sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O passado e a história

Marc Bloch já advertira, em Apologia da História, ou, O Ofício do Historiador, que os historiadores não estudam o passado. Estudam, sim, os homens “no tempo”. No entanto, o passado, enquanto objeto e constante presença, compõe parte importante das preocupações dos historiadores. Pensar sobre o que é passado tem feito historiadores e teóricos da história observarem que convivemos com diferentes “passados”, ou diferentes visões sobre os mesmos.
No romance inglês The Go-between, de L. P. Hartley, publicado em 1953, há uma frase que se tornou emblemática de uma forma específica de enxergar o passado: “O passado é um país estrangeiro; eles fazem as coisas de forma diferente lá” (“The past is a foreign country; they do things differently there”). Nessa visão, o passado é estranho, é diferente do nosso presente, e esse gesto de marcar uma diferença entre nós (hoje) e eles (ontem) seria inaugural do pensamento histórico. Separamos uma parte da realidade, a denominamos passado, e nos dedicamos a estudá-la, partindo desse princípio de que encontraremos “lá” costumes, ideias e práticas diferentes das que vivemos hoje. Ainda nessa linha, o historiador age de certa forma como um etnógrafo que desembarca em uma sociedade distinta da sua.
Tal definição de passado depende também de aceitarmos o passado cronológico, isto é, uma instância no tempo separada de nosso presente. A definição de presente é controversa, portanto o que entendemos como passado depende do contexto (pode ser algo que ocorreu há 500 ou a 5 anos, dependendo do ponto no tempo no qual marcamos a ruptura entre um e outro). O passado enquanto unidade cronológica se sustenta, ainda, em uma particular definição de tempo. Compreendemos o tempo, nesse caso, como homogêneo (formado por unidades idênticas entre si), discreto (cada unidade pode ser entendida como um ponto em uma linha), e, especialmente, linear, direcional (fluindo sem interrupção entre passado, presente e futuro) e absoluto (transcorrendo independentemente de quem o observa). O estudo do passado, nesse caso, coloca ao historiador a questão da distância histórica, de seu afastamento em relação a seu objeto de estudo. Tal distância não é apenas temporal (isto é, não se trata somente do tempo transcorrido entre a época do historiador e a época que este estuda). Pode ser também uma distância afetiva (marcando um distanciamento pessoal do historiador em relação a seu tema), ou discursiva. Esta última remete à distância que o historiador estabelece como observador; a micro história, por exemplo, cerra seu campo de visão aproximando bastante o observador de seus sujeitos de pesquisa.
A relação entre o passado e nosso tempo também demanda exame. Podemos compreender o passado como completo, como concebia o historicismo, entendendo-o como um conjunto de épocas em sucessão, cada qual fechada, concluída. Ou podemos pensar o passado como camadas sobrepostas ao presente (como em Braudel), camadas que convivem com nosso tempo, interagem com ele, mantendo-se vivas em nossa realidade.
Nesse último caso, convivemos com um passado presente, vivo em nosso tempo. A música do século XVIII que ainda escutamos, por exemplo, as heranças materiais legadas por outras épocas, o patrimônio histórico. Mais significativo ainda para o historiador são as formas por meio das quais o passado pode aparecer para o presente: como motivo de admiração, de inspiração, ou de ansiedade (como algo a nos assombrar), ou como objeto de fascinação, de interesse intelectual ou estético.
O filme franco-italiano-iraniano O passado (2013), do diretor iraniano Asghar Farhadi, trabalha a dimensão da presença por vezes assombrosa do passado no presente.


Assim, o passado pode ser compreendido e sentido de várias formas. Uma história como a latino-americana, rica em tradições culturais, sociais e políticas, mas também em traumas, pode ter sua compreensão enriquecida se pensarmos em como nossas sociedades hoje, na América Latina, concebem o passado, e o que este desperta em nós atualmente.

Indicações de leitura:

O livro de PAUL, Herman. Key Issues in Historical Theory. Nova Iorque e Londres: Routledge, 2015, traz resumo das concepções de passado expostas em nosso post. A obra de SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo, Companhia das Letras; Belo Horizonte, MG Editora da UFMG, 2007 contém uma reflexão muito rica sobre a memória e o passado na história latino-americana.

Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

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