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Uma história visual do colonialismo em África

 

Nas últimas décadas, diversos historiadores e historiadoras, sobretudo amparados em diálogos com os estudos pós-coloniais e os estudos culturais, têm investigado a multiplicidade de discursos que contribuíram para a legitimação pública das práticas políticas coloniais ao longo do século XIX e na primeira metade do século XX. Esse momento foi marcado por uma reestruturação do colonialismo europeu no continente africano, sobretudo a partir da Conferência de Berlim, realizada entre 1884 e 1885, e que oficializou a “roedura” da África entre representantes das potências europeias. Nesse contexto, verifica-se uma ampla utilização e circulação de representações imagéticas - como, por exemplo, álbuns fotográficos, gravuras e imagens artísticas, charges e caricaturas, cartões postais – voltados à construção de discursos sobre o continente africano, suas culturas e sociedades, frequentemente ancoradas em posicionamentos etnocêntricos, colonialistas e racistas.

De acordo com o teórico cultural Homi Bhabha (2013), muitos desses discursos gestados pelos articuladores dos colonialismos europeus no século XIX estavam voltados a uma estratégia principal: a produção de estereótipos raciais, constantemente repetidos e reiterados em imagens e textos que elaboravam formas de classificação e hierarquização das diferentes “raças”. Esses estereótipos relacionavam as populações africanas à ideia de povos “primitivos” ou “selvagens” em contraposição aos europeus, idealizados como símbolos de civilização e progresso. Adicionalmente, o continente africano era descrito e representado como repleto de oportunidades econômicas para a exploração de terras e recursos naturais, recorrendo-se, com certa frequência, ao “mito das terras vazias” (expressão de Anne McClintock): a ideia de que os territórios coloniais estariam fundamentalmente vazios de gentes, aguardando a chegada do colonizador europeu.

Naquele contexto, a fotografia foi amplamente utilizada como ferramenta para legitimar a expansão colonial no continente africano. Sua circulação pública, facilitada pelo desenvolvimento de novas técnicas de impressão em massa na segunda metade do século XIX, prestou-se, em diversos momentos, à elaboração de uma “cartografia visual” das sociedades e territórios almejados pela exploração colonial. Destarte, as fotografias produzidas nas “situações coloniais” (BALANDIER, 1993) tem sido objeto de estudo e problematização crítica da historiografia recente, especialmente para pensar uma história cultural e política da visualidade colonial.

Em seu livro À sombra do colonialismo: fotografia, circulação e projeto colonial português (1930-1951), publicado em 2021 e fruto de sua pesquisa em mestrado realizado na Universidade Federal Fluminense, o historiador Marcus Vinicius de Oliveira analisou uma série de imagens produzidas por fotógrafos portugueses durante o Estado Novo (1930-1940). Como se sabe, uma das primeiras medidas adotadas pelo regime salazarista em Portugal foi a aprovação do Ato Colonial em 1930, voltado à reestruturação do colonialismo português na África, somado a diversas medidas (como a criação de livros comemorativos e exposições coloniais) dedicadas à promoção do projeto colonialista lusitano.

Dentre as fotografias analisadas pelo autor, constam as imagens registradas na Exposição Colonial de 1934, realizada na cidade do Porto, e publicadas em um álbum comemorativo, as quais possuíam “alguns objetivos fundamentais para o regime, como a monumentalização do seu ‘esforço colonial’: a construção de uma narrativa visual da presença portuguesa em territórios coloniais, capaz de educar os metropolitanos dentro dos princípios do império colonial” (OLIVEIRA, 2021, p. 69). Outras imagens analisadas pelo pesquisador incluem as fotografias “científicas”, realizadas por missões antropológicas portuguesas na África, principalmente na Guiné.

Fotografia da Exposição Colonial de 1934, representando as campanhas sanitárias promovidas na África (OLIVEIRA, 2021, p. 53)


A visualidade do colonialismo alemão, que perdurou sobretudo entre 1885 e 1914, também tem sido investigado recentemente pela historiografia. A historiadora Naiara Krachenski, no livro Dominar, colonizar, classificar: colonialismo alemão, fotografia e racismo (1884-1943), que foi publicado em 2022, resultado de sua pesquisa de doutoramento realizada na Universidade Federal do Paraná, aborda um conjunto de fotografias produzidas pela Sociedade Colonial Alemã (Deutsche Kolonialgesellschaft - DKG), uma organização de caráter majoritariamente privado, e criada em 1887 com o objetivo de promover a colonização alemã na África.

A partir do acervo fotográfico produzida pela instituição, Krachenski analisou três conjuntos de imagens: 1) as fotografias de paisagens africanas, “seja ela natural, geográfica ou a paisagem colonial já com as marcas da colonização europeia” (KRACHENSKI, 2022, p. 19); 2) as fotografias que representam atividades dos colonos alemães na África, como, por exemplo, as fotografias de temática militar (como das tropas coloniais alemãs, as Schutztruppe) ou as imagens de famílias alemãs que conjugavam uma ideia de “domesticação” do continente africano; 3) as fotografias que retratam africanos, como por exemplo homens e mulheres Nama e Herero (na atual Namíbia, na época parte da África de Sudoeste Alemã). Nessas imagens se observa claramente o peso dos discursos raciais e do chamado “racismo científico”, com o objetivo de classificar e categorizar as populações negras, frequentemente negando-lhe individualidades e enfatizando estereótipos raciais.

Fotografia de um casamento de colonos alemães na África de Sudoeste Alemã (atual Namíbia). Imagens como essa reforçavam a ideia da domesticação dos territórios coloniais. (KRACHENSKI, 2022, p. 101)

 

Trabalhadores domésticos na África Oriental Alemã. Muitas das fotografias produzidas pela Sociedade Colonial Alemã reforçavam a ideia de africanos enquanto mão de obra a ser explorada a serviço do europeu (KRACHENSKI, 2022, p. 115)

 

Estes e outros estudos recentes reforçam as possibilidades de investigar e problematizar, em uma perspectiva histórica, processos políticos a partir da análise de imagens, ao exemplo das imagens fotográficas. Além disso, no caso do colonialismo europeu no continente africano, essas análises permitem desnaturalizar e questionar os discursos racistas que estruturavam as práticas políticas coloniais.

 

Referências e sugestões de leitura:

BALANDIER, Georges. A noção de situação colonial. Cadernos de Campo (USP), v. 3, n. 3, 1993, pp. 107-131.

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 2013.

KRACHENSKI, Naiara. Dominar, colonizar, classificar: colonialismo alemão, fotografia e racismo (1884-1943). São Paulo: Dialética, 2022.

MCCLINTOCK, Anne. Couro imperial: raça, gênero e sexualidade no embate colonial. Campinas: UNICAMP, 2010.

OLIVEIRA, Marcus Vinicius. À sombra do colonialismo: fotografia, circulação e o projeto colonial português (1930-1951). São Paulo: Letra & Voz, 2021.

 

Evander Ruthieri Saturno da Silva, professor de História da África da UNILA

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