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Museu da Imprensa de Foz do Iguaçu: possibilidades de pesquisa

https://museudaimprensafoz.com.br/

No dia 26 de novembro de 2025, em um evento realizado no Mercado Público Barrageiro, a cidade de Foz do Iguaçu viu o lançamento do Museu da Imprensa, um acervo online que contém, segundo os organizadores, 21 periódicos iguaçuenses digitalizados e com acesso aberto à comunidade. A iniciativa, realizada pela Associação Guatá - Cultura em Movimento, é um passo importante na preservação e na popularização de documentos históricos que podem nos permitir entender melhor a história da própria cidade e da tríplice fronteira. O acervo contempla produções que datam de 1953 a 2018, e abre caminho para diversas possibilidades de estudo destes materiais. A imprensa é um tipo de fonte riquíssima para os historiadores, pois revela, muitas vezes, elementos das sociedades que vinham ao público através dos jornais e das revistas. Mais do que informar, a imprensa forma opiniões, reforça narrativas e preconceitos e transmite ideias. Quem nunca escutou que veículo de comunicação A ou B é partidário de candidato X ou Y? Isso ocorre porque a imprensa não é, de forma alguma, neutra em sua atuação, como bem nos coloca José d'Assunção Barros: 

De alto a baixo, os jornais são atravessados por posicionamentos em relação à realidade social, os quais se conectam visceralmente a certos interesses políticos, sociais e econômicos [...] É exatamente porque os jornais são instrumentos e campos de lutas, ocultando interesses políticos e sociais que podem ser desvelados através da análise do seu discurso, que eles se tornam particularmente interessantes para os historiadores que pretendem abordá-los ou como objetos de estudo, ou como fontes históricas para o estudo de temáticas diversas (BARROS, 2022, p. 592). 

Pode-se considerar também a imprensa como um veículo que possui uma proximidade maior com seu público, principalmente no caso de periódicos que buscam atender a uma população relativamente pequena, em comparação com jornais de alcance nacional ou que reportam os fatos de uma grande metrópole, por exemplo. No caso dos noticiários, o historiador estadunidense Robert Darnton (1990) aponta que os mesmos são escritos sobre e para seu público, em um circuito fechado que utiliza códigos próprios e específicos. Ou seja, um jornal de caráter local de Foz do Iguaçu dificilmente fará sentido ou despertará o mesmo interesse para um leitor comum que vive em Curitiba, por exemplo, pois aquele periódico escreve sobre a população daquela cidade e para ser lido por esta. 
Nesse sentido, surgem diversas possibilidades de pesquisa que utilizem como fonte os periódicos disponíveis no acervo do Museu da Imprensa de Foz. As perguntas que pesquisadores poderão fazer para essas fontes variam, e este texto não tem por objetivo apenas indicar potenciais temas de pesquisa que possam ser explorados pela comunidade acadêmica, mas também mostrar, para o público em geral, como Foz do Iguaçu possui um passado rico, mas pouco explorado. 
De acordo com site do Museu da Imprensa, o jornal mais antigo disponível no acervo é "A Notícia", lançado em outubro de 1953, com a direção de João Lobato Machado e com a gerência de Inácio Sottomaior. O periódico circulou até 1959 e possui um total de 25 edições digitalizadas no site do Museu da Imprensa. A Notícia é uma fonte interessantíssima, pois retrata uma Foz do Iguaçu anterior à construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu e até mesmo à inauguração da Ponte Internacional da Amizade.

Figura 1: Print Screen da primeira página da primeira edição do jornal.

O periódico trazia notícias locais, nacionais e até internacionais, inclusive com matérias a respeito da política paraguaia e argentina sendo comumente publicadas em suas páginas. Faziam-se presentes também artigos de opinião, curiosidades, notícias esportivas, notas sociais locais, divulgações de concursos e anúncios diversos de comerciantes da região. 
Apesar das poucas edições disponíveis, "A Notícia" nos fornece inúmeras questões dignas de pesquisa. Uma delas poderia investigar como o jornal retratou as visitas do ditador paraguaio Alfredo Stroessner (1912-2006) à Foz do Iguaçu. Em uma das edições, por exemplo, o jornal comentou a chegada do general Stroessner e do presidente brasileiro Juscelino Kubitschek (1902-1976) à cidade em 1956 para a cerimônia que iniciou as obras da Ponte da Amizade:

Com a presença dos Chefes de Estado do Brasil e Paraguai, além de grande número de altas autoridades de ambos os países e dos Estados Unidos, teve lugar no dia 6 do corrente o lançamento da pedra fundamental da ponte que uniram a nação brasileira e a paraguaia (A Notícia, n. 36, 31/10/1956). 

