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Após as bombas, haverá um 13? Desabafos de uma venezuelana migrante

     


    Hoje não tem clareza na minha sala. Deixei fora a luz de um dia ensolarado para me recolher nos cinzas de um dia de ressaca existencial. O corpo doe, o peito interrompe o ar e um zumbido de múltiplas vozes me atordoa. Y talvez nessa densa névoa, carregada de ruido e de emoções sem nome, as palavras que não enxergo aconteçam e me permitam esboçar o andaime que organize o turbilhão de sentimentos, reflexões, pulsões e memórias que me atinge após as notícias que recebi do meu país assim que acordei ontem, bem cedo pela manhã.

Eram às 06h quando meu telefone ligou e começaram a chegar centenas de mensagens. No grupo da minha família paterna, as primeiras mensagens foram às 02 horas e pouco da madrugada. Nelas, transparecia a surpresa. Falavam de sons de foguetes, de trovões, de impactos de bomba, de queda de luz. Ninguém entendia nada, e eu menos. Alguns falavam em golpe de Estado, outros em atentado e, aos poucos, começaram a falar em bombardeio e invasão. Eu lia e, no percurso, a surpresa virava incredulidade e a incredulidade virava espanto. Entre às 2h da madrugada e às 6h da manhã (hora em que peguei o telefone), as mensagens ali contidas foram mostrando os contornos de realidade de um cenário que não deixava de parecer um videogame.

“Caraca! Os gringos finalmente se atreveram!”. Essa foi das primeiras coisas que pensei após ler as mensagens do grupo da família, do meu pai e do Ángel, o pai do meu filho, que avisava para mim e para Aquiles que o celular dele estava quase sem bateria e que, como não tinha luz na cidade, ia ficar desconectado. Nesse momento tive quase o mesmo sentimento de estupefação que vivenciei em 28 de julho de 2024, quando Elvis Amoroso, em representação do Conselho Nacional Eleitoral e com muitas horas de atraso, anunciou o primeiro boletim com os resultados das eleições presidenciais, dando como ganhador a Nicolás Maduro.

Lembro que, no decorrer desse dia, todas as informações que me chegavam apontavam para o triunfo do candidato opositor, Edmundo González e, diante desse cenário, muitos pensávamos que a razão da demora no anúncio dos resultados tinha a ver com possíveis negociações entre o governo Maduro e a oposição de direita, no intuito de diminuir os custos políticos na transmissão do mandato. Mas não foi isso o que aconteceu. Diante da derrota eleitoral (comprovada pelas atas de inúmeras mesas eleitorais de todo o país que foram preservadas por dirigentes políticos de diversas tendências, membros e testemunhas de mesa), o governo de Maduro decidiu dar um passo extremo: fraudou o processo eleitoral com o anúncio de uns resultados que, até hoje, não têm sido sustentados nem comprovados, pois não existem atas eleitorais que deem fé dos resultados oficiais. Lembro que no momento do anúncio de Amoroso eu não conseguia acreditar naquilo e só pensava: “Esses caras se atreveram a dar esse passo!”. A partir dali, uma onda repressiva e de perseguição social e política desdobrou-se contra a população venezuelana, sobretudo contra os candidatos, dirigentes partidários, lideranças locais e testemunhas de mesa, que possuíam cópias das atas eleitorais como prova. Nesse período, nas ruas de Caracas e de outras cidades, os militares paravam as pessoas, pegavam os celulares delas e revisavam as mensagens e publicações nas redes sociais. Se por acaso encontravam a publicação de alguma informação que fizesse denúncia da fraude e comprometesse a imagem pública do governo (sobretudo a internacional), essa pessoa era presa. Jovens e adolescentes, especialmente dos setores populares, foram presos e acusados de “traição à pátria”, “conspiração internacional” ou “crime de ódio”, só pelo fato de denunciar a fraude eleitoral em grupos de whatsapp. Muitos desses jovens, ainda hoje, continuam presos em condições infra-humanas sem sequer ter direito legítimo à defesa, enquanto as suas mães lutam incansavelmente clamando por justiça. A partir desse momento abriu-se mais uma fenda trágica no meu país, com cargas de violência, repressão e desilusões que, de alguma ou outra forma, favoreceram o clima e o cenário que, infelizmente, hoje estamos vivendo.

