segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Como não se faz História: Narloch "analisa" Allende.

O jornalista Leandro Narloch ficou conhecido recentemente pelos livros Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil e Guia Politicamente Incorreto da América Latina. Ambos os livros são sucessos editoriais. Como historiadores, devemos reconhecer que os jornalistas, geralmente, apresentam uma linguagem mais sedutora e, de alguma forma, temos que aprender com eles para aumentarmos o nosso público leitor.
Porém, os livros de Narloch não apresentam rigor de pesquisa e na análise da historiografia. Além disso, politicamente, poderiam ser definidos como de centro-direita. O problema não é ser de centro-direita, afinal, este é um país democrático: o problema é o excesso de senso-comum que marca os livros do jornalista.
Na sexta-feira, em artigo publicado na Folha de São Paulo (http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2013/09/1344614-leandro-narloch-e-se-allende-fosse-vitorioso-em-1973.shtml), o jornalista deturpa e ironiza a história chilena, particularmente o governo Allende. Narloch parece se pautar na crise atual de Cuba ao “analisar” o Chile de Allende. E não é demais destacar o seguinte: 1. São países diferentes; 2. Entre Allende e o início da crise cubana se passaram pelo menos 15 anos; 3. Cuba nem sempre viveu todos os problemas apontados no artigo.
Não queremos, aqui, idealizar o governo Allende, os historiadores devem fugir de toda e qualquer idealização, mas Narloch, em seu exercício de “futurologia”, omite o autoritarismo que marcou o Chile após a queda/morte de Allende. Um leitor menos avisado, ao concluir o artigo, poderá ter uma única conclusão: o golpe de 1973 e a ditadura Pinochet “salvaram” o Chile. A liberdade de expressão e de opinião são sagradas, mas não podem se sustentar na omissão de informações. Esse é um exemplo de como não se faz História.
E, 40 anos depois, o artigo mostra que muitas páginas ainda não foram viradas. Por isso, nunca é demais repetir: Memória, Verdade e Justiça.
Prof. Paulo Renato da Silva.

7 comentários:

  1. Eu enviei esta carta para a Folha, da qual publicaram um pequeno trecho:
    "No texto de ficção do Senhor Leandro Narloch, publicadona Folha de 20/9/2013, o autor tenta fazer um exercício “literário” com um fato muito doloroso na história recente de meu país. O tom sarcástico deste jornalista oculta a nossa dor pelas mortes, desaparições e exílios que ainda esperam julgamento no Chile. A insensibilidade do texto claramente é uma amostra da tentativa de falsificar a história, de não assumir que o aparentemente “bem-sucedido” neoliberalismo precisou da ditadura e do terrorismo do Estado para se instalar. A caneta de Narloch se perdeu na geografia. Num ato de ousadia irresponsável confundiu Fidel Castro com Salvador Allende, misturou a Revolução Cubana de 1959 e a eleição democrática de Salvador Allende em 1970. Allende não chegou à Presidente fazendo um golpe de Estado a Eduardo Frei Montalva e não foi responsável de nenhuma morte de políticos ou empresários da direita chilena. Portanto essa projeção ditatorial que o jornalista tenta imaginar, não tem nenhuma base na realidade. De fato, o grande problema da figura de Allende em sua época foi uma nova realidade política no mundo: a possibilidade de coexistência de socialismo e democracia. E foi esta experiência a que foi rapidamente atacada desde Washington D.C., e desde outras ditaduras como a brasileira, para justamente instalar uma ditadura real, uma das mais sanguinárias da América do Sul. A minha mensagem para o Senhor Narloch, é a mesma mensagem que nós, os chilenos, estamos tentando transmitir após 40 anos: queremos justiça, reparação, lembrar para crescer e não ignorar.
    Jorge Inzunza H.
    Psicólogo chileno e Doutorando em Educação na UNICAMP"

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  2. http://claudiomafra.com.br/artigo-do-excepcional-roberto-campos-sobre-o-livro-negro-do-comunismo/

