direitos Humanos na América Latina” e eu recém tinha saído do curso de Relações Internacionais em uma universidade privada da minha cidade. Nessa universidade anterior eu tive uma professora formada pelo PROLAM/USP e ela falava muito sobre América Latina. Havia no curso de RI uma grande expectativa sobre a criação da “Universidade do Mercosul”, que já havia sido anunciada pelo Lula, então quando a UNILA foi criada eu já estava esperando. O objetivo inicial era terminar RI e fazer História em qualquer universidade pública, como havia ainda Direitos Humanos e América Latina no nome do curso, eu me inscrevi.

Como foi sua experiência no curso, inclusive pela abordagem latino-americana?

Foi uma ótima experiência. O acesso à teoria decolonial, à teoria feminista e a autores pouco contemplados por outras universidades foi o diferencial na minha formação, essa é a parte mais evidente para mim. Ao invés de reproduzir o cânone eurocêntrico, o curso de História na UNILA me possibilitou uma mudança no ângulo de visão de maneira tão intensa que em quatro anos eu me tornei outra pessoa, mais consciente politicamente e mais comprometida com a minha amefricanidade, como diria Lélia Gonzalez. Foi uma experiência única.  

Quando você se formou?

Minha colação de grau foi em 21 de maio de 2016.

Em qual faculdade você está fazendo mestrado? Como foi o processo de entrada?

Eu estou fazendo mestrado na Universidade Federal da Bahia. Acho que o processo foi bastante parecido com o de outras universidades: escrevi um projeto, me inscrevi, fiz as provas teóricas e de inglês e uma entrevista. Foi um pouco tenso, porque mudei de cidade sem dinheiro, a seleção foi no verão e emendou com o carnaval, enfim, mas acho que nada muito diferente.

Quando você entrou no mestrado, sentiu diferença no sentido de estar fazendo uma faculdade mais “tradicional”, sem a proposta curricular à qual você estava acostumada na UNILA?

Sim e não. Eu faço mestrado no Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo – NEIM/UFBA, então algumas coisas são mais acolhedoras do que em “universidades tradicionais”. Creio que senti a diferença em relação às colegas, muitas adeptas do feminismo materialista, com uma visão bem específica de gênero e classe, por exemplo. Como eu vinha de outro lugar, minhas ideias eram pautadas em interseccionalidade e decolonialidade. Senti também a bibliografia da disciplina de introdução, com uma carga extensa de leitura de autoras europeias e estadunidenses. Ao mesmo tempo, tive uma disciplina de raça, classe e gênero, com autores e autoras negros e/ou latino-americanos que me foram apresentados na UNILA, então era um pouco dúbia a sensação.  

Qual a reação das pessoas dentro e fora da academia quando você conta que fez graduação na UNILA?

As pessoas de fora, não sabem muito o que é a UNILA, mas em cinco minutos de conversa eu explico e elas amam a ideia. Já as pessoas acadêmicas conhecem e muito bem o projeto. Na Bahia tem um campus da UNILAB, universidade irmã da UNILA, então há um reconhecimento, um afeto e muita curiosidade em relação à universidade e à integração. Tenho algumas colegas que tentaram estudar na UNILA e por algum motivo não conseguiram e algumas que ainda querem estudar e conhecer. A reação é sempre de admiração, nunca ouvi nada negativo.

Atualmente, qual seu tema de pesquisa no mestrado? Comente um pouco para nós.

Eu pesquiso mulheres lésbicas negras que fazem rap na América Latina. É um projeto com total influência da UNILA, primeiro porque falar de lésbicas negras foi um tema que eu escolhi durante a graduação, participei de diversos eventos com artigos sobre esse tema. Segundo porque lésbicas negras também foi o tema do meu TCC, onde entrevistei militantes da década de 1970 e analisei o discurso de um jornal gay no período. E por último, mas não menos importante, minha co-orientadora, que também co-orientou meu TCC, é da UNILA, Andreia Moassab, uma das pessoas que mais vestiu a camisa da integração latino-americana que eu conheço. O rap e a música também foram temas recorrentes durante a minha graduação, os projetos de extensão no Cidade Nova com Mano Zeu, um evento da PROEX com o GOG, o projeto de extensão do qual eu fazia parte que discutia diversidade sexual e gênero nas escolas públicas de Foz do Iguaçu, as organizações das Semanas da Consciência Negra, um projeto de pesquisa sobre guarânias e chamamés. Tudo isso influenciou a escrita do meu projeto de mestrado e me influencia ainda hoje.

