Pular para o conteúdo principal

Renascimento: imitação, criação e autoria.



Uma das principais características da arte renascentista era a imitação dos clássicos, ou seja, dos antigos greco-romanos. Nota-se, portanto, um conceito distinto de autoria do que temos hoje. Para nós autoria quer dizer criatividade, originalidade e não imitação. Mas, no Renascimento, conceitos como individualidade, individualismo e identidade ainda não estavam consolidados. Porém, Peter Burke destaca que a imitação renascentista não impedia que os artistas criassem enquanto tentavam reproduzir os antigos, pois, em muitos casos, restaram somente vestígios de determinados elementos da Antiguidade e, portanto, era necessário imaginar como tinham sido. Além disso, muita coisa tinha mudado entre os antigos e os renascentistas:
“Um dos conceitos-chave dos humanistas era o de “imitação”; não tanto a imitação da natureza mas antes a dos grandes escritores e artistas. Hoje, esta noção tornou-se estranha. Acostumámo-nos à ideia de que poemas e pinturas são expressões dos pensamentos e sentimentos de indivíduos criativos e, apesar de sabermos que alguns artistas imitam outros, tendemos a pensar que isso é um sinal de falta de talento ou uma falha de pessoas que ainda não se “encontraram a si próprias” e não desenvolveram o seu estilo pessoal. “Imitação” tornou-se um termo pejorativo. Escritores e artistas hoje estão ansiosos por salientar a sua originalidade, espontaneidade e independência e negar a “influência” dos seus predecessores (muito menos o plágio, que se tornou aos nossos olhos o roubo da propriedade intelectual alheia). No Renascimento, por seu turno, apesar de começarem a aparecer queixas de plágio, escritores e artistas sofriam exactamente da ansiedade oposta. Apesar de sermos levados a pensar que este período foi uma era de inovação e originalidade, os próprios artistas e escritores enfatizavam a sua imitação dos melhores modelos antigos: o Panteão, Laocoonte, Cícero, Virgílio, Tito Lívio, e assim por diante (...).
Esta imitação não era subserviente. Usando uma metáfora daquele tempo, não eram macacos de imitação dos antigos. O intuito era assimilar o modelo, apropriar-se dele, e até, se possível, igualá-lo ou ultrapassá-lo. (...).
(...).
(...). Quer quisessem quer não, os artistas e escritores do Renascimento não foram capazes de imitar os antigos senão parcialmente. Quanto mais não seja porque os produtos da Antiguidade sobreviveram apenas fragmentariamente. (...).
(...).
As criações individuais do período podiam por vezes imitar de perto modelos antigos mas os seus contextos sociais e culturais, assim como as suas funções, eram bem diferentes. Muitas obras do Renascimento são aquilo a que se tem chamado “híbridos” culturais, clássicos nalguns aspectos mas cristãos noutros (...). (...). Um túmulo do Renascimento podia imitar um sarcófago clássico (incluindo personificações aladas da Vitória), e no entanto combiná-lo com imagens de Cristo ou da Virgem Maria (...).” (BURKE, 2008, p. 32-38).


Laocoonte e seus filhos é uma escultura do século I que foi encontrada durante escavações feitas em Roma no começo do XVI, em pleno Renascimento. Reparem que faltam pedaços da escultura e, quando encontrada, estava fragmentada em grandes partes.
A influência da escultura antiga sobre os renascentistas pode ser vista no David (1501-1504) de Michelangelo (1475-1564). Notem, por exemplo, como são semelhantes os traços corporais de David e os de Laooconte e seus filhos.
La Fornarina (1518-1519) de Rafael (1483-1520) demonstra como o conceito moderno de autoria começa a se consolidar entre os artistas do período. No "bracelete" do braço esquerdo da mulher retratada está escrito o nome do pintor.
Referências bibliográficas:
BURKE, Peter. O Renascimento. Lisboa: Texto & Grafia, 2008.
Prof. Paulo Renato da Silva.

Postagens mais visitadas deste blog

O Islã visto a partir da Tríplice Fronteira

A América Latina recebeu imigrantes de várias regiões do mundo. Entre os asiáticos que se estabeleceram no subcontinente, encontravam-se praticantes do Islã e do budismo, por exemplo. Na região da Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, há uma quantidade significativa de muçulmanos, sejam eles imigrantes (originários do Oriente Médio, principalmente do Líbano), brasileiros, paraguaios e argentinos descendentes de imigrantes muçulmanos e, ainda, brasileiros, paraguaios e argentinos que aderiram à religião. No post de hoje, recomendamos dois documentários que abordam a vivência do Islã no Brasil, de modo geral, e em nossa região, de modo específico. O primeiro deles é “Retratos de Fé: Islã”, produzido pela TV Brasil, como parte de uma série que pretende abordar a diversidade religiosa brasileira. Aborda os princípios da religião e as experiências de muçulmanos de Foz do Iguaçu e São Paulo, as duas cidades do País com a maior concentração de seguidores da mensagem do Prof...

“BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO”: JUSTIÇA, VIOLÊNCIA E O OFÍCIO DO CARRASCO NA PRIMEIRA MODERNIDADE (XV-XVIII)

          A figura do carrasco ocupava uma posição ambígua nas sociedades europeias da “primeira modernidade”, fase de transição gradual situada entre o declínio das estruturas feudais medievais e as profundas transformações políticas e sociais associadas à Revolução Francesa. Apesar de desempenhar função essencial na aplicação da justiça régia e na preservação da ordem pública, o executor permanecia vinculado à desonra e à exclusão social. Sua atuação tornava perceptível o caráter coercitivo do poder estatal, evidenciando diante da população os limites entre a autoridade legítima e a criminalidade. O crescente interesse historiográfico pelas práticas punitivas e pela história da violência contribuiu para ampliar os estudos acerca destas temáticas até então periféricas. Obras como Carrascos de Paris: a dinastia dos Sanson , de Bernard Lecherbonnier (1942-), e Hangmen of England , de Brian Bailey (1936-2025), ambas publicadas em 1989, contribuíram para deslo...