segunda-feira, 5 de setembro de 2016

História para se ler “na rede”

Imagine ler documentos históricos dos séculos XVI e XVII, não em papéis gastos e envelhecidos, dentro de arquivos e bibliotecas (muitas vezes de difícil acesso), mas em livros de formato manuseável, deitado em uma rede, em sua própria casa. Essa cena lembra o trabalho de um historiador? Para um dos mais importantes historiadores brasileiros, sim. Um historiador que acreditava que as fontes da história, e assim a própria escrita da história, deveriam estar ao alcance do público.
Vivemos em uma época na qual, gradativamente, em quase todo o mundo, acontece a digitalização de documentos, livros, cartas, partituras de música, gravações e outras fontes guardadas nos acervos de bibliotecas e institutos. Por vários processos, como a fotografia digital, esses registros são transformados em arquivos de computador e colocados à disposição do público, via internet. Desse modo, amplia-se o acesso aos documentos, e criam-se alternativas para a preservação do conteúdo desses registros. Sem falar no conforto dos pesquisadores, estudiosos e curiosos em geral, podendo visualizar obras antigas de suas próprias casas.
No processo de formação da história como disciplina acadêmica, essa preocupação com a preservação das fontes e com a ampliação do acesso às mesmas motivou, em outros momentos, importantes iniciativas, quando a tecnologia não era ainda a que temos hoje. Em várias partes do mundo, ao longo do século XIX, e começo do século XX, muitos historiadores, intelectuais em geral e instituições preocuparam-se em ir aos arquivos, copiar textos antigos, para depois publicá-los em livros ou revistas de história, em edições acessíveis senão a todos, já a uma importante parcela da sociedade. Os leitores dessas edições poderiam, assim, estudar, direto nas fontes, a história de suas sociedades. O Brasil não esteve à parte desse movimento. Por aqui, destacaram-se várias iniciativas nesse sentido, bem como o trabalho de alguns indivíduos, entre eles o historiador João Capistrano de Abreu (1853-1927). Capistrano de Abreu, como é mais conhecido, é considerado um autor clássico na historiografia brasileira, em especial por sua obra Capítulos de história colonial (publicada em 1907). Capistrano inovou ao estudar a vida cotidiana do povo na história; sua maior preocupação não era o estudo das elites, mas da ocupação do território que viria a ser o Brasil, investigando a sociedade e os modos de vida do povo nesse processo.
Capistrano também merece destaque por uma atividade que realizou ao longo de toda a sua vida: a edição e publicação de documentos históricos, em livros ou artigos de revistas. Sua obra, nesse campo, visou o que chamava de “vulgarização” das fontes, isto é, sua transformação de algo para poucos em algo comum, vulgar, acessível ao público. Em suas edições, procurava facilitar aos leitores o entendimento dos textos, atualizando a grafia, por exemplo, tomando um texto escrito no português do século XVI, e passando-o para o português de sua época. Além disso, procurava transmitir que era esperado de um historiador, em sua visão: o corpo de conhecimentos necessários para a compreensão de um texto de outra época, e a citação rigorosa das fontes e autores utilizados.
Talvez o mais importante dos documentos publicados por Capistrano seja a História do Brasil de Frei Vicente do Salvador (nascimento em 1564 - morte entre 1636-39), natural da Bahia. A obra foi concluída em 1627, mas passou séculos praticamente esquecida ou escondida em arquivos públicos e bibliotecas particulares. Frei Vicente receberia aquela que é considerada a melhor edição de um documento histórico efetuada por Capistrano de Abreu: a edição de 1918, que trouxe, além de uma “Nota Preliminar”, “Prolegômenos” (introduções) a cada um dos cinco livros de que se compõe a História do Brasil. A facilidade de acesso ao texto de 1627 foi pensada inclusive em termos de conforto para o leitor: Capistrano elaborou esta edição de 1918 visando um formato de livro que pudesse ser lido “na rede”, que era onde o historiador cearense gostava de estudar. Hoje, podemos ler a obra de frei Vicente “na rede”, mas a internet, onde ela já se encontra disponível.
Com essas edições, Capistrano procurava ainda contribuir para desfazer um tipo de história baseado no monopólio dos historiadores sobre as fontes. Não poderiam conhecer e escrever história apenas aqueles que pudessem adquirir os documentos em leilões e no mercado de antiguidades, ou viajar pelo mundo visitando arquivos. Capistrano mantinha a missão de indicar, como editor, o aproveitamento do texto editado enquanto fonte, citando com precisão todos os documentos e livros que usava. Mostrava, com isso, que todos deveriam saber em que se baseavam os historiadores, e de onde extraíam seus conhecimentos. Suas edições permitiam a estudiosos sem muito contato com história uma introdução a textos antigos e a toda a bibliografia requerida para compreender e estudar o assunto, transformando o leitor em historiador.
 
Indicações de leitura:
 
ABREU, João Capistrano de. Capítulos de História Colonial. 1500-1800. 7ª ed. rev. anotada e prefaciada por José Honório Rodrigues. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Publifolha, 2000 (Coleção Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro).
 
OLIVEIRA, Maria Leda (ed.). Historia do Brazil de frei Vicente do Salvador. Salvador, Bahia: Editora Versal Odebrecht, 2008.
 
A edição de 1918 da História do Brasil de Frei Vicente do Salvador pode ser encontrada na internet: http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/01861600. Site da Brasiliana da USP.
 
Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

2 comentários:

  1. Importante o texto. Agora vamos fazer posts sobre a política atual.. Já que o uso da "história" por parte dos deputados,senadores e presidentes parece ter virado vicio de linguagem.. A gente usa quando esqueceu o que ia dizer, o simplesmente p encher o vazio entre as palavras pensadas e as palavras ditas.. por um blog com uma atuação maior :) rss

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  2. Gracias Antonio por la recomendación, lo llevaremos en cuenta.
    Saludos!

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