sexta-feira, 21 de julho de 2017

Dos arquivos do blog: “A Universidade Latino-Americana: suas possibilidades e responsabilidades”

No contexto dos debates atuais a respeito da UNILA, retomamos uma das postagens mais lidas de nosso blog, publicada em dezembro do ano passado: "A Universidade Latino-Americana: suas possibilidades e responsabilidades", em português e espanhol. A atualidade de uma discussão com (pelo menos) mais de cinquenta anos nos surpreende e inspira.

Confiram o texto em português:


E em espanhol:



A América invertida, do artista uruguaio Joaquín Torres Garcia (1874-1949), de 1943 (imagem extraída de http://semiedu2013.blogspot.com.br/2013/04/nuestro-norte-es-el-sur.html, acesso em 21 de julho de 2017)


Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

quinta-feira, 13 de julho de 2017

A formação e preservação de arquivos e a escrita da história

Segundo Michel de Certeau, “Em história, tudo começa com o gesto de selecionar, de reunir, de, dessa forma, transformar em ‘documentos’ determinados objetos distribuídos de outra forma”. Essa tarefa consiste em “produzir tais documentos”, “em ‘isolar’ um corpo”, formando uma “coleção” (CERTEAU, 1976, p. 30, grifos no original). Para Certeau, o primeiro ato do que chama de operação histórica, a produção do conhecimento em história, é a formação de um conjunto de fontes por parte do historiador. Certeau compreende que o historiador “produz” suas fontes porque estas não existem em si; isto é, um registro do passado, um artefato, não é por si só uma fonte para o historiador. Depende do gesto deste último, que retira os artefatos de seu circuito original, separa-os e denomina-os arquivos. Seus questionamentos farão o arquivo falar, constituindo-os com fontes para o problema que move a pesquisa do historiador.
Indo além da prática de historiadores, em particular, como podemos pensar a constituição de arquivos públicos, de uso geral? Pois o historiador não necessita das fontes apenas para si, mas para submeter seus escritos à aceitação mais ampla. A historiografia, em sua prática moderna (especialmente a partir do século XIX), se baseia (ao menos em teoria) na ideia de uma esfera pública (conceito do filósofo alemão Jurgen Habermas). A existência de um espaço público que permita o acesso aos leitores dos textos de história das mesmas fontes de que se valeram os historiadores que os escreveram é essencial para a historiografia moderna. Ao menos teoricamente, o leitor não tem obrigação de acreditar no que encontra nos textos de história apenas fiando-se no historiador como autoridade, mas pelo fato de que poderá verificar, com seus próprios olhos, as fontes utilizadas pelo historiador. Como, então, se constituiriam os arquivos públicos essenciais para a prática da história, tanto para sua escrita como para sua leitura?
Segundo o historiador indiano Dipesh Chakrabarty (2015), duas forças sociais, em linhas gerais, comandam esse processo: o Estado e o mercado. Os Estados, em especial a partir do século XIX, assumem a tarefa de tomar para si documentos particulares e guardá-los em instituições públicas, sob a alegação de que passam a ser registros de interesse público, necessários à preservação da memória e à escrita das histórias nacionais. Por outro lado, o mercado emerge, mais ou menos no mesmo período, como força constituidora dos arquivos modernos. Surge um mercado de livros raros e documentos antigos, que transforma esses artefatos em objetos de desejo para colecionadores, que passam a pagar, às vezes, preços altos por eles. Como aponta Chakrabarty, os arquivos modernos são instituições ao mesmo tempo democráticas e autoritárias: por um lado, disponibiliza-se para o grande público um conjunto de registros do passado; por outro, artefatos particulares passam a ser tomados de seus proprietários originais, e têm seu estatuto alterado (perdem o sentido original que possuíam nos domínios privados, e passam a ser fontes, arquivos).
Chakrabarty faz observação para o caso da escrita da história na Índia, que pode ser interessante para pensar a formação dos arquivos no Brasil e outros países da América Latina: o modelo europeu de uma esfera pública, burguesa, não necessariamente se aplica a outros países. Nesses casos, a formação dos arquivos se deu em meio a uma relação entre público e privado distinta, na qual muitas vezes os historiadores faziam-se colecionadores, e guardavam para si documentos históricos cujo acesso deveria ser público. A essas peculiaridades se soma também a difícil relação do poder público com os arquivos.


