quinta-feira, 6 de outubro de 2016

História e Antropologia: aproximações a partir de E. P. Thompson

[A]l igual que la historia económica presupone la disciplina de la economía, la historia social (en su examen sistemático de las normas, las expectativas, los valores) debe presuponer la disciplina de la antropología social. No podemos estudiar los rituales, las costumbres, las relaciones de parentesco, sin detener el proceso de la historia de vez en cuando, y someter los elementos a un análisis estructural estático y sincrónico” (THOMPSON, 2000, p. 36)

A partir dessa afirmação categórica, o historiador inglês E. P. Thompson (1924-1993) definiu a importância da antropologia para o estudo da história social: da mesma forma que os historiadores de história econômica devem conhecer economia, o estudo da história social deve pressupor o conhecimento da antropologia social.  Esta reflexão está no artigo “Historia y Antropología”, versão de conferência que Thompson proferiu na Índia em 1976.
Thompson é um dos historiadores marxistas mais influentes na historiografia desde meados do século XX (autor do clássico Formação da classe operária inglesa), cuja “história vista de baixo” inspirou uma série de abordagens (entre elas os Estudos Subalternos). Como historiador, recusou-se a aceitar o economicismo de parte da historiografia marxista de seu tempo (isto é, a constante atribuição da causalidade na história a fatores econômicos), defendendo (e demonstrando) a importância da cultura na formação de uma classe social e no comportamento das pessoas na história. Sobretudo a partir dos anos 1970, enriqueceu seus estudos sobre a classe trabalhadora inglesa com influxos da antropologia social. E quais foram esses influxos? Como pode a visão de um historiador ser alargada pelo contato com a antropologia?
Segundo Thompson, o estímulo da Antropologia não viria na direção da construção de novos modelos,

“sino en la localización de nuevos problemas, en la posibilidad de ver viejos problemas de formas nuevas, en un énfasis sobre las normas o los sistemas de valores y sobre los rituales, en la atención a las funciones expresivas de las formas de tumulto y de disturbio, y sobre las expresiones simbólicas de la autoridad, el control y la hegemonía” (THOMPSON, 2000, p. 16)

Para ele, o historiador ganha com o contato com a Antropologia novos problemas, ou a visão de velhos problemas sob uma nova ótica. Sobre os novos problemas, Thompson pensa principalmente no estudo de rituais e cerimônias, de normas e sistemas de valores (“el ritual permea la vida social y política, al igual que la doméstica”, THOMPSON, 2000, p. 25). Na nova visão sobre problemas já trabalhados, entrava, por exemplo, o estudo do poder, controle e autoridade a partir de sua dimensão simbólica. Isto é, a definição do controle social em termos de hegemonia cultural, conceito que remonta a Antonio Gramsci (1891-1937):

“Definir el control en términos de hegemonía cultural no significa abandonar los intentos de análisis, sino prepararse para el análisis en los aspectos en los que se debería realizar: en las imágenes del poder y la autoridad, las mentalidades populares de subordinación” (THOMPSON, 2000, p. 27)

Esta é uma forma rica de entender as interações entre História e Antropologia, mas bem específica, pelo seu lugar de enunciação: Thompson fala enquanto historiador, pensando em como aprofundar e enriquecer a perspectiva histórica a partir da Antropologia. Pensa em acrescentar à dimensão diacrônica da História (ou seja, o estudo dos fenômenos no decorrer do tempo) a dimensão “estructural estático y sincrónico” da Antropologia, como está na citação que abre nosso post. Isto é, analisar relações e significados, de certa maneira, “congelando-os no tempo”, para compreender sua estrutura.
Outras relações são certamente possíveis, partindo de diferentes lugares de enunciação: um antropólogo apropriando-se da História, ou uma tentativa de construção verdadeiramente interdisciplinar. Deixamos hoje como sugestão de reflexão aos leitores pensarmos sobre como essas duas disciplinas podem se articular, de formas férteis e criativas, sem hierarquias entre si.

Referências e indicações de leitura

THOMPSON, E. P. A Formação da Classe Operária Inglesa. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 3 vols., 1987, tradução de Denise Bottman. [Original de 1963.]
­­­­­­­­­­­­­­_______________. Historia y antropología. Agenda para uma historia radical. Barcelona: Editorial Crítica, 2000.


Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

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