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| Fachada do museu de Bacurau. Disponível em: < https://revistarosa.com/1/ |
No ano de 2026, o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho vivenciou o ponto mais alto de sua carreira com as indicações ao Oscar do filme “O agente secreto”. Todavia, essa não foi a primeira vez em que um lançamento de Kleber estimula discussões e alcança grande repercussão midiática. Se em “O Agente Secreto”, ele percorre a Recife de 1977 para abordar a perseguição da ditadura militar brasileira executada contra o professor universitário Armando, no filme Bacurau, lançado em 2019 e pelo qual ganhou o prêmio do júri no Festival de Cinema de Cannes, ele busca evidenciar a luta pela sobrevivência de uma comunidade que vive isolada no sertão nordestino. Em Bacurau, o povo mostra que não está fadado às mesmas tragédias que vitimaram seus antepassados. Consciência que o Brasil de hoje necessita aprender.
A história do filme gira em torno do ataque orquestrado por um grupo de estadunidenses contra o pequeno grupo que reside no povoado que dá nome ao filme. Neste futuro – o filme inicia com os dizeres “daqui há alguns anos” – a população que vive ali opera como um organismo único em uma solidariedade mútua, alheia ao aparelho estatal, que se faz omisso na localidade. Nesse contexto, sete indivíduos estrangeiros constroem um projeto de chacina com o único objetivo de obter pontos em um jogo sanguinário e poder satisfazer seu desejo de matar, visto que, na história, os Estados Unidos haviam proibido o acesso a armas de fogo pela população civil, informação que não é apresentada no filme, mas disponibilizada no roteiro oficial e que ajuda a justificar a ação dos invasores. Todavia, o ponto de virada dessa história reside na resistência que o povo empreende contra seus algozes, com o objetivo de não se deixar ser morto. Tal qual seus antepassados nordestinos, a população de Bacurau se vê em uma cruzada onde lutam para existir. Apenas viver.
As vidas que residem em Bacurau incomodam o poder estatal, pelo viés de luta política que possuem. Não cedem aos mandos locais, e configuram-se como um empecilho para a permanência das desigualdades. Em relação a esse cenário, pode-se interpretar que, “não importa se isso é colocado de maneira explícita ou não, todo esforço político para gerir populações envolve uma distribuição tática de precariedade, com frequência articulada por meio de uma distribuição desigual de precariedade [...]” (BUTLER, 2023, p. 130). Nesse cenário, um mesmo Estado é incapaz de gerenciar da mesma forma todas as vidas que estão sob sua incumbência, e deixam então subentendida uma legitimidade a projetos de ataques a essas vidas.
A história contada em Bacurau revisita um nordeste de lutas, que por vezes já teve seus nativos vitimados pelos governos vigentes no Brasil. O povoado tem entre os moradores, um professor, uma médica, um homem que tenta deixar a vida de assassino de aluguel, prostitutas e um justiceiro que vive refugiado. Este último, chamado Lunga, é procurado pela polícia por fazer justiça constante contra as mazelas enfrentadas por seu povo. O filme é dividido em três grandes atos: no primeiro, o espectador toma conhecimento dos moradores do local, que estão reunidos no velório de Sebastiana, antiga moradora que viveu por quase cem anos. No segundo ato, moradores começam a ser encontrados mortos com crueldade, e os nativos decidem recorrer ao Justiceiro Lunga, sendo ele o responsável por perceber o ataque sofrido e nele conhecemos também os indivíduos por trás dos ataques. O terceiro ato é inaugurado com o assassinato de uma criança do povoado por um dos forasteiros, e nele os norte-americanos consolidam sua invasão.
Dentre estes personagens, existe também o líder carismático, chamado Tony Júnior. O nome dá a entender que se trata de um herdeiro das famílias locais, e está em busca de se reeleger prefeito de Serra Verde, município fictício em que Bacurau está integrado. O indivíduo representa o político que se recorda das minorias apenas em época de campanha, e no contexto do interior nordestino, faz lembrar as práticas coronelistas que tiveram força durante a primeira república. Naquele cenário em questão, “o direito de ir e vir, o direito de propriedade, a inviolabilidade do lar, a proteção da honra e da integridade física, o direito de manifestação, ficavam todos dependentes do poder do coronel” (CARVALHO, 2023, p. 64). Sem poder contar com a segurança supostamente assegurada na constituição nacional, o povo se organiza para resistir por conta própria. Na placa localizada na entrada da estrada vicinal que dá acesso ao município, lê-se os dizeres: “Se for, vá na paz”. Ou seja, os indivíduos possuem convicção de que a existência do povoado é incômoda, e estão prontos para resistir, caso seja necessário, a ataques externos. Historicamente, minorias se veem reféns do sistema.
Um exemplo ao qual se assemelha a trajetória de Bacurau é o dos indivíduos que constituíam o grupo de Canudos, mortos sob o pretexto dos riscos de conscientização que representava a liderança de Antônio Conselheiro a quem lhe estava submetido. “Foi a primeira convulsão social histórica que demonstrou os abismos do período. A crise de partes da sociedade devido às políticas realizadas pelo regime oligárquico apresentou não um Brasil, mas sim brasis divididos espacialmente” (MARTINEZ, 2021). Um século depois, o povo de Bacurau demonstra estar consciente dos males que atravessaram sua região e não estão dispostos a verem repetir a história cruel que ceifou as vidas de tantos. O Brasil tem sua história marcada pela violência, pelos assassinatos de centenas de pessoas mortas em nome de um progresso e da segurança, que ao invés de proteger, assusta e repele. “Pois bem, vale a pena deixar um bom “lembrete” acerca do nosso passado, cujas estruturas sociais e heranças pouco lembram uma rica arcádia tropical” (SCHWARCZ, 2019, p. 229).
A primeira pista de que a narrativa seguiria um rumo oposto que a história brasileira assistiu ao longo da história se dá quando uma dupla de enviados dos estrangeiros, disfarçados como motoqueiros de trilha, são abordados pelos moradores ao passarem por Bacurau e são convidados a visitar o museu da localidade. Aparentemente um diálogo inocente, mas que revela sua grandeza na última leva de cenas do filme, em que os forasteiros invadem o povoado, fortemente armados e se decepcionam quando não encontram os seus alvos. Um deles entra no suposto museu e se assusta quando percebe marcas de armas diversas na parede. Elas estavam ali, mas foram retiradas. A câmera circula como o olhar do invasor pelo interior do Museu e revela inúmeros artefatos antigos, além de uma fotografia em preto e branco onde podemos ver cabeças degoladas e expostas.

Fachada do museu de Bacurau. Disponível em:
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“Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações [...] porque essas operações não são naturais” (NORA, 1993, p. 13). No filme, o museu representa o fôlego que o povo possui para não esquecer de sua própria história, que foge das atas e anais oficiais, pois pelos olhos do Estado, eles sequer deveriam existir. Por isso, o museu é o cartão de visitas a todos que vêm de fora, pois nele a memória se faz lembrada, e a população demonstra o quão importante é um povo que possui consciência de sua história. No Brasil do presente, observa-se que “ocupando as últimas posições na estrutura social, os indivíduos permanecem embrutecidos e as suas subjetividades simplesmente não possuem os elementos necessários para questionar as dimensões materialmente conhecidas” (CALEJON, 2023, p. 211). Aqui, apesar de serem minorizados, o povo roda a engrenagem ao contrário da lógica e subverte o sistema a seu favor.
Nas últimas cenas do filme, o povo de Bacurau mata os invasores a tiros e golpes de faca – com exceção de Michael, o mais velho deles, sendo enterrado em um alçapão cavado no centro da cidade. Suas cabeças são expostas perante os moradores, e ao final da chacina, o prefeito chega com alguns funcionários e uma van, o que dá a entender que prestaria apoio para a saída dos invasores após cometerem seus crimes. Os moradores tiveram seu cotidiano interrompido por estrangeiros que ali chegaram com a conivência do poder local, sob o único propósito de satisfazer seu prazer em matar. Vidas que eles consideravam inválidas, inexistentes e desprezíveis. Vidas humanas que carregam consigo um passado de muitas lutas e um presente que não é menos difícil. Entende-se que,
A possibilidade de populações inteiras serem aniquiladas, tanto por políticas genocidas, quanto pela violência sistêmica, não resulta apenas do fato de que existem aqueles que acreditam que podem decidir com quem vão dividir a terra, mas também do fato de que esse pensamento pressupõe a negação de um fato irredutível da política: a vulnerabilidade à destruição pelos outros que decorre de uma condição de precariedade em todos os modos de interdependência política e social. (BUTLER, 2015, p. 131)
Dessa forma, os estrangeiros agem tendo em vista um complexo de superioridade que ignora a relação de interdependência à qual estão submetidos todos aqueles que vivem em sociedade. Os nativos recorrem à tática (CERTEAU, 1990) da violência para reverter o projeto de extermínio, como único caminho encontrado para continuarem existindo, visto que, o governo local possuía consciência do ultraje que seria cometido e enxergou nele uma possibilidade para excluir seus desafetos. Ao final do filme, todos os moradores reúnem-se em torno do espaço em que foi enterrado Michael e juntos cobrem o local com terra, sob a trilha da música “Requiem para Matraga”, de Geraldo Vandré. Nos dois primeiros versos ele canta “vim aqui só pra dizer / ninguém há de me calar”, e nos dois últimos, “você que não me entender / não perde por esperar”.
A população do povoado reunida em torno do alçapão em que enterraram o forasteiro. |
Por fim, conclui-se com a percepção de que Bacurau é um filme muito didático para sustentação da importância de comunidades locais ou nacionais serem conscientes de sua história, das lutas travadas por seus antepassados, e da importância da união dos menos favorecidos em prol da reivindicação de seus direitos. A violência e a luta armada não são necessariamente uma solução, mas a mensagem do filme propõe aos cidadãos se manterem vigilantes de seus direitos e não se deixarem ser submetidos a regimes de exclusão e abusos, por parte de um Estado nacional que, em muitos casos teme espíritos críticos e deseja apenas uma massa amorfa. “Você que não me entender, não perde por esperar”.
Referências
BACURAU. Direção: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Produção: Emilie Lesclaux, Saïd Ben Saïd. Brasil: Vitrine Filmes, 2018.
BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2023.
CALEJON, Cesar. Esfarrapados: como o elitismo histórico-cultural moldou as desigualdades sociais no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2023.
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2023.
CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: Artes de fazer. Petrópolis: Editora Vozes, 1990, p. 99.
NORA, Pierre et al. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História, v. 10, 1993.
SCHWARCZ, Lilia. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019
VEIGA, Edison. Há 125 anos, Canudos escancarou dificuldades do Brasil rural. DW Brasil, 24 nov. 2021. Disponível em: < https://www.dw.com/pt-br/h%C3%A1-125-anos-guerra-de-canudos-escancarou-dificuldades-do-brasil-rural/a-59907878 >. Acesso em: 21 mai. 2026.
Texto por: Ivo Vinícius da Silva Pires, mestrando em História do Brasil – UFPI.
Revisão: Rosangela de Jesus Silva, docente da área de História da Unila.

