quarta-feira, 14 de maio de 2014

Baron Samedi e os Tontons Macoutes.

Notre Doc qui êtes au Palais national pour la vie, que votre nom soit béni par les générations présentes et futures, que votre volonté soit faite à Port-au-Prince et en province. Donnez-nous aujourd'hui notre nouvel Haïti, ne pardonnez jamais les offenses des apatrides qui bavent chaque jour sur notre pays[1]

Esta é uma “oração” propagada pelo governo de Papa Doc. Assim como outros ditadores latino-americanos do século XX, François Duvalier também desenvolveu um culto a sua personalidade através do vodu, utilizando-o “como instrumento de reencarnación y  reverenciacion  del varón Samedi, Dios de la muerte y de los cementerios Vudús.”[2]
Usufruindo das tradições religiosas do povo, apresentou-se como uma espécie de Grande Sacerdote do Vodu, reafirmando assim os valores autênticos da população negra, em contraponto com a elite mulata cristianizada/ocidentalizada. O clero católico fez parte do grupo de perseguidos pela ditadura:

Pápa Doc aplicó una política de mano firme en contra del catolicismo como medio para alcanzar un fin bien especifico: “lograr la haitianización del clero” o “crear un clero indígena”. Es decir, Duvalier pretendía modificar la composición de la alta jerarquia de la iglesia católica al promover a curas negros a altos puestos, ya que con dicha estratégia le sería más fácil cooptarlos y ponerlos a su servicio, a modo de mantenerse en el poder político.[3]


A haitianização do clero católico foi possível por meio de uma concordata com o vaticano assinada em 1966. Em 1860 também por meio de uma concordata, o presidente Fabre Geffrard havia restabelecido as relações exteriores com Roma, interrompidas desde a independência do Haiti em 1804. Esta concordata durou por mais de cem anos e somente cedeu espaço em 1966 quando o Papa Doc obteve do vaticano o direito de nomear os bispos católicos do Haiti. Entre estes nomeados por Papa Doc estava François Wolf Ligonde o novo Arcebispo de Porto Príncipe.[4]


François Ligonde, Arcebispo de Porto Príncipe, permaneceu no seu cargo mesmo após o fim da ditadura e faleceu em 2013. Disponível em: http://www.lematinhaiti.com/img_sys/ligonde.jpg Acesso: 03/05/2014.


Para além dos usos do vodu, Papa Doc criou sua própria “guarda pretoriana”, os vulgarmente conhecidos Tontons Macoutes (os Bichos Papões).


Tontons Macoutes, disponível em: http://www.latinamericanstudies.org/haiti/tonton.jpg Acesso: 03/05/2014.


Muitos dos líderes dessa milícia tinham estreitas ligações com o vodu, o que lhes davam perante os olhos da população um aspecto sobrenatural. Mesmo após o fim da ditadura em 1986, permaneceram os grupos armados. Opositores do regime eram perseguidos, presos, torturados, executados, e em muitos casos simplesmente desapareciam. A imprensa era totalmente controlada e os jornalistas eram parte dos grupos perseguidos por Duvalier.  Um conjunto de três prisões que atendiam ao governo de Papa Doc ficou conhecido como “triangulo da morte”.[5]

Nos próximos textos trataremos sobre as mulheres durante a ditadura e posicionamento do Haiti no contexto caribenho.

Samuel Cassiano - estudante do Curso de História - América Latina, da UNILA.






[1] Um pays dans l’impasse. Disponível em: http://www.mhaiti.org/sites/default/files/documents/Cr%C3%A9er%20'Document'/dossier_sur_haiti.pdf Acesso: 03/05/2014

[2] “Haití: El regresso de Jean Claude Duvalier o “El retorno de los Brujos” – Análisis Contextual”. Cf. http://geomundi.wordpress.com/articulos-anteriores/haiti-el-regreso-de-jean-claude-duvalier-o-%E2%80%9Cel-retorno-de-los-brujos%E2%80%9D-analisis-contextual/ Acesso: 12/12/2013. Grifos são nossos.

[3] SAINT PAUL, Jean Eddy. La Laicización de la política en Haiti. In: Los retos de la laicidad y la secularización en el mundo contemporâneo. Robert J. Blancart (coordenador). México. El Colégio de México, Centro de Estudios de Sociología, 2008. (p.326).
[4] “Concordats and Vodou: who controls the Haitian church?” Disponível em: http://www.concordatwatch.eu/showtopic.php?org_id=847&kb_header_id=858 Acesso: 03/05/2014.
[5] Haïti, un rendez-vous avec l’Histoire Les poursuites contre Jean-Claude Duvalier. HUMAN RIGHTS WATCH. Avril 2011. Disponível em: http://www.hrw.org/sites/default/files/reports/haiti0411frForUpload.pdf Acesso: 03/05/2014.

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