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Entre Maria e Marianne: A figura feminina como símbolo da República Brasileira.

Nos textos anteriores sobre a formação do imaginário republicano no Brasil, observamos a transformação de um homem em herói nacional e a importância dos símbolos nacionais.Analisaremos a tentativa dos republicanos em implantar a figura feminina no imaginário popular brasileiro.

"A aceitação do símbolo na França e sua rejeição no Brasil permitem, mediante a comparação por contraste, esclarecer aspectos das duas sociedades e das duas repúblicas." (CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas – O Imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.14).

A figura feminina já era utilizada na França desde a Revolução Francesa. Antes, a monarquia era representada pela figura masculina do Rei, porém com a proclamação da República essa figura tinha que ser substituída por um novo símbolo, assim começou-se a adotar a imagem da mulher.

Na Roma Antiga a figura feminina já era um símbolo de liberdade. Com o avanço da Revolução Francesa, os franceses começaram a utilizar essa imagem, mas com algumas mudanças como o barrete frígio, usados pelos libertos romanos, o feixe de armas, representando a unidade, o leme e os seios desnudos.

Um exemplo do uso dessa alegoria aparece no quadro de Eugène Delacroix intitulado "A Liberdade Guiando o Povo" (1830). No quadro vemos a liberdade ser representada por uma figura feminina. O barrete frígio cobre sua cabeça. Na mão esquerda carrega um fuzil com baioneta calada, já na mão direita leva a bandeira tricolor. Outros elementos destacados são os seios desnudos e o gesto de comando entre os mortos e feridos.
"A Liberdade Guiando o Povo", Eugène Delacroix (1830). Óleo sobre tela.
Museu do Louvre, Paris.


A importância desse quadro está no fato de juntar elementos idealizados com traços verossimilhantes. Após a ‘Terceira República’ a figura da mulher se popularizou. Aparece Marianne, nome popular na França, que se tornou a personificação da República. Como reação, o governo incentivou o culto a Virgem Maria. Essa atitude fez com que se desencadeasse uma batalha de cultos que ficou conhecida como Mariolatria X Marianolatria.

Os republicanos brasileiros de ideais franceses tinham uma grande riqueza de imagens e símbolos para se inspirarem, entretanto estavam em desvantagem. Na França a Monarquia era masculina, no Brasil, a herdeira do trono era mulher. Mas a desvantagem foi diminuída pela tentativa de anulação da figura de Isabel, mostrando-a como um objeto nas mãos do marido, o Conde D'eu, que por ser francês teve sua imagem vinculada à monarquia.

Segundo Augusto Comte, criador do positivismo, o símbolo perfeito para a humanidade seria a virgem-mãe. Suas especificações eram uma mulher de trinta anos, sustentando um filho nos braços. O rosto era de sua amada Clotilde de Vaux.

Clotilde de Vaux (1815 - 1846)
Fonte: http://www.augustecomte.org/contenu/biblioimg/31-image.jpg


No Brasil, durante a monarquia, os pintores eram patrocinados pelo governo e estudavam e pintavam seus quadros na Europa. Eram altamente influenciados pelo padrão europeu. Quando se representava a humanidade ou a República, quem aparecia era Clotilde,não negras, ou mulatas, ou índias.

O que houve foi um contraste entre a República dos sonhos e a real, com isso a imagem cívica da mulher perdeu sua importância e passou a ser debochada junto com a república, através dos caricaturistas em seus periódicos. A mulher se transformou em prostituta.


"Monarquia – Não é por falar mal mas, com franqueza, eu esperava outra coisa.
 República – Eu também"
K. Lixto. Fon-Fon!, 13 de Novembro de 1913.

"Mlle. República, que hoje completa mais uma primavera", C. do Amaral.
O Malho, 15 de Novembro de 1902.


"- Acha-a com os seios muito desenvolvidos?...Que quer, Marechal!
É a nudez crua da verdade. A República dá de mamar a tanta gente!..."
Vasco Lima. O Gato, 22 de Março de 1913.

"Símbolos, alegorias, mitos só criam raízes quando há terreno social e cultural no qual se alimentarem. Na ausência de tal base, a tentativa de criá-los, de manipulá-los, de utilizá-los como elementos de legitimação, cai no vazio, quando não no ridículo. Parece-me que na França havia tal comunidade de imaginação. No Brasil, não havia. " (CARVALHO, op. cit., p.89).

Aqui no Brasil, a figura da mulher também foi utilizada como um elemento anti-republicano. Os bispos incentivaram o culto à figura de Maria. Em 1904, Nossa Senhora Aparecida foi declarada padroeira do Brasil.

A figura da república-mulher obteve fracasso. Faltou uma comunidade de sentido. A figura feminina foi usada como prostituta, em muitos casos, ou depreciativa de outra forma. Isso se deve ao fato de que não houve na sociedade brasileira uma participação feminina nos fatos políticos, portanto sua imagem cívica não tinha nenhum sentido entre a população.

Os republicanos falharam na tentativa de criar um imaginário popular. O sucesso da implantação de alguns símbolos se deve ao peso da tradição ou da religião. O principal motivo que justifica o fracasso da inserção da alegoria feminina foi à falta de envolvimento da população na proclamação da República.

"A batalha pela alegoria feminina terminou em derrota republicana. Mais ainda, em derrota do cívico perante o religioso." (CARVALHO, op. cit., p.94).

Paulo A. Pereira Júnior - Acadêmico de História da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).

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