sexta-feira, 12 de outubro de 2012

As Padroeiras Latino-Americanas.


Imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, cuja celebração acontece em 12 de outubro.

“A primeira aparição da Virgem na América de que se tem notícia ocorreu no México, em 1531. Na versão mais conhecida da aparição, o índio Juan Diego, na manhã de 9 de dezembro, saindo de sua aldeia para assistir a missa, passou pelo monte Tepeyac, onde ouviu um suave canto. Ao chegar ao topo da colina, viu uma resplandecente Senhora que lhe disse para ir falar ao bispo de seu desejo de que ali se construísse um templo em sua honra. O bispo Zumárraga não deu crédito ao que lhe dissera o índio Juan, o qual se apressou a narrar pela tarde a recusa do bispo à Virgem. A Senhora, então, pediu-lhe que insistisse. E, desta vez, o bispo pediu ao índio uma prova do que estava dizendo. Na terceira ida de Juan Diego à casa episcopal, ele foi carregado de flores que a Senhora lhe ordenou que colhesse no alto do monte. Diante do bispo, o índio abriu o seu poncho de onde caíram rosas inexistentes no México, estando ainda gravado no tecido do seu poncho, a imagem da Virgem. Eis, em brevíssimas palavras, o primeiro registro da Virgem de Guadalupe, a primeira aparição reconhecida da Virgem na América.
Também na Colômbia, a intervenção da Virgem dar-se-ia a propósito de uma imagem sua. Segundo relatos, o encomendero Antônio de Santana contratou, no ano de 1560, o pintor da cidade de Tunja para fazer um quadro da Virgem do Rosário e colocá-lo na capela que construíra na cidade de Suta, onde fixara sua residência. Três anos depois, estava pronta a tela: no centro, a Virgem, ladeada por Santo Antônio e Santo André. Mas em 1578, a mesma tela, já deteriorada, foi transferida para outro oratório de Antônio de Santana, em Chiquinquirá. Em 1582, Antônio de Santana morreu e sua viúva passou a residir em Chiquinquirá. Três anos mais tarde, foi morar com a viúva, Maria Ramos, mulher que andava em busca de consolo pela infidelidade do marido. Maria Ramos punha-se a rezar todas as manhãs na capela onde se encontrava o quadro já praticamente destruído, sem que se pudesse reconhecer as imagens pintadas. Foi então que, na manhã do dia 26 de dezembro de 1586, uma índia convertida de nome Isabel passando à frente da capela com o seu filho mestiço, o menino gritou para a mãe, mostrando a imagem da Virgem, que irradiava de si uma grande luz. Maria Ramos, que acabara de sair da capela, também se voltou para a imagem e, os três, com a companhia da viúva do encomendero e de outra mulher que vinham chegando, assistiram, entre extasiados e perplexos, a auto-restauração do quadro.
Em Cuba e no Brasil, as histórias das padroeiras nacionais se iniciam com o encontro de suas imagens. O menino negro, de 10 anos, Juan Moreno e os irmãos índios Juan e Rodrigo de Joyos foram ordenados pelo administrador das estâncias de Varajagua, na ilha de Cuba, a buscar certa quantidade de sal nas salinas naturais da baía de Nipe. Era 1612. Quando chegaram na praia os três foram surpreendidos por uma forte chuva e ventania, tornando o mar agitadíssimo. Assim, foram obrigados a aguardar que o tempo melhorasse. Depois de três dias, o sol ainda não havia saído, quando avistaram algo boiando sobre as águas. Primeiro, pensaram que era um pássaro sobre as espumas, depois, uma menina sobre uma prancha. Foi, então, que se aperceberam, admirados, que se tratava, na verdade, de uma imagem de Nossa Senhora sobre uma tábua em que estava escrito: “eu sou a Virgem da Caridade”. Os três recolheram a imagem e notaram que as vestes de pano da imagem não estavam molhadas. Com a pressa de mostrar a imagem encontrada, recolheram apenas um terço do sal requisitado.