Quem me conhece sabe que minha posição política não se inscreve dentro das opções reduzidas da polarização no meu país e, portanto, não compactua nem se solidariza com as políticas autoritárias e antioperárias do governo de Maduro nem com as saídas neoliberais e antidemocráticas da oposição da direita venezuelana. Tudo contrário, meus posicionamentos, leituras, silêncios e escolhas estão comprometidos com a construção de tecidos sociais e políticos profundamente democráticos e opostos a toda forma de opressão, discriminação e exploração, e isso me leva, tentando ser coerente comigo mesma, a denunciar qualquer medida ou ação que violente estes princípios, venham elas de onde venham. É por isso que, assim como me indignei, repudiei e me manifestei contra a fraude eleitoral e a onda repressiva desatada a partir de 28 de julho de 2024 no meu país, mesmo tendo uma posição política distante da opção eleitoral da direita, hoje me indigno, repúdio e me manifesto contra a invasão dos Estados Unidos ao território venezuelano, mesmo tendo uma posição oposta por esquerda à do governo Maduro.

Voltando para ontem, eu nunca imaginei que as ameaças de Trump acabariam se concretizando num bombardeio executado sobre pontos estratégicos da capital e de outras cidades do meu país, numa operação militar cirurgicamente planejada. Meu país sendo bombardeado por uma potência estrangeira que, sem pudor nenhum, destruiu infraestrutura, cobrou vidas, violentou abertamente a nossa soberania territorial! A notícia me surpreendia, me espantava, me afligia.

Tentei ligar para meu pai, torcendo para que seu celular estivesse com sinal. Por sorte, tinha! Conversamos durante vários minutos, numa conversa construída entre minha escuta angustiada e cuidadosa e os fios da história que ele me contava sobre o que vivenciara na madrugada. “Foi como uma grande explosão, filha, mas muito mais profunda, repetida, longa e grave. Eu senti até a onda expansiva”, contava-me ele, tentando descrever os detalhes de uma sensação inédita. Logo após o relato, falou-me da gravidade da situação, da revitalização da doutrina Monroe, das implicações econômicas, sociais, políticas e geopolíticas da invasão militar dos Estados Unidos sobre o território venezuelano, e do “que fazer” daqui para frente. Perguntou-me por Aquiles, que estava do meu lado, atento, ouvindo a conversa e, assim que o cumprimentou, falou para nós dois: “Agora é o momento de deixar as diferenças políticas e nos unirmos para defender a soberania da ‘pátria’”. Eu, nesse momento, e para além do jeito épico com que ele costuma expressar seus posicionamentos políticos, concordei.

Ainda não conseguia assimilar o que aconteceu na madrugada de ontem. Desde a época das Independências na América Latina no século XIX, nenhum país da América do Sul fora invadido e atacado por forças militares estrangeiras. O bombardeio constituía uma clara determinação dos Estados Unidos de recolonizar e se apropriar do nosso território, nossos recursos, nossa administração e nossas vidas para garantir seus interesses, o que representa um grave cenário não apenas para o país, mas para a região.

Venezuela é um país cuja historiografia narra gestas de independência que confrontaram e derrotaram domínios imperiais, tanto espanhóis quanto estadunidenses. Na sua história republicana, na Venezuela não houve ataques nem intervenções militares que ameaçaram ou puseram em xeque a soberania nacional. A medida intervencionista do governo Trump contra o território venezuelano eleva e acentua mais ainda a cruzada recolonizadora sobre os países subalternos no mundo, violentando aberta e descaradamente o direito internacional.

No século XX, no Panama, em 1989, os Estados Unidos executaram uma invasão militar, chamada de “Operação Causa Justa”, que resultou no sequestro de Manuel Noriega, presidente desse país na época, que foi acusado de narcotraficante pelo governo de George Bush. Tratou-se de uma operação que pretendia, no fundo, restituir o controle estratégico dos Estados Unidos sobre o canal de Panama e que, por sinal, tem grandes semelhanças com a operação militar que acaba de ocorrer na Venezuela (um colega venezuelano chegou até falar, a modo de ironia, que tinha chegado a nossa hora panamenha).