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  3. Resolvi voltar para dar um contexto do artigo de que dei link: UMA morte é humanamente horrorosa. UM caso de tortura é humanamente pavoroso (um estudo histórico dos processos do Estado torturador de direita é encontrável na série "as ilusões armadas" de Elio Gaspari, especialmente 'a ditadura envergonhada').
    Duas dezenas de mortes, em comparação, não tornam 'apenas duas mortes' algo bom, benéfico. Mas certamente historicamente (que é como se supõe que um historiador analise, historicamente além de humanamente) milhões de mortes são piores que milhares. Não é uma questão de milhões fazerem das milhares algo bom, bonito: é uma questão de, comparativamente, milhares serem pavorosas, monstruosas, e milhões serem PIORES AINDA.
    Ninguém que não fosse terminalmente prejudicado por uma leitura pela metade, ou severamente prejudicado ideologicamente veria o texto como uma defesa de *qualquer* ditadura e assassinato. É antes, uma comparação de dados estatísticos, e um exercício de imaginação, de escolha entre o monstruosamente ruim e o monstruosamente assustadoramente ruim.

    Peço desculpa pelo material extra do link, com o qual não coaduno em estilo, maneira de me expressar grosseira e rude; mas o artigo é efetivamente bom e ponderado. Creio que a reflexão geral de Narloch também: não há o herói e o anti-herói, independentes de deus atos: há uma história de vilões que devem ser reconhecidos pelo que são, e pelo que fazem.

    o artigo:
    "O Livro Negro do Comunismo

    Roberto Campos

    Folha de S. Paulo e O Globo

    19 Abr 1998



    “Le livre noir du communisme” (Edições Robert Laffont, Paris, 1997), escrito por seis historiadores europeus, com acesso a arquivos soviéticos recém-abertos, é uma espécie de enciclopédia da violência do comunismo. O chamado “socialismo real” foi uma tragédia de dimensões planetárias, superior em abrangência e intensidade ao seu êmulo totalitário do entre-guerras, o nazifascismo.

    Ao contrário da repressão episódica e acidental das ditaduras latino-americanas, a violência comunista se tornou um instrumento político-ideológico, fazendo parte da rotina de governo.

    Essa sistematização do terror não é rara na história humana, tendo repontado na Revolução Francesa do século 18 na fase violenta do jacobinismo, na “industrialização do extermínio judaico” pelos nazistas, e – confesso-o com pudor – na inquisição da Igreja Católica, que durante séculos queimava os corpos para purificar as almas. (continua)

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  4. (continuação) O “Livre noir” me veio às mãos num momento oportuno em que, reaberto na mídia e no Congresso o debate sobre a violência de nossos “anos de chumbo” nas décadas de 60 e 70, me pusera a reler o “Brasil Nunca Mais”, editado em 1985 pela Arquidiocese de São Paulo.

    Comparados os dois, verifica-se que o Brasil não ultrapassou o abecedário da violência, palco que foi de um miniconflito da Guerra Fria, enquanto que o “Livre noir” é um tratado ecumênico sobre as depravações ínsitas do comunismo, este sem dúvida o experimento mais sangrento de toda a história humana.

    Produziu quase 100 milhões de vítimas, em vários continentes, raças e culturas, indicando que a violência comunista não foi mera aberração da psique eslava, mas, sim, algo diabolicamente inerente à engenharia social marxista, que, querendo reformar o homem pela força, transforma os dissidentes primeiro em inimigos e, depois, em vítimas.

    A aritmética macabra do comunismo assim se classifica por ordem de grandeza: China (65 milhões de mortos); União Soviética (20 milhões); Coréia do Norte (2 milhões); Camboja (2 milhões); África (1,7 milhão, distribuído entre Etiópia, Angola e Moçambique); Afeganistão (1,5 milhão); Vietnã (1 milhão); Leste Europeu (1 milhão); América Latina (150 mil entre Cuba, Nicarágua e Peru); movimento comunista internacional e partidos comunistas no poder (10 mil).

    O comunismo fabricou três dos maiores carniceiros da espécie humana – Lênin, Stálin e Mao Tse-tung. Lênin foi o iniciador do terror soviético. Enquanto os czares russos em quase um século (1825 a 1917) executaram 3.747 pessoas, Lênin superou esse recorde em apenas quatro meses após a revolução de outubro de 1917.

