quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Paralelos, retornos e lições da História: as “voltas” do fascismo

No início de abril de 1967, o professor de história Ron Jones, que lecionava na escola Cubberley High School (em Palo Alto, estado da Califórnia), ministrava aula sobre a ascensão do nazismo, quando se viu incapaz de explicar a seus alunos de Ensino Médio como a população alemã na década de 1930 pôde ignorar as evidências do Holocausto e apoiar o regime de Adolf Hitler. Jones decidiu então realizar um experimento: ensinar os ideais do nacional-socialismo a seus estudantes, mostrando, ao mesmo tempo, como eles próprios, norte-americanos vivendo em uma democracia em 1967, poderiam ser suscetíveis à psicologia de massas da política hitlerista.
O experimento, denominado “Terceira Onda”, durou cinco dias, nos quais o professor Jones enfatizou a seus alunos ideais como disciplina, comunidade, ação e orgulho, apresentando aos estudantes um movimento (a “Terceira Onda”), que lhes proporcionava um senso de unidade e comunidade como grupo. A atividade envolveu inclusive a adoção de símbolos, gestos e roupas uniformes entre os estudantes, e a exclusão daqueles que questionaram o movimento, estabelecendo uma rígida estrutura de adesão e pertencimento, com a qual os estudantes, em sua maioria, voluntariamente concordaram. A experiência teve de ser interrompida, pois o movimento fugiu do controle do professor, atraindo estudantes de outras classes e afetando atividades normais da escola. Ron Jones preparou então a última parte da lição: um comício no qual os alunos assistiriam a um pronunciamento televisionado do “líder” da “Terceira Onda”. Após reunir todos os estudantes em um auditório para o suposto pronunciamento, o professor Jones explicou o que se passava: não havia pronunciamento, não havia líder, tampouco “Terceira Onda”. Ele havia, de fato, conseguido demonstrar a seus estudantes como funcionava a mentalidade fascista, e responder à questão de como puderam os alemães ignorar as atrocidades do regime e comparecer em apoio a Hitler e seu partido. Os alemães, na década de 1930, se dirigiam aos comícios da mesma maneira que os próprios alunos haviam se dirigido ao “comício” fictício organizado pelo professor: guiados por uma mentalidade que lhes deu um senso de pertencimento, que identificou “inimigos” de seu modo de vida, e os deu força, disciplina e segurança enquanto agiam coletivamente. O professor Jones concluiu o experimento com a exibição de um filme sobre o fascismo. Vale dizer que sua experiência levanta sérias questões éticas também, a respeito do trabalho do professor com os alunos, sobretudo pela maneira como o professor Jones conduziu a atividade sem esclarecê-la previamente aos estudantes.
A história da “Terceira Onda” foi dramatizada no cinema, mais recentemente no filme alemão A Onda (2008), dirigido por Dennis Gansel. O experimento nos remete a debates atuais sobre o surgimento (ou ressurgimento) de movimentos neofascistas, em particular na Europa, em geral calcados na xenofobia e em narrativas que culpam os imigrantes por problemas como o desemprego. A questão que inquietou os alunos e o professor norte-americano retorna constantemente ao tratarmos do fascismo: com puderam as pessoas comuns ignorar as evidências do que se passava e permitir a ascensão do totalitarismo? Isso poderia ocorrer conosco, atualmente, mesmo com nossas experiências históricas como alerta?
Perspectiva semelhante, de pensar nossas reações, atualmente, a líderes como Adolf Hitler, é explorada no filme alemão Ele está de volta (2015), dirigido por David Wnendt e baseado no romance homônimo de Timur Vermes, publicado em 2012. O filme, misto de comédia e documentário, imagina o que aconteceria se Adolf Hitler voltasse à vida na Alemanha atual. Na parte cômica, a narrativa centra-se na descoberta de Hitler por um produtor de TV, que busca transformá-lo em celebridade, ao perceber que o povo o vê como um imitador perfeito do ditador. O filme discute, com isso, tanto nossa cultura midiática atual, como o uso, pelo nazi-fascismo, dos meios de comunicação de massa mais modernos para difundir sua ideologia. A parte de documentário do filme é talvez a mais interessante (e surpreendente): acompanhamos o personagem Hitler abordando pessoas comuns nas ruas da Alemanha, que têm suas reações registradas nas câmeras. O filme capta, assim, o discurso xenófobo difundido naquela sociedade, nas falas de indivíduos que reclamam da situação atual do país, da presença de imigrantes, e, em alguns casos, chegam a declarar sua simpatia pelo ditador. Além de mostrar o estado atual de organizações neonazistas na Alemanha.
Essas experiências didáticas e obras de ficção nos permitem discutir questões importantes em História, em particular a possibilidade do passado nos deixar lições. O estudo e o conhecimento do fascismo nos garantem que esse fenômeno (ou versões dele) não voltará a ocorrer em nossas sociedades? Ou continuamos sujeitos, como os estudantes secundaristas norte-americanos em 1967, a apelos de uma política fascista de massas? Desde o gradual desaparecimento, a partir de fins do século XVIII, da concepção de história mestra da vida, uma história que orientava o presente com base em lições do passado, os historiadores e filósofos da história tendem a desconsiderar a possibilidade de aprendermos com o passado, enfatizando nossas diferenças em relação a outros períodos históricos. Considerando eventos e períodos ainda próximos no tempo, como o fascismo, podemos de fato nos compreender como muito distintos das gerações que apoiaram os regimes totalitários do século XX?

Nosso post deixará hoje indicações de filmes e leituras para aprofundarmos nossa discussão. Começamos com o trailer de A Onda e o documentário A Onda: Experimento Escolar e Nazismo, que relata a experiência de Ron Jones:



A ascensão do nazismo na Alemanha foi também tema do filme O Ovo da Serpente (1977), de Ingmar Bergman:


Deixamos ainda o link do site de informações sobre cinema IMDB sobre o filme Ele está de volta: http://www.imdb.com/title/tt4176826/

Para uma reflexão sobre a ascensão de movimentos totalitários, deixamos como sugestão a obra clássica de ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. Recomendamos ainda o relato do próprio professor Ron Jones a respeito de seu experimento (em inglês): http://www.thewavehome.com/1976_The-Third-Wave_story.htm, acesso em 9 de novembro de 2016.

Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

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