Escrevi uma mensagem no meu status de whatsapp manifestando meu repúdio ao ataque militar dos Estados Unidos contra a soberania venezuelana. Vi os status e stories de meus contatos nas redes sociais. Alguns comemoravam, outros defendiam Maduro e o governo, outros se posicionavam contra a invasão marcando distância com o governo. Com alguns concordei, com outros não, alguns inspiraram reflexões, outros raiva e outros, também, simpatia. Reações foram e vieram. Feridas antigas se reanimaram e respirei profundo para não reagir, confiante em que, do outro lado da minha tela, outra pessoa também respirava. Em silêncio, eu agradecia. Acho que, após anos de fratura do tecido afetivo, social e político produto da polarização no meu país, muitos de nós temos aprendido a lidar com algumas emoções e tensionamentos, mas nem sempre conseguimos.

Passaram-se poucos minutos após eu publicar o texto no status, quando uma parente próxima, muito próxima mesmo, respondeu-me com a seguinte mensagem: “Graças a esse bombardeio, nós agora somos livres da praga que condenou nosso país à miséria durante 26 anos. Eu espero que você possa voltar ao país do qual você teve que partir. Liberdade!”. Fiquei mexida e aflita, não tanto pelo conteúdo da mensagem, que já era violento, mas pelo gesto mesmo de ela tê-lo mandado. Se alguma coisa eu venho assumindo como disposição ético-político-afetiva nestes últimos anos, é a minha determinação de cuidar, nessas conjunturas e sempre que possível, os meus afetos. Eu venho apreendendo a respirar profundo, muito profundo, e a direcionar meu olhar para a potência dos meus vínculos, como uma forma de protegê-los diante da voracidade tanática de uma polarização que não se cansa de quebrar-nos.

À aflição pelo gesto da mensagem da minha parente, juntavam-se vários sentimentos: angústia pela incerteza perante o que viria depois; indignação e preocupação pelo ataque dos Estados Unidos ao meu país; medo pelas consequências, sobretudo no que diz respeito às pessoas que estão lá na Venezuela; e raiva diante de alguns posicionamentos (porque a gente sente raiva, embora respire). Por um lado, chocava-me o sentimento de alegria comemorativa de alguns que viram na invasão dos Estados Unidos a esperança para a restituição da liberdade e da ordem democrática no país; por outro, revoltava-me a arrogância dos que consideram aquele posicionamento comemorativo apenas uma expressão de ignorância, sem entender todo o acúmulo de frustrações, maltrato, desilusões e desespero que há por trás e que se potencializou ainda mais com a fraude eleitoral e a posterior onda repressiva do governo de Maduro para sustentar uma decisão política anticonstitucional, ilegítima, impopular e arriscada.

Enquanto eu procurava informação, respondia mensagens de solidariedade e deixava sem responder aquelas que só demandavam satisfação de curiosidade – pois nesse momento senti que houve pouca empatia nesse tipo de mensagens e isso me gerou raiva –, interpelei-me a mim mesma sobre se devia responder ou não a mensagem da minha parente. Respirei, respirei muito para não responder e deixar as coisas se acalmarem. No entanto, achei que o cuidado com o outro é uma disposição que deve ser recíproca e ela, levada pelo turbilhão de emoções que atingem à gente em conjunturas como a de ontem, não cuidou nosso vínculo afetivo. Então decidi responder, apenas chamando a atenção sobre esse aspecto, e isso aliviou parte da minha angústia.

Aproximadamente às 7h30 da manhã começaram a chegar boatos de que Maduro fora sequestrado durante o bombardeio. Não quis dar crédito até não ter alguma informação confiável, mas o fato de não ter sido ele quem se pronunciou em nome do governo dava elementos para pensar que, com efeito, ele fora sequestrado. Pouco depois, as declarações de Delcy Rodríguez, que até então era a vice-presidenta da República, confirmaram as suspeitas. Ela exigia fé de vida do presidente Maduro e da primeira-dama Cília Flores. A partir desse momento, aliviou-se um pouco minha angústia, não porque eu estivesse a favor desse sequestro (eu jamais poderia concordar com o fato de um presidente ser pego e julgado arbitrariamente por um governo estrangeiro, o que representa uma clara violação da nossa soberania e de todo o direito internacional), mas pela “tranquilidade” de saber que o objetivo daquele bombardeio foi entrar no território nacional “apenas” para pegar Maduro e não para executar uma intervenção militar territorial aberta e de longo prazo, com consequências ainda mais estarrecedoras.