João Alves, Domingos Garcia e Felipe Pedroso eram três pescadores mamelucos da vila de Guaratinguetá, no Brasil, e também receberam uma missão. Era outubro de 1717. O governador recém-nomeado, Pedro de Almeida Portugal, estava atravessando a capitania de São Paulo e Minas do Ouro, para de Vila Rica exercer seu cargo, e estava para passar pela vila. A Câmara pretendia fazer um banquete em sua homenagem. Os três pescadores foram convocados para pegarem a maior quantidade de peixe que pudessem. Os três puseram suas canoas nas águas do rio Paraíba, mas não obtinham resultado algum. A época não era boa para pesca. Mas deviam insistir em razão da visita do governador. João Alves lançou sua rede novamente. Dessa vez, sentiu um peso em sua malha. Quando a puxou, percebeu, no seu fundo, um pequeno objeto de cor escura. Os pescadores identificaram-no como a imagem de Nossa Senhora sem a cabeça. João Alves atirou de novo a rede. Veio então a cabeça da imagem. Os três guardaram-na no barco, voltando-se para a pesca. Daí em diante o sucesso foi tal que os três, por medo de naufragarem, retiraram-se, voltando-se para suas casas, com seus barcos abarrotados de peixes. O título de “Aparecida” parece ter surgido nesses primeiros tempos devocionais, denotando as circunstâncias do encontro dessa imagem de Nossa Senhora da Conceição: aparecida das águas.
No século XVI, a devoção à Virgem Maria no Ocidente cristão ganhou força no contexto das reformas. Momento em que a Igreja se sentia fraca e apontava para uma disposição combativa. A reforma protestante não desenvolveu uma doutrina coerente e homogênea em relação à figura de Maria, mas seu culto foi o tema que mais severas críticas despertara desde o início do movimento, pois para os reformadores, somente Cristo podia ser mediador e afirmar diferentemente era desvirtuar e até negar a dignidade de Cristo como único salvador. A devoção à Virgem e a crença na sua intercessão, desse modo, ao representar a mais arraigada e preferente prática piedosa da tradição católica, tornou-se símbolo mais visível de todo reformismo no interior da Igreja, símbolo, portanto, de identidade católica.
Ainda que mesclando as antigas tradições com a ortodoxia católica, a devoção à Virgem marcava sua presença no cotidiano colonial. E se foi preciso reinventar em outros domínios para se adaptar à situação colonial, não seria diferente no domínio da devoção mariana. Vale ressaltar, desse modo, a presença de índios nas versões das aparições de Guadalupe do México e da de Chiquinquirá, na Colômbia, participando do momento central do acontecimento maravilhoso. Os índios dessas narrativas eram índios piedosos, convertidos ao catolicismo, ou prestes a isso, que reconheceram na Senhora seu poder mediador. Tais narrativas, pode-se com razão dizer, esposam o ponto de vista católico. Mas essas histórias devocionais também deixam transparecer o entrecruzar de culturas e a tentativa de trazer o índio para a fé católica. Nos séculos XVII e XVIII, as manifestações prodigiosas da Virgem na América ibérica se multiplicariam.
Virgens índias, negras e mestiças foram, então, forjadas a partir do contato entre a catequização católica e o imaginário colonial. Na América espanhola, em comparação com a América portuguesa, o tema indígena se fez mais forte, e parece possível pensar que Maria, ao falar ora com índios, ora com negros, em uma sociedade colonial com dificuldade para integrá-los, abria um canal para a Igreja católica chegar àqueles que estavam mais distantes do seu discurso. A Igreja encontrava um meio de transformar o colonizado, potencialmente rebelde, em aliado, no fortalecimento da sua presença nas colônias americanas. Não seria casual, portanto, tantos episódios de aparição a índios, na América espanhola, uma vez que a sua domesticação, inclusive como mão-de-obra, foi aí uma preocupação mais constante.” (SOUZA, Juliana Beatriz Almeida de. Virgens Negras do Brasil e de Cuba: relações entre catolicismo e política na construção das padroeiras nacionais. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH, São Paulo, jul. 2011. p. 2-5. Disponível em: <http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300249316_ARQUIVO_ANPUH2011JBAS.pdf>. Acesso em: 12 out. 2012).
Leia o artigo completo no link acima.
Prof. Paulo Renato da Silva.

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