quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Literatura e História, Parte 2: a construção de narrativas no trabalho do historiador

O que os textos historiográficos, enquanto narrativas, contêm de literatura? As relações entre literatura e história têm despertado instigantes debates nas últimas décadas. Vimos, na postagem passada, como os historiadores da cultura procuram na literatura fontes para a sensibilidade e o imaginário de sociedades do passado. Hoje apresentaremos resumidamente como os estudos em Teoria da História têm se perguntado sobre o quanto a escrita dos historiadores contém de recursos literários.
A apresentação pelos historiadores de ao menos parte de suas pesquisas sob a forma narrativa (para descrever os eventos que analisarão, por exemplo) traduziu-se, nas últimas décadas, em uma reflexão sobre como os historiadores agem enquanto narradores. As narrativas historiográficas se assemelham, de alguma maneira, às narrativas literárias? Ao descrever indivíduos e acontecimentos do passado os historiadores não acabariam por utilizar recursos estilísticos que os aproximariam dos romancistas, ao desenvolverem seus personagens e tramas? A questão se insere no debate sobre a centralidade da narrativa nos textos historiográficos. Em grande medida, o debate se deveu à repercussão do livro Meta-história, do norte-americano Hayden White, publicado originalmente em 1973. Na obra, White analisa historiadores e filósofos da história dos séculos XIX e início do XX. White identifica formas gerais de organização das narrativas (ou de elaboração de enredo) que estariam na base de todo relato historiográfico: o romance, a tragédia, a comédia e a sátira. Tais formas se associariam a formas específicas de argumentação formal (definidas por White como formismo, organicismo, mecanicismo e contextualismo), e a determinadas posições políticas (anarquismo, conservantismo, radicalismo e liberalismo). A combinação das formas de elaboração de enredo, argumentação formal e posicionamento político definiria o estilo historiográfico de cada historiador e/ou filósofo da história.
A argumentação de White em favor da importância da narrativa para a historiografia se insere em um conjunto de reflexões de filósofos e teóricos da história sobre o tema. O próprio Hayden White fez um apanhado das diferentes posições em relação à narrativa na historiografia ao longo do século XX no texto “A Questão da Narrativa na Teoria Histórica Contemporânea” (traduzido para o português em NOVAIS; SILVA, 2011, p. 439-483). Nele, White identifica quatro posições principais em relação à narrativa: 1) a filosofia analítica anglo-americana; 2) os historiadores que chama de "orientação sociocientífica" (NOVAIS; SILVA, 2011, p. 448), dentre os quais a Escola dos Annales seria o melhor exemplo; 3) os filósofos e téoricos da literatura de orientação semiológica e, 4) os filósofos de orientação hermenêutica (como Gadamer e Paul Ricoeur, por exemplo). Entre essas correntes, a primeira e a última atribuem maior centralidade à narrativa: a primeira (filosofia analítica anglo-americana) por considerar a narrativa um tipo de explicação específico e apropriado aos eventos históricos (ou seja, a forma própria dos historiadores não só descreverem, mas explicarem seus objetos de estudo). A última (a hermenêutica), por considerar a narrativa a maneira pela qual uma consciência de tempo específica se manifesta em nossos discursos. A posição da hermenêutica é destacada especialmente por Hayden White, em particular o filósofo francês Paul Ricoeur (1913-2005), pois Ricoeur identifica uma unidade necessária entre as ações humanas e a narrativa como forma de colocá-las em discurso. Como descreve White:

“Essa necessidade emerge do fato de que acontecimentos humanos são ou foram produtos de ações humanas, e essas ações produziram consequências que têm a estrutura de textos - mais especificamente, a estrutura de textos narrativos. O entendimento de tais textos, considerados produtos de ações, depende de nossa capacidade de reproduzir os processos pelos quais foram produzidos, ou seja, de narrativizar essas ações. Desde que sejam, com efeito, narrativizações vividas, segue-se que a única maneira de representá-las é pela própria narrativa" (NOVAIS; SILVA, 2011, p. 479).