A operação militar estadunidense foi simples e suspeitosamente impecável! A operação foi rápida, não houve uma grande resistência militar, não houve grandes nem significativos danos materiais e humanos (no entanto, hoje recebi notícias que informavam a destruição de prédios residenciais e a morte de aproximadamente 80 pessoas, entre militares e civis) e conseguiram seu objetivo: sequestrar Maduro. Até esse momento, para os que acreditavam na recuperação da liberdade no país graças ao “apoio” dos Estados Unidos, a operação calçava perfeitamente na narrativa dos Estados Unidos como salvador das liberdades democráticas: eles não pretendem invadir apropriar dos nossos recursos, do nosso petróleo, do nosso minério, da nossa terra. Sem vergonha nenhuma, invocou o espectro (nem tão espectro) da doutrina Monroe e o trouxe de volta, visível e corporificado, na cena geopolítica atual: “Nós seremos os administradores da Venezuela”, “com a China o assunto é comercial e nós teremos muito petróleo [venezuelano] para vender para eles”, e assim por diante. Ele falava do nosso território e dos nossos recursos como se fossem dele(s), como se estivesse recuperando algo que pertence a ele(s). Assim de nefasto, sem dissimulo. Diante da pergunta sobre a realização de eleições na Venezuela, respondeu que por enquanto a administração do país estaria sob seu controle, com a colaboração de Delcy Rodríguez, a vice-presidenta do governo Maduro, e que, até eles não conseguirem garantir a estabilidade no país, não era prudente chamar a novas eleições. Sem pudor nenhum, humilhou e deu um pé na bunda a Maria Corina Machado e cinicamente expus a Delcy Rodriguez como traidora. Eu escutava as declarações de Trump, impávida, atenta e com um sentimento de luto, de perda e de derrota tão forte como o que senti naquele 11 de abril de 2002 quando os líderes do golpe de Estado contra o governo de Chávez anunciaram, sob a desculpa do vazio de poder, a instauração de um governo de fato.

Enquanto Trump se pronunciava, senti que já era, que o que vem daqui para a frente é um período, sob a colaboração coagida do próprio governo de Maduro (mesmo sem ele), de transição para um regime de colonização aberta que nos levará de volta para os tempos da colonização espanhola, jogando fora toda uma trajetória de lutas e de conquistas históricas que tornaram possível nós sermos, hoje, países soberanos (com todos os ribetes neocoloniais que essa soberania tem, sem dúvida). Nesse momento juntaram-se, na vivência de um mesmo sentimento de luto e de vazio pessimista, a memória do golpe de Estado de 11 de abril de 2002 e o que aconteceu ontem. E isso me fez lembrar que, dois dias depois daquele golpe, em 13 de abril de 2002, contra todo e qualquer prognóstico e antecedente historiográfico, a população venezuelana desceu massivamente dos morros para defender, com unhas, dentes, garganta e corpo, a ordem constitucional, derrotando um golpe de Estado que, até esse momento, parecia irrefreável. Então confrontei meu pessimismo, refleti sobre o assunto e imaginei a possibilidade de um cenário parecido, o que me levou a reconhecer o fato de que, diferentemente do ano 2002, em que o governo de Chávez gozava de um profundo apoio popular, o governo de Maduro não conta nem com a legitimidade nem com o respaldo de um povo que, nos últimos anos, tem sido maltratado, reprimido, humilhado e defraudado. Com certeza, o cenário não é o mesmo, e peca de ingênuo quem se ilude e imagina que desta vez o povo irredento da Venezuela sairá massivamente às ruas para defender a soberania nacional. E enquanto eu escrevo isto, uma dor profunda atinge meu peito, pois o cenário em que estamos hoje exigiria a defesa irrestrita e massiva do nosso território e não comemorações.