Outra publicação que pode constituir uma excelente fonte de pesquisa é O Jornal de Foz, publicado de 1970 a 1979 e com 68 edições disponíveis para consulta. O jornal foi publicado em um contexto em que as obras para a construção da Usina de Itaipu eram iniciadas, e em que Foz do Iguaçu começava a viver um grande crescimento populacional. Em um primeiro olhar nas páginas do jornal, pode-se destacar a coluna Retrospectos, da escritora Otília Schimmelpfeng, filha do primeiro prefeito, Jorge Schimmelpfeng, que contava memórias da autora em relação ao passado da cidade, e a rotina do turismo na tríplice fronteira, que já nesta época marcava sua presença nos noticiários iguaçuenses.
Figura 2: Print Screen da primeira página da primeira edição do Jornal de Foz

Outra produção disponível no acervo é o "Informativo Unicon", órgão de imprensa oficial do consórcio União de Construtoras (UNICON), responsável pela execução das obras de Itaipu. O informativo era bilíngue (possuindo versões em português e em espanhol) e tinha como público-alvo os trabalhadores das obras da usina. A obra já foi objeto de pesquisas de alguns historiadores, mas ainda possui muitas problemáticas a serem investigadas, que podem ser exploradas nas 57 edições digitalizadas presentes no acervo.
Figura 3: Print Screen da primeira página da edição 38 do Informativo Unicon

E não há como falar da história da imprensa iguaçuense sem falar do jornal "Nosso Tempo", que circulou na cidade durante as décadas de 1980 e 1990, criado pelos jornalistas Aluízio Palmar, João Adelino de Souza e Juvêncio Mazzarollo, e constituiu um marco de resistência na história de Foz. O jornal, crítico ferrenho do governo da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985), foi alvo de censuras, investigações e perseguições durante seu período de publicação, chegando a ter um dos seus fundadores, Juvêncio Mazzarollo, preso pelos militares. 
Nosso Tempo é riquíssimo em possibilidades de estudo, principalmente por retratar os inúmeros problemas sociais que Foz do Iguaçu vivia durante o período em que o periódico foi publicado. O jornal já havia tido boa parte de suas edições digitalizadas no site Nosso Tempo Digital, mas que agora estão também disponíveis no Museu da Imprensa.
Figura 4: Print Screen da capa da primeira edição do Nosso Tempo

Por último, cabe aqui citar uma produção que não faz parte do acervo do Museu da Imprensa de Foz, mas que merece igualmente a atenção dos pesquisadores. Trata-se da "Revista Painel", criada pelo jornalista João Vicente Tezza e publicada entre 1973 e 2017, constituindo uma das produções periódicas mais longevas da cidade. A revista trazia aspectos do cotidiano dos iguaçuenses, da política partidária local, de questões sociais, de atividades esportivas e culturais, além de curiosidades. A obra conta com 256 números digitalizados, que estão disponíveis no acervo do Blog de História da UNILA, podendo ser facilmente encontrados para consulta neste site. 
Encerro este texto fazendo um convite a pesquisadores e estudantes para que se debrucem sobre o acervo de periódicos que está agora disponível à população em geral. Vale lembrar que a imprensa tem grande importância na história de qualquer sociedade, e que o mesmo ocorre com a região da “Terra das Cataratas”. Cabe também destacar que há uma série de outros periódicos que deixaram de ser citados por uma questão de espaço, mas que também estão disponíveis para consulta no acervo e que são igualmente interessantes aos olhos dos historiadores, jornalistas e da comunidade em geral. Deixo abaixo, na seção de bibliografia, os links dos sites citados.

Bibliografia

BARROS, José D’Assunção. Considerações sobre a análise de jornais como fontes históricas, na sua perspectiva sincrônica e diacrônica. História Unisinos 26(3):588-604, Setembro/Dezembro 2022. 

BLOG DE HISTÓRIA DA UNILA. Disponível em https://unilahistoria.blogspot.com/p/acervo-digitalizado-da-revista-painel.html. Acesso em 03/12/2025 às 15:03. 

MUSEU DA IMPRENSA DE FOZ DO IGUAÇU. Disponível em https://museudaimprensafoz.com.br/. Acesso em 03/12/2025 às 15:01. 

NOSSO TEMPO DIGITAL. Disponível em https://www.nossotempodigital.com.br/. Acesso em 14/12/2025 às 21:03. 

Fontes 

A Notícia. Foz do Iguaçu, ano I, n. 01, 31 de outubro de 1953. Museu da Imprensa de Foz do Iguaçu. 
A Notícia. Foz do Iguaçu, ano I, n. 36, 31 de outubro de 1956. Museu da Imprensa de Foz do Iguaçu. 
Informativo Unicon. Canteiro de Obras de Itaipu, ano II, n. 38, 06 de dezembro de 1979. Museu da Imprensa de Foz do Iguaçu. 
Nosso Tempo. Foz do Iguaçu, ano I, n. 01, 10 de dezembro de 1980. Museu da Imprensa de Foz do Iguaçu. 
O Jornal de Foz. Foz do Iguaçu, ano I, n. 01, 10 de maio de 1970. Museu da Imprensa de Foz do Iguaçu. 

Diego Monteiro, Graduado em História - Licenciatura UNILA e aprovado no PPGHIS da UNILA.

Revisão: Rosangela de Jesus Silva, docente da área de História da Unila.

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