Os arquivos públicos possuem várias outras funções sociais além de servirem à escrita da história. No caso desta última, a formação e uso dos arquivos remetem ao caráter público da historiografia, à transparência na relação entre o historiador e seus leitores, no que concerne a verificação do que é dito por meio das fontes. A preservação dos arquivos, em suas características originais, é essencial para a memória e história das sociedades. Atualmente, no Brasil, discute-se justamente um projeto de lei, o PLS 146/2007, que prevê a destruição de documentos físicos após sua digitalização. No início deste ano, debate sobre a destruição de documentos históricos também mobilizou pesquisadores e historiadores argentinos (cf. http://www.eldiariodebuenosaires.com/2017/03/16/%F0%9F%97%84-investigadores-historiadores-y-organizaciones-piden-que-el-gobierno-no-destruya-documentos-historicos/, acesso em 13 de julho de 2017). Tais discussões colocam um debate essencial a respeito das políticas nacionais de preservação de arquivos.

Referências bibliográficas
CERTEAU, Michel de. “A operação histórica”. In: LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre. História: Novos Problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976, p. 17-48.
CHAKRABARTY, Dipesh. The Calling of History: Sir Jadunath Sarkar ad his Empire of Truth. Chicago: University of Chicago, 2015.

Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Utopias e distopias: histórias do futuro

Pensamos, na última postagem, na construção de narrativas sobre o passado realizadas por historiadores. Na postagem de hoje voltaremos nossa atenção para narrativas sobre o futuro: utopias (a imaginação de um futuro melhor) e distopias (o vislumbre de um futuro pior para a humanidade), presentes na literatura e em obras diversas de ficção científica, como filmes, séries e livros. O que nossas histórias sobre o futuro revelam sobre nosso presente? Como pensar essas obras enquanto documentos históricos, testemunhos de seus contextos de produção?
O teórico e crítico cultural britânico Raymond Williams (1921-1988) pensou a relação entre a literatura utópica/distópica e a ficção científica no texto “Utopia e ficção científica” (publicado originalmente em 1979). Williams, teórico marxista e um dos pioneiros dos Estudos Culturais, acreditava ser possível distinguir quatro tipos básicos de ficção utópica/distópica:

(a) o paraíso, no qual uma vida mais feliz é descrita como simplesmente existente em outro lugar; (b) o mundo alterado externamente, no qual um novo tipo de vida torna-se possível graças a um acontecimento natural inesperado; (c) a transformação almejada, na qual um novo tipo de vida é alcançado pelo esforço humano; (d) a transformação tecnológica, na qual um novo tipo de vida torna-se visível graças a uma descoberta técnica (WILLIAMS, 2011, p. 267).

Por correspondência, a partir das categorias da utopia, poderíamos pensar a literatura distópica: (a) um inferno encontrado em outra parte do mundo; (b) um tipo de vida menos feliz que surge de um acontecimento natural inesperado; (c) um tipo de vida menos feliz que surge pela degeneração social; e (d) uma deterioração das condições de vida causada pelo desenvolvimento tecnológico. Segundo Williams, as modalidades utópicas e distópicas características estariam presentes nas duas últimas categorias (“a transformação tecnológica” e “a transformação almejada”). Essas generalizações nos permitem pensar a alteridade, o novo mundo que é contraposto ao presente, e as formas de transformação que levam a ele. Estas últimas podem revelar muito das ansiedades e expectativas de uma época: os medos e esperanças em relação a projetos de transformação social, ou aos avanços tecnológicos que vivenciamos. Ou, como aponta Williams, “Não podemos abstrair o desejo” (WILLIAMS, 2011, p. 274); desejos, expectativas, medos, expressos nesses obras devem ser analisados no contexto histórico em que as obras se inserem (seja o contexto de produção, seja o contexto de recepção). Nesse sentido, Williams analisa algumas obras utópicas e de ficção científica, como Notícias de lugar nenhum (1890), de William Morris, e Os despossuídos (1974), de Ursula K. Le Guin.