Alexandre Araújo de Sousa


Revisão: Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O passado e a história

Marc Bloch já advertira, em Apologia da História, ou, O Ofício do Historiador, que os historiadores não estudam o passado. Estudam, sim, os homens “no tempo”. No entanto, o passado, enquanto objeto e constante presença, compõe parte importante das preocupações dos historiadores. Pensar sobre o que é passado tem feito historiadores e teóricos da história observarem que convivemos com diferentes “passados”, ou diferentes visões sobre os mesmos.
No romance inglês The Go-between, de L. P. Hartley, publicado em 1953, há uma frase que se tornou emblemática de uma forma específica de enxergar o passado: “O passado é um país estrangeiro; eles fazem as coisas de forma diferente lá” (“The past is a foreign country; they do things differently there”). Nessa visão, o passado é estranho, é diferente do nosso presente, e esse gesto de marcar uma diferença entre nós (hoje) e eles (ontem) seria inaugural do pensamento histórico. Separamos uma parte da realidade, a denominamos passado, e nos dedicamos a estudá-la, partindo desse princípio de que encontraremos “lá” costumes, ideias e práticas diferentes das que vivemos hoje. Ainda nessa linha, o historiador age de certa forma como um etnógrafo que desembarca em uma sociedade distinta da sua.
Tal definição de passado depende também de aceitarmos o passado cronológico, isto é, uma instância no tempo separada de nosso presente. A definição de presente é controversa, portanto o que entendemos como passado depende do contexto (pode ser algo que ocorreu há 500 ou a 5 anos, dependendo do ponto no tempo no qual marcamos a ruptura entre um e outro). O passado enquanto unidade cronológica se sustenta, ainda, em uma particular definição de tempo. Compreendemos o tempo, nesse caso, como homogêneo (formado por unidades idênticas entre si), discreto (cada unidade pode ser entendida como um ponto em uma linha), e, especialmente, linear, direcional (fluindo sem interrupção entre passado, presente e futuro) e absoluto (transcorrendo independentemente de quem o observa). O estudo do passado, nesse caso, coloca ao historiador a questão da distância histórica, de seu afastamento em relação a seu objeto de estudo. Tal distância não é apenas temporal (isto é, não se trata somente do tempo transcorrido entre a época do historiador e a época que este estuda). Pode ser também uma distância afetiva (marcando um distanciamento pessoal do historiador em relação a seu tema), ou discursiva. Esta última remete à distância que o historiador estabelece como observador; a micro história, por exemplo, cerra seu campo de visão aproximando bastante o observador de seus sujeitos de pesquisa.
A relação entre o passado e nosso tempo também demanda exame. Podemos compreender o passado como completo, como concebia o historicismo, entendendo-o como um conjunto de épocas em sucessão, cada qual fechada, concluída. Ou podemos pensar o passado como camadas sobrepostas ao presente (como em Braudel), camadas que convivem com nosso tempo, interagem com ele, mantendo-se vivas em nossa realidade.
Nesse último caso, convivemos com um passado presente, vivo em nosso tempo. A música do século XVIII que ainda escutamos, por exemplo, as heranças materiais legadas por outras épocas, o patrimônio histórico. Mais significativo ainda para o historiador são as formas por meio das quais o passado pode aparecer para o presente: como motivo de admiração, de inspiração, ou de ansiedade (como algo a nos assombrar), ou como objeto de fascinação, de interesse intelectual ou estético.
O filme franco-italiano-iraniano O passado (2013), do diretor iraniano Asghar Farhadi, trabalha a dimensão da presença por vezes assombrosa do passado no presente.


Assim, o passado pode ser compreendido e sentido de várias formas. Uma história como a latino-americana, rica em tradições culturais, sociais e políticas, mas também em traumas, pode ter sua compreensão enriquecida se pensarmos em como nossas sociedades hoje, na América Latina, concebem o passado, e o que este desperta em nós atualmente.

