segunda-feira, 11 de julho de 2016

Ioga na história (Parte II)

Os processos iniciais de internacionalização do ioga (ou globalização do ioga, expressão preferida por alguns pesquisadores) são geralmente atribuídos a Swami Vivekananda, reformador hindu que ficou bastante conhecido no Ocidente após sua participação no Parlamento das Religiões do Mundo, em Chicago, no ano de 1893. Ao longo do século XIX, período de consolidação da dominação britânica do subcontinente indiano, os iogues e suas práticas foram criticados por britânicos e por hindus que buscavam reformar a própria sociedade apropriando-se de concepções europeias de organização social. Neste sentido, Vivekananda divulgou em sua estadia no Ocidente o Raja Yoga (ou Ioga Real), com ênfase em aspectos meditativos/espirituais, colocando em segundo plano as práticas físicas (as posturas) do ioga, consideradas imagens do “atraso” e da “superstição” hindus. No entanto, no mesmo período, os indianos também sofreram influência do movimento internacional de cultivo do corpo e, nas décadas iniciais do século XX, exercícios de ioga foram objeto de investigação científica sistemática e de validação por acadêmicos indianos que procuravam “comprovar” a sabedoria ancestral hindu. Nos anos 1940, o ioga que se praticava e ensinava na Índia havia incorporado vários elementos desta tradição de cultivo do corpo. Este também foi o período em que a distinção entre uma prática secularizada (voltada para a saúde e a educação física) e outra espiritual (em que prática corporal e espiritual são concebidas como indissociáveis) começa a ser traçada (HAUSER, 2013).
É interessante observar como diferentes visões do ioga foram difundidas a partir do subcontinente indiano por grupos e indivíduos de origem ocidental que por ali circularam, por líderes espirituais indianos que emigraram/viajaram para o Ocidente, por praticantes e admiradores da educação física (indianos ou não) que transitaram entre a Europa, os Estados Unidos e o subcontinente indiano – para citar apenas alguns exemplos. No Brasil, o ioga teria sido introduzido na década de 1950 por um francês que cresceu na Argentina, viveu no Uruguai e se radicou no Brasil (Rio de Janeiro e Paraná): Leo Alvarez Costet de Mascheville (Sevananda Swami) (SANCHES e GNERRE, 2015).  A partir dos anos 1960 e do advento da contracultura, a circulação mundial de práticas, ideias e objetos relacionados ao ioga se intensificou, o que implicou também a multiplicação de estilos de prática e de sentidos atribuídos a tais estilos.
Os processos de difusão do ioga pelo mundo e pela América Latina são complexos e multifacetados e não poderiam ser analisados em profundidade nesta postagem. Apresentamos uma breve introdução, indicamos referências bibliográficas ao final do texto e comentamos sucintamente um estilo de ioga específico: Kundalini Yoga como Ensinado por Yogi Bhajan. No mês de junho, estudantes e convidad@s da disciplina História das Religiões Sul-Asiáticas, do curso de História da UNILA, fizeram uma aula de Kundalini Yoga, e conversaram com o professor Rodrigo Cupelli sobre a prática e a história deste estilo. Yogi Bhajan, um indiano originário do Panjab, chegou aos Estados Unidos no final da década de 1960 e ali sistematizou e difundiu técnicas físicas de ioga associadas à espiritualidade sique. O siquismo é uma religião do Norte do subcontinente indiano, surgida no século XV. Na América Latina, Kundalini Yoga é praticado em vários países, com destaque para México, Chile, Argentina e Brasil.

Estudantes e professora da disciplina História das Religiões Sul-Asiáticas e convidad@s com o professor Rodrigo Cupelli, do Espaço Prema Devi Yoga (25 de junho de 2016). Foto: Lucio Eiji Fukumoto, estudante de Antropologia

Foto: Mirian Oliveira

Referências: ELIADE, M. Historia de las creencias y las ideas religiosas. Volumen I. De la edad de piedra a los misterios de Eleusis. Barcelona: Paidós Ibérica, 1999. ELIADE, M. Historia de las creencias y las ideas religiosas. Volumen II. De Gautama Buda al triunfo del cristianismo. Barcelona: Paidós Ibérica, 1999. HAUSER, B. Introduction: Transcultural Yoga(s). Analyzing a Traveling Subject. HAUSER, B. (Ed.) Yoga Traveling. Bodily practic in transcultural perspective. Springer: London, 2013. SANCHES, R. L.; GNERRE, M. L. A. As representações de Sevananda como pioneiro no campo do Yoga brasileiro. Cultura Oriental, v. 2, n.1, p. 59-70, jan-jun.2015, p. 59-70.

Profa. Mirian Santos Ribeiro de Oliveira

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