    Alguns líderes do Terceiro Mundo figuram com distinção nessa galeria de assassinos. Em termos de percentagem da população, o campeão absoluto foi Pol Pot, que exterminou em 3,5 anos um quarto da população do Camboja.

    Fidel Castro, por sua vez, é o campeão absoluto da “exclusão social”, pois 2,2 milhões de pessoas, equivalentes a 20% da população da ilha, tiveram de fugir. Juntamente com o Vietnã, Fidel criou uma nova espécie de refugiado, o “boat people” – ou seja, os “balseros”, milhares dos quais naufragaram, engordando os tubarões do Caribe.

    A vasta maioria dos países comunistas é culpada dos três crimes definidos no artigo 6º do Estatuto de Nuremberg: crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

    A discussão brasileira sobre os nossos “anos de chumbo” raramente situa as coisas no contexto internacional da Guerra Fria, a qual alcançou seu apogeu nos anos 60 e 70, provocando um “refluxo autoritário” no Terceiro Mundo. Houve intervenções militares no Brasil e na Bolívia em 1964, na Argentina em 1966, no Peru em 1968, no Equador em 1972, e no Uruguai em 1973.

    Fenômeno idêntico ocorreu em outros continentes. Os militares coreanos subiram ao governo em 1961 e adquiriram poderes ditatoriais em 1973. Houve golpes militares na Indonésia em 1965, na Grécia em 1967 e, nesse mesmo ano, o presidente Marcos impunha a lei marcial nas Filipinas, e Indira Gandhi declarava um “regime de emergência”. Em Taiwan e Cingapura houve autoritarismo civil sob um partido dominante.

    O grande mérito dos regimes democráticos é preservar os direitos humanos, estigmatizando qualquer iniciativa de violá-los. Mas por lamentáveis que sejam as violências e torturas denunciadas no “Brasil, Nunca Mais”, elas empalidecem perto das brutalidades do comunismo cubano, minudenciadas no “Livre noir”.

    Comparados ao carniceiro profissional do Caribe, os militares brasileiros parecem escoteiros destreinados apartando um conflito de subúrbio… Enquanto Fidel fuzilou entre 15 mil e 17 mil pessoas (sendo 10 mil só na década de 60), o número de mortos e desaparecidos no Brasil, entre 1964 e 1979, a julgar pelos pedidos de indenização, seria em torno de 288, segundo a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, e de 224 casos comprovados, segundo a Comissão de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça. O Brasil perde de longe nessa aritmética macabra. (continua)


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  5. (continuação)
    Em 1978, quando em nosso Congresso já se discutia a “Lei da Anistia”, havia em Cuba entre 15 mil e 20 mil prisioneiros políticos, número que declinou para cerca de 12 mil em 1986. No ano passado, 38 anos depois da Revolução de Sierra Maestra, ainda havia, segundo a Anistia Internacional, entre 980 e 2.500 prisioneiros políticos na ilha. Em matéria de prisões e torturas, a tecnologia cubana era altamente sofisticada, havendo “ratoneras”, “gavetas” e “tostadoras”. Registre-se um traço de inventividade tecnológica – a tortura “merdácea”, pela imersão de prisioneiros na merda.

    Não houve prisões brasileiras comparáveis a La Cabaña (onde ainda em 1982 houve 100 fuzilamentos), Boniato, Kilo 5,5 ou Pinar Del Rio. Com estranha incongruência, artistas e intelectuais e políticos que denunciam a tortura brasileira visitam Cuba e chegam mesmo a tecer homenagens líricas a Fidel e a seu algoz-adjunto Che Guevara.

    Este, como procurador-geral, foi comandante da prisão La Cabaña, onde, nos primeiros meses da revolução, ocorreram 120 fuzilamentos (dos 550 confessados por Fidel Castro), inclusive as execuções de Jesus Carreras, guerrilheiro contra a ditadura batista, e de Sori Marin, ex-ministro da agricultura de Fidel. Note-se que Che foi o inventor dos “campos de trabalho coletivos”, na península de Guanaha, versão cubana dos “gulags soviéticos” e dos “campos de reeducação” do Vietnã.

