quarta-feira, 28 de maio de 2014

O fim da ditadura.

Os anos que antecederam ao fim da ditadura Duvalierista foram marcados pelo crescimento do descontentamento de diversos grupos opositores. A burguesia, insatisfeita com a crise econômica, com a ineficácia política e com as vantagens de todos os tipos oferecidas ao clã Bennett – em virtude de sua ligação com Baby Doc –, não conseguiu organizar-se através de uma liderança forte. O esvaziamento ideológico de partidos e sindicatos por Franções Duvalier deixou uma ausência de lideranças entre os burgueses. O mesmo se passava com a pequena burguesia urbana. Engrossavam o grupo de opositores, mas sem uma liderança específica.
Nesta conjuntura, o clero católico do Haiti terá grande papel no processo que levaria ao fim a ditadura. As atividades desenvolvidas pelo clero, com base no Concílio Vaticano II, correspondiam as aspirações populares: igualdade, justiça social, etc. A visita do papa João Paulo II ao Haiti em 1983 contribuiu para este despertar do clero, que passou a organizar os protestos. O rádio passa a ser amplamente utilizado como veículo de comunicação das insatisfações populares. Os diversos grupos opositores, heterogênicos e com distintas aspirações derrubaram a ditadura outrora intocável:

Pierre-Charles sostiene que, hoy por hoy, el elemento central de identidad política del pueblo haitiano es simple y precario: el rechazo al régimen. En este planteo mínimo coinciden desde los sectores más radicalizados (que visualizan la superación del régimen por el desarrollo de un proceso de luchas que desembocarían em la creación de un Estado socialista) hasta la derecha de inspiración democrática li-beral, que está por la modernización del país, passando por los grupos reformistas, con lecturas y  propuestas diversas  que apenas coinciden entre sí   en  la necesidad de  establecer   algún  tipo  racional  y  civilizado  de  institucionalidad (...)[1]

A participação popular também foi intensa. Desde o campesinato das províncias distantes – o que obrigava os Tontons Macoutes a saírem da capital Porto Príncipe – até estudantes. A reação da polícia de Baby Doc foi violenta:

HAÏTI : TROIS COLLÉGIENS ABATTUS
De graves incidents survenus le 28 novembre 1985 témoignent du climat politi­que de tension croissante (...) Ce jour-là deux collégiens étaient abattus par balles et un autre frappé à mort à l'intérieur d'établissements sco­ laires, à l'occasion de manifestations d'opposition se déroulant dans les rues voisines. L'assassinat délibéré du jeune Jean-Robert Cius est en réalité un aver­ tissement adressé aux prêtres qui mobilisent la jeunesse, comme lors du Concile des jeunes d'Haiti (...) Gonaïves, ce 28 novembre 1985 Emmanuel Constant Evêque des Gonaïves[2]

Uma marcha da juventude em Gonaives – conhecida como cidade da independência, pois foi aí que Jean-Jacques Dessalines proclamou a independência em 1802 –, realizada em 28 de novembro de 1985, duramente reprimida pela polícia resultou na morte de três estudantes. Este fato é considerado como o estopim para o início da onda de manifestações pelo país que culminaram com o fim da ditadura.

The immediate cause of this outrage was the shooting of three teenagers on november 28, 1985, and the ensuing wave of arrests and beating of Gonaives dissidents. Jean Cobert Cuis, Mackenson Michel, and Daniel Israel, the three students murdered by Duvaliers security forces, became martyres to the struggle for dignity and freedom. Their deaths unleashed a nex symbolic repertoire of contestation and determined popular resistance. Indeed, for the first time, during these Gonaives demonstrations Jean Claude Duvalier himself was personally directly as an "assassin" who had to go.[3]

Em dezembro, cerca de 350 mães de família de diferentes partes do país realizam uma manifestação em solidariedade as mães dos três estudantes assassinados. Baby Doc viu eclodir manifestações por todo o país e passou a ser pressionado pelo presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan. Isolado, Baby Doc decide abandonar o governo. Em 07 de fevereiro de 1986, declarando: “salgo com la cabeza erguida... dejo el poder a los militares”.[4]

Samuel Cassiano - estudante do Curso de História - América Latina, da UNILA.


[1] “Haití: la procesión va por dentro.” NUEVA SOCIEDAD NRO. 41 MARZO-ABRIL 1979, PP. 129-134. (Entrevista de Gerard Pierre Charles, politólogo haitiano e dirigente da resistência antiduvalierista).
[2] Diffusion de l’information sur l’Amérique latine DIAL n°1076. PARIS (FRANCE) Hebdomadaire - 26 décembre 1985 - 2 F. Disponível em: http://www.alterinfos.org/archives/DIAL-1076.pdf Acesso: 13/12/2013. Grifos são nossos. Sobre Gonaives, protestos mais recentes (2003) e coincidentemente também 28 de novembro, levaram a morte pelo menos um estudante, baleado durante uma manifestação em contra o governo de Aristide. Cf. http://www.alterpresse.org/spip.php?article924#.Uqskm_RDt64 Acesso: 13/12/2013.
[3] FATTON JR, Robert. Haiti’s Predatory Republic: the unending transition to democracy. Boulder, Co.: Lynne Rienner Publishers, Inc., 2002 (p.61).
[4] CASTOR, Suzi. Haiti: de la ruptura a la transicoón. Nueva Sociedad Nro.82 marzo-abril 1986, (p.61-62)

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