quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Diáspora.

O processo de dispersão de um povo ao longo do tempo é conhecido como diáspora. Exemplos clássicos de deslocamentos traumáticos de populações humanas são a diáspora judaica e a africana. Atualmente, a utilização do conceito se flexibilizou. Pode ser aplicado a migrações voluntárias (isto é, não traumáticas), e a casos de autodenominação, geralmente com a intenção de reforçar a manutenção de vínculos com a terra de origem e/ou com os demais membros da comunidade diaspórica (por exemplo, a diáspora hindu). À semelhança das travessias e migrações irregulares de que falamos no último post, as diásporas também serviram de tema para diversas manifestações artísticas.
Na música, Bob Marley sintetiza a experiência da diáspora africana na canção “Redemption Song”:


Também no espaço do Caribe anglófono, o romance A pequena ilha, de Andrea Levy, trata da experiência de migração dos jamaicanos ao Reino Unido no período imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial. Este processo pode ser considerado uma diáspora no sentido contemporâneo do termo, bem como um desdobramento da diáspora africana. Neste segundo momento, os afrodescendentes, cujos antepassados foram escravizados e levados ao Caribe, fazem o movimento de migração rumo às antigas metrópoles (no caso, o Reino Unido).


Ainda no Caribe, a literatura de V. S. Naipaul reflete a diversidade étnico-cultural decorrente de outro processo traumático, o indentured labour. Este conceito, que pode ser traduzido como “contratos de aprendizagem”, refere-se ao ocorrido entre os século XIX e XX,  quando, após a escravidão, os britânicos recorreram à mão de obra de regiões hoje correspondentes aos estados de Índia e China para substituir o trabalho de africanos e de seus descendentes no Caribe e na América do Sul. Os trabalhadores recebiam baixos salários e ficavam vinculados ao emprego por dívidas. No livro Os mímicos, V. S. Naipaul trata da herança do período colonial em Trinidad e Tobago e da trajetória das classes médias e alta divididas entre a ex-colônia e a antiga metrópole.


O livro A tristeza extraordinária do Leopardo das Neves, de Joca Reiners Terron, tem como protagonista um homem judeu que vive no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Seu contato com outros imigrantes da região, como bolivianos e coreanos, se desenrola em meio ao mistério que envolve Leopardo das Neves. O livro coloca em cena uma família cuja história está marcada pela diáspora judaica, no contexto da América Latina e suas migrações internas.


A tristeza extraordinária nos faz pensar na história do bairro do Bom Retiro e na dinâmica das ondas de migração que vão alterando o perfil da região, através da recorrente apropriação e reapropriação do espaço por cada nova comunidade, que ali vai inscrevendo seus símbolos. Um processo semelhante aparece no romance Um Lugar Chamado Brick Lane, de Monica Ali, sobre os imigrantes bengalis em Londres. Essa imigração relaciona-se aos traumas da formação do estado de Bangladesh, cujo estabelecimento foi seguido de ondas de refugiados principalmente para Índia e Inglaterra. A migração de Bangladesh para a Inglaterra não ficou restrita a esse período do início da década de 1970, mas se manteve nas décadas seguintes por migrações voluntárias.


Profa. Mirian Santos Ribeiro de Oliveira.

Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos.

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