    A repressão comunista tem características particularmente selvagens. A responsabilidade é “coletiva”, atingindo não apenas as pessoas, mas as famílias. É habitual o recurso a trabalhos forçados, em campos de concentração. Não há separação carcerária, ou mesmo judicial, entre criminosos comuns e políticos. Em Cuba, criou-se um instituto original, o da “periculosidade pré-delitual”, podendo a pessoa ser presa por mera suspeita das autoridades, independentemente de fatos ou ações.

    Causa-me infinda perplexidade, na mídia internacional e em nosso discurso político local, a “angelização” de Fidel e Guevara e a “satanização” de Pinochet. Isso só pode resultar de ignorância factual ou de safadeza ideológica.

    Pinochet foi ditador por 17 anos; Fidel está no poder há 39 anos. Pinochet promoveu a abertura econômica e iniciou a redemocratização do país, retirando-se após derrotado em plebiscito e em eleições democráticas como senador vitalício (solução que, se imitada em Cuba, facilitaria o fim do embargo).

    Fidel considera uma obscenidade a alternância no poder, preferindo submeter a nação cubana à miséria e à fome, para se manter ditador. Pinochet deixou a economia chilena numa trajetória de crescimento sustentado de 6,5% ao ano. Antes de Fidel, a economia cubana era a terceira em renda por habitante entre os latino-americanos e hoje caiu ao nível do Haiti e da Bolívia.(continua)

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  6. (continuação)
    O Chile exporta capitais, enquanto Fidel foi um pensionista da União Soviética e, agora, para arranjar divisas, conta com remessas de exilados e receitas de turismo e prostituição. Em termos de violência, o número de mortos e desaparecidos no Chile foi estimado em 3.000, enquanto Fidel fuzilou 17 mil!

    Apesar de fronteiras terrestres porosas, o Chile, com população comparável à de Cuba e sem os tubarões do Caribe, sofreu um êxodo de apenas 30 mil chilenos, hoje em grande parte retornados. Sob Fidel, 20% da população da ilha, ou seja, algo que nas dimensões brasileiras seria comparável à Grande São Paulo, teve de fugir.

    Em suma, Pinochet submeteu-se à democracia e tem bom senso em economia. Fidel é um PhD em tirania e um analfabeto em economia. O “Livre noir” nos dá uma idéia da bestialidade de que escapamos se triunfassem os radicais de esquerda. Lembremo-nos que, em 1963, Luiz Carlos Prestes declarava desinibidamente que “nós os comunistas já estamos no governo, mas não ainda no poder”.

    Parece-me ingenuidade histórica imaginar que, na ausência da revolução de 1964, o Brasil manteria apenas com alguns tropeços sua normalidade democrática. A verdade é que Jango Goulart não planejara minimamente sua sucessão, gerando suspeitas de continuísmo. E estava exposto a ventos de radicalização de duas origens: a radicalização sindical, que levaria à hiperinflação, e a radicalização ideológica, pregada por Brizola e Arraes, que podia resultar em guerra civil.

    É sumamente melancólico – porém não irrealista – admitir-se que, no albor dos anos 60, este grande país não tinha senão duas miseráveis opções: “anos de chumbo” ou “rios de sangue”…' (fim da crônica)

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  7. como nota final, quero pedir desculpas pelo tom rude, agressivo, do blog que publicou a crônica original, tom com o qual não coaduno de forma alguma. De modo que copiei aqui apenas o texto do Roberto Campos, uma análise ponderada e de números, uma análise humanista e razoável, não maculada de morte ideologicamente.

    Quero crer que a única história mal-feita é a ideologicamente comprometida...a que recusa dados que não convém, que busca MENOS dados, que foge de comparação, que busca escolher o que NÃO lerá. Qualquer análise de história que busca ser humana deve ter valores de humanidade, mas não seletivos, com status de herói e anti-herói.
    É análise de história que percebe que há vilões e vilões, e que esses são classificados de acordo com o que fazem, não o que dizem.

    O historiador que pretende que escolhe o que não lerá de antemão, que lê e quer que se leia MENOS, que se compare MENOS, que se discuta MENOS, que se fale MENOS, com MENOS informação: eis aí o teu mau historiador.

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