Pouco depois das declarações de Trump, Delcy Rodríguez, num tom suspeitosamente moderado, fez um pronunciamento ambíguo em resposta. Ela falou na defesa incondicional da pátria, mas na “paciência estratégica” do povo venezuelano. Reiterou o reconhecimento de Maduro como presidente legítimo da Venezuela e exigiu, mais uma vez, a liberação dele e de Cília Flores. Falou em repúdio à intervenção militar estadunidense, mas também da sua disposição a colaborar para restabelecer as relações bilaterais entre os dois países. Fechou seu pronunciamento entregando ao Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) uma pasta com um pedido de decreto de “comoção exterior”, se possível para ser aprovado esse mesmo dia, de forma a “garantir” a continuidade da ordem constitucional. Sem surpresas, o decreto foi aprovado e emitido esse mesmo dia, 03 de janeiro de 2026, na Gazeta Oficial Extraordinária N° 6.954, com a assinatura do presidente da República Nicolás Maduro Moros. Sim, com a assinatura dele que, na madrugada desse mesmo dia, fora sequestrado.

Perante a situação excecional ocasionada pelo sequestro de Maduro, “não prevista literalmente na Constituição da República Bolivariana de Venezuela”, a Sala Constitucional do TSJ ordenou, diante da “impossibilidade material e temporária” do presidente da República para exercer suas funções, e como uma “medida de proteção para garantir a continuidade administrativa do Estado”, o seguinte:

Que a cidadã Delcy Eloína Rodríguez Gómez, Vice-presidenta Executiva da República, assuma e exerça em condição de encarregada todas as atribuições, deveres e faculdades inerentes ao cargo de Presidente da República Bolivariana de Venezuela, aos fins de garantir a continuidade administrativa e a defesa integral da nação.



Assim, definindo como “temporal” a impossibilidade de exercício de funções presidenciais de Maduro, o TSJ evitou aplicar o prescrito no artigo 233 da CRBV para os casos de “impossibilidade absoluta”, o qual estabelece que:


se a ausência absoluta do Presidente ou da Presidenta da República se produz durante os primeiros quatro anos do período constitucional, se procederá a uma nova eleição universal, direta e secreta dentro dos trinta dias consecutivos seguintes. Enquanto se elege e toma posse o novo Presidente ou a nova Presidenta, o Vice-presidente Executivo ou a Vice-presidenta Executiva será o encargado da Presidência da República.



Ao invés disso, o caráter “temporário” na impossibilidade do exercício de funções de Maduro na Presidência permitiu ao TSJ aplicar o artigo 234 que estabelece que:

As ausências temporárias do Presidente ou da Presidenta da República serão substituídas pelo Vice-Presidente Executivo por até 90 dias, prorrogáveis por decisão da Assembleia Nacional por mais 90 dias. Se uma ausência temporária se prolonga por mais de noventa dias consecutivos, a Assembleia Nacional decidirá por maioria dos seus membros se deve ser considerada como uma falta absoluta.



Dessa forma, a interpretação, e a subsequente decisão do TSJ, alinhou-se ao anunciado por Trump, como parte de uma política transicional que exige muito mais do que trinta dias para avaliar e preparar as condições para a realização de novas eleições no marco do regime de recolonização que os Estados Unidos pretendem impor no meu país. Assim, sem mais declarações nem pronunciamentos, com um panorama menos incerto (embora desolador), fechou o dia de ontem e eu, como tantos venezuelanos, não consegui dormir direto.

Hoje tem sido um dia cinza para mim. Um cinza necessário, de recolhimento e de silêncio. Organizo os destroços da avalanche de ontem nestas páginas abertas, como aberto é o cenário no meu país. Assim como ontem, hoje houve protestos e manifestações – comemorativas o em repúdio à intervenção militar gringa – em diferentes cantos do mundo. Na Venezuela, o governo convocou à população a realizar protestos em todo o país contra a intervenção estrangeira dos Estados Unidos, mesmo deixando clara a posição de colaboração com os Estados Unidos. Não houve manifestações multitudinárias. Segundo comentários de algumas amizades que estão lá, nas calçadas, no metrô, nas lojas e nos ônibus, as pessoas andam como zumbis, em silêncio, “neutras”, pasmas, sem palavras, engolindo para dentro as incertezas e os medos.

Hoje Delcy Rodríguez tomou posse como Presidenta interina da República Bolivariana de Venezuela e, como primeira medida, convocou um conselho de ministros para declarar, ao país e ao mundo, a sua disposição a colaborar com o governo de Trump.

Agora há pouco o ministro da Defesa, David Padrino López, vestido com uniforme militar e junto com vários funcionários do alto mando militar, fez um pronunciamento manifestando o apoio irrestrito, por parte da Força Armada nacional, ao mandato de Delcy Rodríguez

Encontro um oásis de sensatez no grupo de whatsapp dos professores de Sociologia da UCV. De diversas tendências políticas, muitas delas até antagônicas, nas trocas de ontem e de hoje no grupo têm prevalecido o diálogo e a leitura franca diante da intervenção militar dos Estados Unidos contra meu país. Alguns deles, inclusive, são lideranças importantes de oposição ao governo, e em várias ocasiões têm assumido posições de denúncia e de oposição pública perante as políticas governamentais, especialmente as relativas à repressão política e à catástrofe salarial dos professores universitários no país. Leituras históricas, teóricas, analíticas e vivenciais têm se somado ao concerto dialógico desse espaço que, em outras ocasiões, fora cenário de muitas brigas. A modo de exemplo, gostaria de compartilhar aqui parte da reflexão que faz um professor colega que, por sinal, é dirigente da oposição de direita na Venezuela:


Ver as bombas caírem sobre tua própria terra é uma experiência que quebra a alma de uma forma indescritível. É uma dor que transcende qualquer bandeira partidária e que deixa em evidência que, para além das profundas diferenças políticas, existe um tecido comum, feito de ruas, lembranças e rostos.

Quando uma força militar estrangeira ataca, o conflito político interno se torna repentinamente pequeno, diante da magnitude do poder de fogo. O fato de ser opositor político não te exime do medo, nem muito menos do impacto potencial da metralha. A explosão de uma bomba ou de um míssil de cruzeiro não distingue entre oficialistas e opositores.

É profundamente doloroso sentir-se preso entre um governo que não te representa e uma força externa que diz "liberar-te" por meio do uso de sua superioridade militar e tecnológica. É uma sensação difícil de descrever, ter que assumir que teu lar não senão uma peça num tabuleiro de xadrez alheio.

Ver espaços da própria pátria consumidos pelo fogo estrangeiro, e a pessoas que, embora não sejam teus amigos ou teus familiares, são teus compatriotas, mortas pelas balas de um exército de outro país, gera uma raiva impotente. Você repara que, embora desejes uma mudança política com todas tuas forças, jamais iria querer que o preço dessa mudança fossem o pó e a cinza de tua pátria.

Hoje eu não consegui falar com o meu pai. Na verdade, ele deixou uma nota de voz de 15 minutos que eu, até agora, evitei escutar. Nesses momentos em que as feridas e os monstros brotam na pele, qualquer gesto, por mínimo que ele seja, é suficiente para as nossas raivas e demônios mais profundos transbordarem, e é por isso que, por enquanto, prefiro deixar para um outro momento a escuta dessa mensagem. Após anos de rupturas e de quebras dos tecidos afetivos e sociais por causa da crise no meu país, eu apreendi que devo administrar com cuidado e se possível o turbilhão emocional. Eu sei que meu pai acha, apesar das declarações de Delcy Rodríguez, que o governo terá um posicionamento de defesa irrestrita à soberania do país, assim como a minha parente acha que com a invasão e o sequestro de Maduro por parte dos Estados Unidos, se recuperaria a liberdade no país. Enquanto isso, as peças no xadrez continuam abrindo o jogo para um processo de aprofundamento das restrições democráticas e de recolonização doloroso, profundamente doloroso, para a história do meu país.

Eu, por enquanto, tento me ancorar numa lembrança daquele espantoso 11 de abril de 2002 quando, escondidas na casa da minha tia Chela, com o corpo tremendo e o espírito em alerto, uma amiga contou o que dissera para ela um xamã indígena: “vão tentar derrubar a democracia com um golpe de Estado, mas dos contornos virá uma força que o derrotará”. E em 13 de abril, contra toda previsão, a multidão dos morros passou por cima de lideranças e de medos e nos salvou de um regime de terror.

Hoje é 04 de janeiro de 26, e o dia acaba cinzento.


Lívia Esmeralda Vargas-González, Venezuela migrante e mãe de Aquiles León. Doutora em História (UFOP) e Doutora em Filosofia (UFOP). Professora Visitante na área de História na UNILA.



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