Ou seja, nessa interpretação (em linhas gerais) nossas ações possuem a “estrutura de textos”: são produzidas mediante intenções e geram consequências. Isto é, as próprias ações humanas se dão sob a forma de enredos. E sua compreensão só pode se dar pelo entendimento desse enredo, do conjunto de uma narrativa, e não apenas de suas partes isoladas. “Entender as ações históricas”, afirma White a respeito do pensamento de Paul Ricoeur, “é 'obter conjuntamente', como partes de conjuntos que possuem 'sentido', as intenções que motivam ações, as próprias ações, e suas consequências tais como têm reflexo nos contextos sociais e culturais" (p. 475). O sentido do todo, para Ricoeur, vem do enredo. Livros diferentes sobre a Guerra da Tríplice Aliança, por exemplo, podem conter as mesmas afirmações factuais isoladas (isto é, o que se passou em cada dia, em cada batalha etc.), mas possuírem sentidos gerais distintos. A Guerra pode ser apresentada pelo historiador, em sua narrativa, como uma tragédia que se abate sobre o povo paraguaio, ou como uma vitória triunfal das forças da Tríplice Aliança. Desse modo, só terá compreendido o sentido destas distintas narrativas historiográficas o leitor que entender como cada historiador elaborou seu enredo, o conjunto, como relatou a sequência específica de eventos que formam seu objeto de estudo.
As reflexões de Hayden White, em particular, causaram polêmica entre os historiadores. Suas considerações a respeito da possibilidade de avaliação de diferentes obras históricas tão somente pela escolha (relativamente arbitrária) do estilo de narrativa adotado pelo historiador levaram alguns historiadores a rejeitarem suas proposições. Se a única diferença entre livros de história sobre um mesmo tema está na forma como cada historiador elabora seu enredo, e não na maior ou menor veracidade ou objetividade dos conhecimentos contidos em cada obra, a própria validade do conhecimento histórico se mostraria discutível. O historiador italiano Carlo Ginzburg, em particular, tornou-se forte opositor das ideias de Hayden White, defendendo uma noção de retórica (de organização do discurso, da narrativa) contendo a ideia de prova: ou seja, a diferença entre as narrativas dos historiadores envolve a forma como cada historiador trabalhou suas evidências, suas fontes, as provas para aquilo que afirmam (GINZBURG, 2002). Não seria apenas um caso de escolher uma forma específica de narrar os acontecimentos.
Incorporando ou não por completo as reflexões de Hayden White, o debate sobre o lugar da narrativa na escrita dos historiadores chamou a atenção para esse aspecto essencial da escrita da história: como os historiadores constroem seus enredos, como organizam seus textos. Um aspecto importante a se notar quando estivermos diante de obras de história, fundamental para uma leitura mais crítica da bibliografia. Por outro lado, nos leva, enquanto historiadores e estudantes, produtores de textos historiográficos, a pensarmos como nós mesmos elaboramos nossas narrativas quando apresentamos nossa pesquisa num texto ou aula de história.

Observação: as posições de Hayden White são comumente associadas ao pós-modernismo em história, corrente analisada em postagens anteriores aqui no blog. Sobre White, vale a releitura da postagem "O Texto Histórico como Artefato Literário", de Hayden White, do Prof. Paulo Renato da Silva, postada no dia 7 de setembro de 2013: http://unilahistoria.blogspot.com.br/2013/09/o-texto-historico-como-artefato.html.

Referências bibliográficas e indicações de leitura:

GINZBURG, Carlo. Relações de força: história, retórica, prova. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa. Campinas, SP: Papirus, 1994 (3 tomos).
WHITE, Hayden. Meta-História: A Imaginação Histórica do século XIX. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.
_____________. “A questão da narrativa na teoria histórica contemporânea”. NOVAIS, Fernando A.; SILVA, Rogério Forastieri da (orgs.). Nova História em Perspectiva. São Paulo: Cosac & Naify, 2011, p. 438-483.
  

Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

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