Capa de Os despossuídos, de Ursula K. Le Guin, obra analisada por Raymond Williams em “Utopia e Ficção Científica”. Extraído de http://io9.gizmodo.com/5607981/ursula-le-guins-the-dispossessed-when-you-want-to-like-a-book-but-dont, acesso em 30 de junho de 2017.

As potencialidades de estudar características de nosso presente (como a forma pela qual vivenciamos o tempo) por meio da ficção científica é explorada em estudo recente dos professores Mateus Henrique de Faria Pereira e Valdei Lopes de Araujo (ambos da Universidade Federal de Ouro Preto). No artigo “Reconfigurações do tempo histórico: presentismo, atualismo e solidão na modernidade digital” (2016), os autores trabalham a experiência contemporânea do tempo analisando, entre outras fontes, um episódio da série de ficção científica Black Mirror. A forma como pensamos o futuro pode dizer muito sobre nosso presente, e sobre como imaginamos o processo histórico, isto é, como as transformações históricas podem ocorrer, e em que direção elas podem nos levar.
Como nosso post anterior, o texto de hoje também remete às discussões ocorridas no âmbito das disciplinas de Teoria da História oferecidas pelo curso de História – América Latina para os cursos de História e Letras, Artes e Mediação Cultural (LAMC), devendo muito à participação dos estudantes das disciplinas nos debates ocorridos em sala.

Referências bibliográficas:

PEREIRA, Mateus Henrique de Faria; ARAUJO, Valdei Lopes de. “Reconfigurações do tempo histórico: presentismo, atualismo e solidão na modernidade digital”. Rev. UFMG, Belo Horizonte, v. 23, n. 1 e 2, p. 270-297, jan./dez. 2016.
WILLIAMS, Raymond. “Utopia e Ficção Científica”. In: Cultura e Materialismo. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Historiadores, contadores de histórias: história, narrativa e o Prêmio Nobel de Literatura

Quanto do trabalho dos historiadores consiste em “contar histórias”? Isto é, qual o papel da narrativa na escrita da história? Essa questão provocou intensos debates ao longo das últimas décadas entre historiadores e teóricos da história, sobretudo pela possibilidade de aproximação entre o que faz o historiador e o que fazem romancistas e escritores em geral.
Em linhas gerais, a discussão se estabeleceu, no mundo anglo-saxão, em meados do século XX, a respeito do que significa compreender um texto de história. Para alguns filósofos da história (como W. B. Gallie, Arthur Danto e Morton White), compreender uma obra de historiador seria basicamente reconhecer os traços característicos da narrativa que este constrói. Ou seja, para entendermos história teríamos de nos valer das mesmas operações de compreensão que utilizamos para compreender qualquer narrativa ou história que nos é contada, ou que lemos. Entender quem fez o quê, onde e quando, em uma sequência de eventos, cuja lógica nos leva a pensar no que veio antes e no que virá depois (nos fatos antecedentes e nos fatos subsequentes). Por outro lado, Maurice Mandelbaum defendeu que os historiadores não contam histórias, simplesmente, mas realizam inquéritos, investigações. Nesse sentido (e retomando posição já presente em R. G. Collingwood), para Mandelbaum, compreender história é acompanhar o jogo de perguntas e respostas que os historiadores fazem com suas fontes. Cada parte de sua narrativa não se relaciona com a parte que veio antes e com a que virá depois, mas com o todo, isto é, com a investigação geral que realiza o historiador, com a pergunta central que este busca responder em seu trabalho.
Ao longo do século XX, porém, em processo que vinha desde o século XIX, houve uma tendência, entre algumas correntes historiográficas, de considerar a narrativa uma forma não-científica de apresentação dos resultados de pesquisa. Tal atitude seria característica, por exemplo, da segunda geração da Escola dos Annales, e da história quantitativa. Considerando que a história procurou estabelecer seu estatuto de conhecimento científico diferenciando-se, ao longo do século XIX, da literatura (pois antes a história estava ligada à retórica, e era considerada um gênero da prosa), a rejeição da narrativa viria como consequência desse processo. A tal ponto a história esteve ligada à literatura que em 1902 o Prêmio Nobel de Literatura foi concedido ao historiador alemão Theodor Mommsen (1817-1903), grande estudioso da história romana. Se no último ano assistimos à polêmica surgida pela concessão do prêmio ao cantor e compositor americano Bob Dylan, o que pensaríamos se um historiador, atualmente, voltasse a receber a honraria?


Caricatura de Theodor Mommsen, Prêmio Nobel de Literatura de 1902 (extraída de http://www.uzh.ch/en/about/portrait/nobelprize/mommsen.html, acesso em 22 de junho de 2017). Ao lado, foto de Bob Dylan, Nobel de Literatura de 2016 (extraída de http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/2016/dylan-facts.html, acesso em 22 de junho de 2017).


A atitude de rejeição à narrativa sofreu forte revisão entre os historiadores a partir da década de 1970, levando ao que o historiador inglês Lawrence Stone chamou de “O retorno da narrativa”, em artigo publicado originalmente em 1979. Uma revalorização da história política, das biografias históricas, e a crítica a modelos estruturalistas ou funcionalistas de descrever a história levaram a uma revisão da importância da narrativa para compreensão das experiências de vida estudadas pelos historiadores. Novas abordagens como a micro-história também mostraram essa importância para o estudo de pessoas comuns na história.
Dessa maneira, entre os anos 1970 e 1980 relevantes trabalhos de teoria da história e história da historiografia se voltaram para a narrativa. É o caso de Tempo e narrativa (três volumes, 1984-1988), do filósofo francês Paul Ricoeur (1913-2005), voltado para pensar o papel da narrativa na organização da experiência e na escrita da história. O trabalho mais polêmico, talvez, seja Meta-história (1973), de Hayden White, por considerar a escrita de uma narrativa o cerne do trabalho do historiador, mais do que a pesquisa de fontes ou a busca pela verdade histórica. Assim, para White, o que faz o historiador não difere essencialmente do que fazem os escritores de ficção.
Nesse período surgiram inclusive defesas mais radicais do papel da narrativa. Para o filósofo americano David Carr, em “A narrativa e o mundo real: um argumento em favor da continuidade” (original em inglês de 1986), a narrativa não seria algo que impomos à nossa experiência, para dotá-la de sentido. Seria, antes, parte dessa própria experiência: vivemos narrativas, nos posicionamos constantemente como protagonistas, leitores ou narradores do mundo real.
Tais debates colocaram no centro do trabalho do historiador sua escrita: sua capacidade (e necessidade) de narrar para transmitir seu conhecimento, ou passar ao leitor a compreensão das experiências históricas de que trata. Continuaremos no próximo post do blog a discutir esse tema, que trazemos aqui a partir das aulas da disciplina de “Teoria e Metodologia da História: Modernidades e Narrativas”, oferecida pelo curso de História – América Latina ao curso de Letras, Artes e Mediação Cultural (LAMC) da UNILA. Nossos agradecimentos aos estudantes da disciplina pelos debates realizados nas aulas.

Indicações de leitura:

CARR, David. “La narrativa y el mundo real: un argumento en favor de la continuidad”. Revista de la dirección de estudios históricos del Instituto Nacional de Antropología e Historia, Número 14 México, D.F. Julio-Septiembre 1986, p. 15-28.
RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Campinas, SP: Papirus, 1994 (três volumes).
WHITE, Hayden. Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008 [1973].

Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

quinta-feira, 8 de junho de 2017

“Maestros de América Latina”

A vida e as ideias de importantes pensadores latino-americanos formam a série de documentários Maestros de América Latina, co-produção do Laboratorio de Medios Audiovisuales da Universidad Pedagógica (UNIPE), Canal Encuentro e Organização de Estados Iberoamericanos para a Cultura e Educação (OEI). A produção, exibida originalmente em 2016 pelo Canal Encuentro, selecionou oito figuras fundamentais do pensamento latino-americano: o venezuelano Simón Rodríguez (1769-1854), o argentino Domingo F. Sarmiento (1811-1888), o cubano José Martí (1853-1895), o mexicano José Vasconcelos (1882-1959), o peruano José Carlos Mariátegui (1894-1930), a chilena Gabriela Mistral (1889-1957), o uruguaio Jesualdo Sosa (1905-1982) e o brasileiro Paulo Freire (1921-1997).

Os “maestros de América Latina” (imagem extraída de http://www.eligeeducar.cl/serie-maestros-america-latina, acesso em 7 de junho de 2017)

Reunindo literatos, filósofos e escritores do período das Independências até o século XX, de diferentes países latino-americanos, a série aborda uma variedade ampla de países e posições filosóficas no continente. Alguns dos retratados chegaram à posição de estadistas, como Sarmiento; outra, a poetisa Gabriela Mistral, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura por sua obra em 1945. Em conjunto, a série apresenta, em diferentes contextos históricos, como o pensamento latino-americano produziu visões originais sobre a realidade do continente e contribuiu de importantes maneiras para o conhecimento nas ciências humanas, como fez Paulo Freire na Pedagogia. As pedagogias latino-americanas são centrais na série, que aborda as visões sobre educação de cada autor selecionado, de maneira atraente para docentes e o público geral. A série completa pode ser acessada no canal da UNIPE no Youtube (acesso em 7 de junho de 2016):


Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

quinta-feira, 1 de junho de 2017

O presentismo: vivemos em um “presente onipresente”?

Nosso último post discutiu as possibilidades de uma história do tempo presente. Essa discussão evoca, além dos debates mencionados no texto da última semana, um olhar sobre nosso presente. A atenção à história do tempo presente seria um indício do peso que o presente exerce hoje, em detrimento do passado e do futuro, em nossa experiência do tempo? Estaríamos vivendo uma época marcada pelo presentismo?
O presentismo, conceito trabalhado pelo historiador francês François Hartog, remete a um regime de historicidade específico de nosso momento histórico. Regimes de historicidade, por sua vez, são categorias analíticas, instrumentos que o(a) historiador(a) pode utilizar para pensar a experiência de tempo de cada época específica (como destaca Hartog, presentismo é uma hipótese, e regime de historicidade, o instrumento para examiná-la, e ambos “completam-se mutuamente”; HARTOG, 2014, p. 11). Aproximando-se das reflexões do historiador alemão Reinhardt Koselleck, Hartog delineia a presença de regimes de historicidade específicos no Ocidente. Até o final do século XVIII, grosso modo, a experiência de tempo ocidental privilegiaria o passado. Do passado, da história, tiraríamos as lições e orientações para nossa vida no presente, e o futuro apresentaria apenas variações das mesmas experiências já vividas. Concebia-se a natureza humana como essencialmente imutável, portanto, causas e motivações semelhantes gerariam eventos semelhantes. Na passagem do século XVIII para o XIX, eventos como a Revolução Francesa trariam uma mudança nessa experiência do tempo: o futuro tornou-se a instância de referência. O passado passou a ser visto como radicalmente diferente do presente, incapaz de ensinar-lhe algo, e o presente, como um tempo de transição, em direção ao futuro, ao progresso, o lugar de referência para nossas ações, planos e expectativas.
Os eventos do final do século XX, início do século XXI, porém, teriam alterado novamente nossa experiência do tempo. O fim da União Soviética e do socialismo realmente existente, e um crescente pessimismo em relação ao liberalismo e ao capitalismo, fez com que o futuro deixasse de ser visto como alvo de nossas esperanças, e passasse a ser encarado com temor, como a perspectiva de uma catástrofe climática e ambiental nos mostra. Por outro lado, o passado continua incapaz de nos oferecer lições, pois seguimos vendo-o como um tempo radicalmente diferente do nosso. O que viveríamos atualmente, segundo essa hipótese, seria uma espécie de “longo presente”: sem voltar-nos para o futuro, e tampouco para o passado.
O presentismo (neologismo inspirado em “futurismo”), esse “presente onipresente” no qual vivemos (HARTOG, 2014, p. 14), seria marcado tanto por uma experiência de constante aceleração do tempo, como de estagnação, de ausência de horizontes:

De um lado, um tempo dos fluxos, da aceleração e uma mobilidade valorizada e valorizante; do outro, (...) a permanência do transitório, um presente em plena desaceleração, sem passado – senão de um modo complicado (mais ainda para os imigrantes, os exilados, os deslocados), e sem futuro real tampouco (o tempo do projeto não está aberto para eles). O presentismo pode, assim, ser um horizonte aberto ou fechado: aberto para cada vez mais aceleração e mobilidade, fechado para uma sobrevivência diária e um presente estagnante (HARTOG, 2014, p. 14-15).

Desse modo, esse presente é marcado, talvez, por um paradoxo: aceleração do tempo e mobilidade constantes, mudanças a todo momento; mudanças, no entanto, que não levam a um futuro projetado, mas apenas a mais mudanças. Um presente que deixa de ser transição para o futuro e se torna um estado de constante câmbio e precarização. As seguidas atualizações tecnológicas, a obsolescência programada e o descarte do que se torna cada vez mais rapidamente ultrapassado, seriam evidências desse regime “presentista”. Some-se a isso, aponta Hartog, a visão de um “futuro percebido, não mais como promessa, mas como ameaça; sob a forma de catástrofes, de um tempo de catástrofes que nós mesmos provocamos” (HARTOG, 2014, p. 15). Hartog usa também o exemplo das cidades atuais, a partir do conceito de junkspace, formulado pelo arquiteto holandês Rem Koolhaas. Koolhaas fala em “cidades genéricas”, cidades sem história (mesmo que preservem passeios históricos por alguns bairros específicos), em processos constantes de “autodestruição e renovação local, ou então [em] uma precariedade habitacional ultrarrápida” (HARTOG, 2014, p. 15). Bairros em seguidos processos de valorização e desvalorização marcam a dinâmica das cidades atuais. Os aeroportos seriam a expressão máxima dessa lógica, espaços das escadas-rolante e do ar refrigerado, em constante expansão e renovação.

Interior do aeroporto de Foz do Iguaçu em 2010 (Imagem extraída de http://jie.itaipu.gov.br/node/42951, acesso em 01/06/2017)

Deve-se ressaltar, no entanto, o caráter conceitual dos “regimes de historicidade”, como dissemos acima. São instrumentos para ajudar o(a) historiador(a) a pensar uma época e sua relação com o tempo, hipóteses de trabalho, não evidências em si. Por outro lado, como destaca Mateus Pereira (PEREIRA, 2011, p. 63), é necessário notar a possibilidade de coexistência de diferentes regimes de historicidade. O presentismo seria, então, não o único, mas o principal dos regimes de nossa época, convivendo com outras experiências do tempo.
Considerando o presentismo como hipótese, o que esse regime nos diria sobre o lugar da história nas sociedades atuais? As reflexões sobre a história têm qual importância em um presente que se compreende diferente do passado, mas sem ser uma transição para o futuro?

Referências bibliográficas:

HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Tradução de Andréa S. de Menezes, Bruna Breffart, Camila R. Moraes, Maria Cristina de A. Silva e Maria Helena Martins. Belo Horizonte: Autêntica, 2014.
PEREIRA, Mateus Henrique de Faria. “A história do tempo presente: do futurismo ao presentismo?” Humanidades, no. 58, junho de 2011, p. 56-65.

Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

quinta-feira, 25 de maio de 2017

É possível uma história do agora? A história do tempo presente e a história do imediato

Pode o historiador fazer história daquilo que se passa diante de seus olhos? É possível fazer história das reviravoltas diárias da política, ou das mudanças sociais e culturais que se desenrolam no nosso cotidiano? Questões como essas têm motivado os historiadores a pensarem em uma “história do tempo presente”. Mas como se daria essa história?
A rejeição da história como um estudo exclusivamente do passado já fora defendida pelos historiadores há tempos. Vemos, por exemplo, Marc Bloch, em Apologia da história, ou o Ofício do historiador (1944), contestar a visão tradicional de que historiadores estudam tão somente o passado, definindo a disciplina como “a ciência dos homens no tempo”. Ao longo do século XX, porém, o estudo da política, sociedade e cultura da atualidade foi, no geral, objeto mais da Sociologia, Ciência Política e Antropologia que da História. Os historiadores mantiveram preocupações constantes com o problema da “distância histórica”: deveria o historiador manter um distanciamento (temporal, cronológico), em relação a um fenômeno para poder estudá-lo? Embora, por vários séculos desde a Antiguidade, historiadores tenham feito história dos eventos que se passavam em seus tempos de vida, ao menos desde o século XIX o problema da “distância” se tornou obstáculo a essa prática. Para os historiadores do século XIX, o historiador só poderia estudar um evento após um certo espaço de tempo ter sido decorrido (de preferência, uma geração, um período em torno de trinta anos). Dessa maneira, o historiador não escreveria movido por paixões e emoções do momento, prejudiciais à imparcialidade considerada indispensável para a escrita da história naquele momento. Além disso, ao deixar algumas décadas passarem, o historiador poderia escrever sem se preocupar com os sentimentos daqueles sobre os quais escreve, especialmente se estes já tiverem falecido. No Brasil, nessa época, a principal instituição de escrita da história de então, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB, fundado em 1838), surgiu com uma ideia para garantir essa distância: a “arca do sigilo”, um baú de fechaduras reforçadas onde seriam guardados todos os documentos e escritos sobre história recente. O baú permaneceria fechado, só sendo aberto após a morte dos depositários dos papéis colocados ali. Desse modo, ficava impedida a escrita da história contemporânea.
No final do século XX, o interesse em repensar esses obstáculos, e uma nova atenção aos fatos e à história política, motivou, principalmente na França, uma nova abordagem sobre a história recente. Em 1978-79, foi inaugurado no país o Instituto de História do Tempo Presente. E o que definia “tempo presente” nessa concepção? Como separar o que seria presente, do passado? No pensamento francês, seria a “possibilidade de se recorrer ao testemunho oral como fonte”, como assinala Mateus Pereira. O tempo presente, assim, é o tempo da “experiência vivida”, na definição de François Bédarida (PEREIRA, 2011, p. 58). Esse postulado nos leva à centralidade da memória no pensar a história do tempo presente, bem como a outra variedade de história que trabalha com a experiência vivida: a história oral, em crescimento desde os anos 1950.
Porém, a ideia de uma experiência já vivida pressupõe que fazemos história de algo recente, mas já transcorrido. Algo de que nos lembramos, pois já foi vivido (não está sendo mais). Os proponentes da “história do tempo presente” na França diferenciavam esse gênero do que chamavam de “História Imediata”, as tentativas de escrever história de eventos que se passam no agora que vive o historiador. Para Chauveau e Tétart, “o procedimento da história imediata é mais parecido com as técnicas jornalísticas do que com as da ciência histórica” (CHAUVEAU; TÉTART, p. 22). Nesse sentido, a história do imediato tem valor como “testemunho” (CHAUVEAU; TÉTART, p. 24); é uma visão sobre os acontecimentos imediatos, da ordem do dia.

A partir desse breve panorama, deixamos algumas reflexões para nossos leitores: é possível fazer história dos acontecimentos imediatos? É possível uma história da crise política que ainda se desenrola no Brasil atual, por exemplo? É uma necessidade para o historiador assumir alguma “distância” em relação ao que estuda? O que definimos como “tempo presente”, e como podemos pensá-lo historicamente?

Imagem extraída de https://www.youtube.com/watch?v=6zVTS4X_2Sg, acesso em 24/05/2017

Referências bibliográficas
CHAUVEAU, Agnès; TÉTART, Philippe. Questões para a história do presente. Bauru, SP: Edusc, 1999.
PEREIRA, Mateus Henrique de Faria. “A história do tempo presente: do futurismo ao presentismo?” Humanidades, no. 58, junho de 2011, p. 56-65.

Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos