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Interseccionalidade, Gênero e Deficiência.

   

Elaboração Própria (2026)

No modelo econômico capitalista e neoliberal, a perspectiva da individualidade e da funcionalidade são hegemônicos para manutenção do mercado e da força de trabalho barata. Pensando nos diferentes modos de ser e estar no mundo, muitos grupos são discriminados e excluídos socialmente, por não se enquadrarem na velocidade ou não atenderem as demandas necessárias do capital para a expansão de lucros das classes dominantes. Dentro desse debate, pensa-se na perspectiva da interseccionalidade de classe, raça, gênero, idade e deficiência, para analisar grupos sociais marginalizados que constantemente são violentados pela estrutura capitalista vigente.

A padronização dos corpos categorizados como “eficientes” dá forma as estruturas capacitistas e “desqualifica as pessoas com deficiência e pessoas intersexo, travestis, transexuais, as crianças e os adolescentes.” (MOREIRA et al., 2022, p. 02). Desta forma, é de suma importância enquadrar o debate de gênero e considerar as violências possíveis dentro destes recortes, a exemplo disso, no artigo de Adriana Dias, “Por uma genealogia do capacitismo: da eugenia estatal a narrativa capacitista social” (2013) a autora destaca que mulheres com deficiência são mais vulneráveis e esquecidas, sendo assim, são expostas a maiores riscos de abusos sexuais e pobreza. Nesta zona de invisibilidade e na criação de imaginários culturais, nos quais categoriza-se aqueles que importam ou não importam (SANTOS et al., 2022), evidencia-se a precariedade nas formas de subsistência dessa população, assim como as dificuldades no acesso a setores públicos, — escolas, trabalho, hospitais e segurança — uma marginalização proposital provocada pelo capital, que decide quem vive e quem morre (SANTOS et al., 2022), ao não garantir a manutenção da vida destas mulheres com deficiência. Além disso, acerca da sexualidade, mulheres com deficiência socialmente são vistas enquanto pessoas “assexuais”, e incapazes de desempenhar o papel de reprodução e produção da vida (GESSER et al. 2020). Considerando que na lógica do capitalismo, pessoas que desempenham o papel social de mulher, estão socialmente inseridas no trabalho de produção e reprodução da vida, a comparação com a designação do papel social da mulher com deficiência existe uma contradição, tendo em vista que mulheres com deficiência são socializadas enquanto pessoas incapazes de desempenhar esses trabalhos, cabe então refletir se a categorização “mulher” abrange pessoas com deficiência.

No debate de gênero é essencial romper com as dinâmicas binárias, para que assim se obtenha um debate efetivo acerca da análise da violência de gênero, assim como no debate da deficiência. Deste modo em “ESTUDO DA DEFICIÊNCIA: interseccionalidade, anticapacitismo e emancipação social” (GESSER et al. 2020), as autoras refletem sobre a padronização dos corpos e o impacto na vida de pessoas intersexos e pessoas trans as quais sofrem com as tentativas de “correções” dos seus corpos para atender uma exigência da padronização do corpo binário. A reflexão do texto pretende assumir essas “correções” como formas capacitistas, tendo em vista que socialmente estes corpos são assumidos como “falhas biológicas”. Cumpre ressaltar que pessoas com deficiência também estão inseridas no recorte da transsexualidade, neste sentido, deve-se pensar os desafios enfrentados nestes cenários.

A designação de trabalho categorizada por gênero é essencial para a manutenção da exploração da classe trabalhadora no capitalismo, neste sentido as relações não binárias de gênero contestam essa categorização exploratória, sendo assim, é necessário pensar as violências existentes por corpos descategorizados socialmente e o aumento desta invisibilidade e exploração na vida de pessoas com deficiência. Para compreender as dinâmicas destas explorações vivenciadas por pessoas com deficiência é necessário o reconhecimento da interseccionalidade dos diversos marcadores, compreendendo suas subjetividades e existência.

A escolha desse tema se justifica pelo interesse em compreender os recortes existentes e como articula-se na realidade material de pessoas com deficiência e como perspectivas fora da binaridade são pensadas através do debate do modelo social. Compreende-se também a necessidade de observar pessoas com deficiência a partir de outras dimensões da realidade, ou seja, observando a totalidade dessas pessoas e retirando os estigmas impostos socialmente.  Ao promovermos um olhar crítico e reflexivo sobre a violência de gênero e capacitismo, compreendendo-os em sua totalidade e evidenciando narrativas que fortaleçam as pessoas com deficiência enquanto sujeitos e repensando os aspectos reforçadores — objetos culturais, pedagógicos e políticos — talvez possamos agir diretamente no processo de ensino e aprendizagem na escola.

A escolha da escrita desse tema surgiu através da disciplina de Educação Inclusiva com a professora Ana Paula Araujo da UNILA e o interesse em compreender os recortes existentes e como articula-se na realidade material de pessoas com deficiência e como perspectivas fora da binaridade são pensadas através do debate do modelo social, estudado na disciplina. Compreende-se também a necessidade de observar pessoas com deficiência a partir de outras dimensões da realidade, ou seja, observando a totalidade dessas pessoas e retirando os estigmas impostos socialmente.

REFERÊNCIAS

MOREIRA, Martha Cristina Nunes et al. Gramáticas do capacitismo: diálogos nas dobras entre deficiência, gênero, infância e adolescência. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 27, n. 10, p. 3949-3958, out. 2022.

SANTOS, Sérgio Coutinho dos; KABENGELE, Daniela do Carmo; MONTEIRO, Lorena Madruga. Necropolítica e crítica interseccional ao capacitismo: um estudo comparativo da convenção dos direitos das pessoas com deficiência e do estatuto das pessoas com deficiência. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, n. 81, p. 158-170, abr. 2022

DIAS, Adriana. Por uma genealogia do capacitismo: da eugenia estatal a narrativa capacitista social. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE ESTUDOS SOBRE A DEFICIÊNCIA, 1., 2013, São Paulo. Anais [...]. São Paulo: SEDPcD/Diversitas/USP Legal, 2013. p. 1-14.

GESSER, Marivete; BLOCK, Pamela; MELLO, Anahi Guedes de. Estudos da deficiência: interseccionalidade, anticapacitismo e emancipação social. In: GESSER, Marivete; BÖCK, Geisa Letícia Kempfer; LOPES, Paulo Henrique (org.). Estudos da deficiência: anticapacitismo e emancipação social. Curitiba: CRV, 2020. p. 17-35.


Texto por: Uiarê da Silva Ferreira, graduanda em História Licenciatura pela UNILA.

Revisão: Rosangela de Jesus Silva, docente da área de História da UNILA.

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