sexta-feira, 1 de março de 2013

Uma vez obra-prima, obra-prima para todos e para sempre?


Na postagem anterior, vimos como a crítica e instituições como os museus determinam o que seria e o que não seria arte. Entretanto, não há consenso. Existem diferentes olhares sobre o que é considerado arte. Algumas obras seriam “melhores” do que outras. Além disso, os olhares variam no decorrer do tempo e de acordo com a cultura de uma sociedade:

The Ancient of Days (1794) de William Blake (1757-1827).

“A crítica [de arte] (...) tem o poder não só de atribuir o estatuto de arte a um objeto, mas de o classificar numa ordem de excelências (...). Existe mesmo uma noção em nossa cultura, que designa a posição máxima de uma obra de arte (...): o conceito de obra-prima.
(...).
Temos que nos desenganar, no entanto. (...) quando se trata de obras mais polêmicas, (...) as disputas mantêm-se acerbas (qual é o interesse de Gounod ou Massenet? Grande, dizem os anglo-saxões; nenhum, respondem os franceses; Le Brun pode ser um artista admirável ou apenas gerar tédio; Blake um doido ou um iluminado genial) (...).
Sem dúvida, Cézanne é tido hoje em dia como um dos maiores nomes da pintura de todos os tempos. Porém, não podemos esquecer que o reconhecimento do seu valor foi tardio: (...) e esse também foi o caso de Van Gogh, de Gauguin e dos impressionistas – pintores de uma época em que havia justamente um conflito entre os critérios estabelecidos e a obra que eles produziam. Poderíamos pensar que somos hoje mais aptos a perceber o valor deles, que nossa sensibilidade é mais aberta a Van Gogh e a Cézanne que a do público de seu tempo, e teríamos razão. Seria entretanto abusivo acreditar que o nosso juízo de hoje determina o reconhecimento definitivo de Cézanne e Van Gogh. A crítica, amanhã, poderá nos mostrar que estávamos enganados, e que o interesse dessa pintura, afinal de contas, não era assim tão grande.
(...).
Com estes exemplos, colhidos um pouco ao acaso, já podemos chegar a uma constatação (...): a autoridade institucional do discurso competente é forte, mas inconstante e contraditória, e não nos permite segurança no interior do universo das artes.” (COLI, Jorge. O que é Arte. 15 ed. São Paulo: Brasiliense, 1995. p. 14-22).
Prof. Paulo Renato da Silva.

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