Indicações de leitura:

O livro de PAUL, Herman. Key Issues in Historical Theory. Nova Iorque e Londres: Routledge, 2015, traz resumo das concepções de passado expostas em nosso post. A obra de SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo, Companhia das Letras; Belo Horizonte, MG Editora da UFMG, 2007 contém uma reflexão muito rica sobre a memória e o passado na história latino-americana.

Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

quinta-feira, 27 de julho de 2017

A preservação de arquivos digitais

Comentamos, no post “A formação e preservação de arquivos e a escrita da história”, projeto de lei no Brasil que prevê a destruição de documentos após sua digitalização. A proposta sugere noção de segurança a respeito dos arquivos digitais que, no entanto, ainda está longe de ser realidade. O registro em forma digital não possui, por ora, a garantia de longevidade que poderíamos esperar. Incêndios, roubos, deterioração, podem destruir papéis e documentos físicos; mas outros tipos de perigo cercam os documentos digitais, e sua preservação para o futuro permanece questão complexa para arquivistas e historiadores.
Os arquivos digitalizados e os arquivos já “nascidos” digitais, como e-mails, vêm colocando problemas a esses especialistas quanto à sua preservação desde os anos 1980 e 1990. A fragilidade desses registros se destaca: um livro antigo pode ter uma parte danificada (algumas páginas, por exemplo), enquanto arquivos digitais, em muitos casos, quando são danificados, se perdem por completo. Um problema a mais deve ser acrescentado: a questão da legibilidade do arquivo preservado. A constante atualização dos programas, dos software e hardware, faz com que arquivos preservados em mídias antigas se tornem ilegíveis depois de algum tempo. A tecnologia necessária para acessá-los deixa de existir. Atualmente, pensa-se (e pratica-se) inclusive uma nova forma de arqueologia, voltada para recuperar esses dados: a arqueologia digital.
Além disso, muitos arquivos digitais, como páginas da web, estão em linguagem de hipertexto, possuem camadas de informação (como os links, que conectam uma página a outra, a exemplo da interface do nosso blog). Imprimir páginas, ou preservá-las, envolve a dura tarefa de preservar também esses links. Isso sem mencionar as questões legais e éticas compreendidas na preservação de arquivos digitais, tais como o problema dos direitos autorais.
Este é apenas um pequeno apanhado dos problemas relacionados à preservação dos arquivos digitais ou digitalizados, que nos levam a olhar com muita cautela propostas de destruição de documentos físicos. Tratamos aqui somente de questões “técnicas” relativas à preservação, pois a destruição de arquivos envolve também graves questões éticas. Deixamos a seguir aos leitores o link para o documentário Into the Future (1998), de Terry Sanders, com legendas em português, que, ainda nos primórdios da internet, apontou grande parte dos problemas da preservação de documentação digital, muitos deles ainda inquietantes.


Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Dos arquivos do blog: “A Universidade Latino-Americana: suas possibilidades e responsabilidades”

No contexto dos debates atuais a respeito da UNILA, retomamos uma das postagens mais lidas de nosso blog, publicada em dezembro do ano passado: "A Universidade Latino-Americana: suas possibilidades e responsabilidades", em português e espanhol. A atualidade de uma discussão com (pelo menos) mais de cinquenta anos nos surpreende e inspira.

Confiram o texto em português:


E em espanhol:



A América invertida, do artista uruguaio Joaquín Torres Garcia (1874-1949), de 1943 (imagem extraída de http://semiedu2013.blogspot.com.br/2013/04/nuestro-norte-es-el-sur.html, acesso em 21 de julho de 2017)


Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

quinta-feira, 13 de julho de 2017

A formação e preservação de arquivos e a escrita da história

Segundo Michel de Certeau, “Em história, tudo começa com o gesto de selecionar, de reunir, de, dessa forma, transformar em ‘documentos’ determinados objetos distribuídos de outra forma”. Essa tarefa consiste em “produzir tais documentos”, “em ‘isolar’ um corpo”, formando uma “coleção” (CERTEAU, 1976, p. 30, grifos no original). Para Certeau, o primeiro ato do que chama de operação histórica, a produção do conhecimento em história, é a formação de um conjunto de fontes por parte do historiador. Certeau compreende que o historiador “produz” suas fontes porque estas não existem em si; isto é, um registro do passado, um artefato, não é por si só uma fonte para o historiador. Depende do gesto deste último, que retira os artefatos de seu circuito original, separa-os e denomina-os arquivos. Seus questionamentos farão o arquivo falar, constituindo-os com fontes para o problema que move a pesquisa do historiador.
Indo além da prática de historiadores, em particular, como podemos pensar a constituição de arquivos públicos, de uso geral? Pois o historiador não necessita das fontes apenas para si, mas para submeter seus escritos à aceitação mais ampla. A historiografia, em sua prática moderna (especialmente a partir do século XIX), se baseia (ao menos em teoria) na ideia de uma esfera pública (conceito do filósofo alemão Jurgen Habermas). A existência de um espaço público que permita o acesso aos leitores dos textos de história das mesmas fontes de que se valeram os historiadores que os escreveram é essencial para a historiografia moderna. Ao menos teoricamente, o leitor não tem obrigação de acreditar no que encontra nos textos de história apenas fiando-se no historiador como autoridade, mas pelo fato de que poderá verificar, com seus próprios olhos, as fontes utilizadas pelo historiador. Como, então, se constituiriam os arquivos públicos essenciais para a prática da história, tanto para sua escrita como para sua leitura?
Segundo o historiador indiano Dipesh Chakrabarty (2015), duas forças sociais, em linhas gerais, comandam esse processo: o Estado e o mercado. Os Estados, em especial a partir do século XIX, assumem a tarefa de tomar para si documentos particulares e guardá-los em instituições públicas, sob a alegação de que passam a ser registros de interesse público, necessários à preservação da memória e à escrita das histórias nacionais. Por outro lado, o mercado emerge, mais ou menos no mesmo período, como força constituidora dos arquivos modernos. Surge um mercado de livros raros e documentos antigos, que transforma esses artefatos em objetos de desejo para colecionadores, que passam a pagar, às vezes, preços altos por eles. Como aponta Chakrabarty, os arquivos modernos são instituições ao mesmo tempo democráticas e autoritárias: por um lado, disponibiliza-se para o grande público um conjunto de registros do passado; por outro, artefatos particulares passam a ser tomados de seus proprietários originais, e têm seu estatuto alterado (perdem o sentido original que possuíam nos domínios privados, e passam a ser fontes, arquivos).
Chakrabarty faz observação para o caso da escrita da história na Índia, que pode ser interessante para pensar a formação dos arquivos no Brasil e outros países da América Latina: o modelo europeu de uma esfera pública, burguesa, não necessariamente se aplica a outros países. Nesses casos, a formação dos arquivos se deu em meio a uma relação entre público e privado distinta, na qual muitas vezes os historiadores faziam-se colecionadores, e guardavam para si documentos históricos cujo acesso deveria ser público. A essas peculiaridades se soma também a difícil relação do poder público com os arquivos.


Os arquivos públicos possuem várias outras funções sociais além de servirem à escrita da história. No caso desta última, a formação e uso dos arquivos remetem ao caráter público da historiografia, à transparência na relação entre o historiador e seus leitores, no que concerne a verificação do que é dito por meio das fontes. A preservação dos arquivos, em suas características originais, é essencial para a memória e história das sociedades. Atualmente, no Brasil, discute-se justamente um projeto de lei, o PLS 146/2007, que prevê a destruição de documentos físicos após sua digitalização. No início deste ano, debate sobre a destruição de documentos históricos também mobilizou pesquisadores e historiadores argentinos (cf. http://www.eldiariodebuenosaires.com/2017/03/16/%F0%9F%97%84-investigadores-historiadores-y-organizaciones-piden-que-el-gobierno-no-destruya-documentos-historicos/, acesso em 13 de julho de 2017). Tais discussões colocam um debate essencial a respeito das políticas nacionais de preservação de arquivos.

Referências bibliográficas
CERTEAU, Michel de. “A operação histórica”. In: LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre. História: Novos Problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976, p. 17-48.
CHAKRABARTY, Dipesh. The Calling of History: Sir Jadunath Sarkar ad his Empire of Truth. Chicago: University of Chicago, 2015.

Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Utopias e distopias: histórias do futuro

Pensamos, na última postagem, na construção de narrativas sobre o passado realizadas por historiadores. Na postagem de hoje voltaremos nossa atenção para narrativas sobre o futuro: utopias (a imaginação de um futuro melhor) e distopias (o vislumbre de um futuro pior para a humanidade), presentes na literatura e em obras diversas de ficção científica, como filmes, séries e livros. O que nossas histórias sobre o futuro revelam sobre nosso presente? Como pensar essas obras enquanto documentos históricos, testemunhos de seus contextos de produção?
O teórico e crítico cultural britânico Raymond Williams (1921-1988) pensou a relação entre a literatura utópica/distópica e a ficção científica no texto “Utopia e ficção científica” (publicado originalmente em 1979). Williams, teórico marxista e um dos pioneiros dos Estudos Culturais, acreditava ser possível distinguir quatro tipos básicos de ficção utópica/distópica:

(a) o paraíso, no qual uma vida mais feliz é descrita como simplesmente existente em outro lugar; (b) o mundo alterado externamente, no qual um novo tipo de vida torna-se possível graças a um acontecimento natural inesperado; (c) a transformação almejada, na qual um novo tipo de vida é alcançado pelo esforço humano; (d) a transformação tecnológica, na qual um novo tipo de vida torna-se visível graças a uma descoberta técnica (WILLIAMS, 2011, p. 267).

Por correspondência, a partir das categorias da utopia, poderíamos pensar a literatura distópica: (a) um inferno encontrado em outra parte do mundo; (b) um tipo de vida menos feliz que surge de um acontecimento natural inesperado; (c) um tipo de vida menos feliz que surge pela degeneração social; e (d) uma deterioração das condições de vida causada pelo desenvolvimento tecnológico. Segundo Williams, as modalidades utópicas e distópicas características estariam presentes nas duas últimas categorias (“a transformação tecnológica” e “a transformação almejada”). Essas generalizações nos permitem pensar a alteridade, o novo mundo que é contraposto ao presente, e as formas de transformação que levam a ele. Estas últimas podem revelar muito das ansiedades e expectativas de uma época: os medos e esperanças em relação a projetos de transformação social, ou aos avanços tecnológicos que vivenciamos. Ou, como aponta Williams, “Não podemos abstrair o desejo” (WILLIAMS, 2011, p. 274); desejos, expectativas, medos, expressos nesses obras devem ser analisados no contexto histórico em que as obras se inserem (seja o contexto de produção, seja o contexto de recepção). Nesse sentido, Williams analisa algumas obras utópicas e de ficção científica, como Notícias de lugar nenhum (1890), de William Morris, e Os despossuídos (1974), de Ursula K. Le Guin.

Capa de Os despossuídos, de Ursula K. Le Guin, obra analisada por Raymond Williams em “Utopia e Ficção Científica”. Extraído de http://io9.gizmodo.com/5607981/ursula-le-guins-the-dispossessed-when-you-want-to-like-a-book-but-dont, acesso em 30 de junho de 2017.

As potencialidades de estudar características de nosso presente (como a forma pela qual vivenciamos o tempo) por meio da ficção científica é explorada em estudo recente dos professores Mateus Henrique de Faria Pereira e Valdei Lopes de Araujo (ambos da Universidade Federal de Ouro Preto). No artigo “Reconfigurações do tempo histórico: presentismo, atualismo e solidão na modernidade digital” (2016), os autores trabalham a experiência contemporânea do tempo analisando, entre outras fontes, um episódio da série de ficção científica Black Mirror. A forma como pensamos o futuro pode dizer muito sobre nosso presente, e sobre como imaginamos o processo histórico, isto é, como as transformações históricas podem ocorrer, e em que direção elas podem nos levar.
Como nosso post anterior, o texto de hoje também remete às discussões ocorridas no âmbito das disciplinas de Teoria da História oferecidas pelo curso de História – América Latina para os cursos de História e Letras, Artes e Mediação Cultural (LAMC), devendo muito à participação dos estudantes das disciplinas nos debates ocorridos em sala.

Referências bibliográficas:

PEREIRA, Mateus Henrique de Faria; ARAUJO, Valdei Lopes de. “Reconfigurações do tempo histórico: presentismo, atualismo e solidão na modernidade digital”. Rev. UFMG, Belo Horizonte, v. 23, n. 1 e 2, p. 270-297, jan./dez. 2016.
WILLIAMS, Raymond. “Utopia e Ficção Científica”. In: Cultura e Materialismo. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos