sábado, 23 de julho de 2011

Fragmentos da ANPUH I: Graciliano Ramos, Intelectuais e Memória da Repressão no Brasil.

            A partir de hoje, apresentaremos algumas das principais pesquisas, ideias e questionamentos que apareceram durante o XXVI Simpósio Nacional de História, encerrado ontem na USP São Paulo.
            Na segunda, dia 18, o professor Marcelo Ridenti (IFCH-UNICAMP) apresentou Memórias do Cárcere: Graciliano Ramos no meio do caminho. Além de narrar a trajetória do escritor, Ridenti destacou particularidades das relações entre Estado brasileiro e intelectuais nas décadas de 1930 e 1940. Graciliano Ramos foi preso pelo governo Vargas em 1936 na onda de repressão à Intentona Comunista de 1935 e foi solto apenas no ano seguinte: posteriormente, foi homenageado e empregado pelo mesmo governo. Como explicar isso? Não havia um mercado editorial consolidado, de tal modo que os escritores dependiam de empregos públicos para sobreviver. Apesar disso, Ridenti, citando Antônio Cândido, disse que servir na ditadura não necessariamente seria o mesmo que servir à ditadura.
            Ridenti ainda ressaltou o seguinte ponto: em Memórias do Cárcere, Graciliano Ramos relata a sua experiência na prisão, mas não cita processos de repressão semelhantes ocorridos anteriormente no país, por exemplo, durante a presidência de Artur Bernardes (1922-1926), assim como o escritor não é lembrado por aqueles que sofreram perseguições durante a ditadura militar (1964-1985). Em outras palavras, Ridenti destacou a necessidade de se problematizar as relações entre memória, autoritarismo e repressão no Brasil do século XX. Pergunta para ser respondida nos comentários: a leitura e o seminário de Tempo Passado de Beatriz Sarlo que realizamos na disciplina de Introdução à História nos oferecem algumas pistas para o problema apontado por Ridenti: quais seriam estas pistas? Vale lembrar que Memórias do Cárcere foi escrito dez anos após a experiência do escritor na prisão.
            Prof. Paulo Renato da Silva.

Um comentário:

  1. Professor Paulo, pode ser que esteja errado, mas o que parece ter havido foi que o Graciliano usou sua experiência pessoal, seu sofrimento particular para um uso político. Como o senhor citou em relação às mulheres que se reúnem na Praça de Maio, na Argentina. Algumas usam sua dor pessoal, o desaparecimento de seus parentes pela ditadura militar, como uma ‘arma política’. Em relação ao fato do Ramos relatar a sua experiência na prisão e não citar alguns processos de repressão anteriores no país, Beatriz Sarlo, usando o livro de Pilar Calviero lembra que este quando esteve preso pela ditadura militar, escrever não conforme suas experiências, porém analisando os fatos, se colocando como um participante. Pode-se usar esse exemplo como uma possível crítica à atitude de Ramos, não foi conveniente ele relatar suas experiências na prisão? Foi uma mera coincidência ele ter escrito o livro em 1946, um ano após o fim do primeiro governo Vargas? O livro não passou de um jogo político praticado por Graciliano? Talvez respondendo a essas perguntas e analisando o uso da memória na história podemos responder as problemáticas apresentadas por Ridenti.
    Se porventura disse algo de errado, peço antecipadamente meu sincero perdão. Obrigado.

    Paulo.

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