terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Proclamação da República Através da Imprensa Brasileira

Tomando por base os periódicos mineiros: 'O Estado de Minas Geraes' e 'A Pátria Mineira' dos dias 20 e 21 de novembro de 1889 respectivamente e a 'Revista Ilustrada' dos dias 16 de novembro e 07 de dezembro de 1889, destacaremos a abordagem feita pela imprensa acerca da proclamação da República.
             

Da divulgação pelos jornais
A Pátria Mineira - 21/11/1889


Tendo chegado a Minas Gerais a notícia do golpe militar ocorrido no Rio de Janeiro, o Jornal 'A Pátria Mineira' publica no dia 21 de novembro de 1889:
Às oito horas da manhã do dia 16, subiu à redação d'A Pátria Mineira, o jovem J. Fabrino e, tremulo de júbilo, informou de haver sido proclamada a república no Rio de Janeiro. Saímos a colher notícias, embora vagos, de alguns telegramas, chegamos a concluir que o fato era verdadeiro. Tratamos sem demora de imprimir e espalhar por toda a cidade o seguinte boletim:

VIVA O EXÉRCITO E A NAÇÃO BRASILEIRA
TENDO SIDO DESCOBERTO O PLANO OCULTO DO MINISTÉRIO DE, POR MEIO DA ABDICAÇÃO DO IMPERADOR, A 2 DE DEZEMBRO, PROCLAMAR A TERCEIRO REINADO COM O CONDE D'EU, O EXÉRCITO REUNIDO AOS PATRIOTAS, PROCLAMOU O GENERAL DEODORO DA FONSECA PARA CHEFE DE UM GOVERNO PROVISÓRIO, CONSTITUIDO DOS CIDADÃOS RUY BARBOSA, QUINTINO BOCAYUVA E DR. BENJAMIN CONSTANT(...)

O Estado de Minas Geraes - 21/11/1889


"O Estado de Minas Geraes" de 21 de novembro de 1889 destaca a nomeação do governador interino pelo Governo Provisório, Sr. Dr. Antonio Olyntho dos Santos Pires  e sua posse no dia  17 de novembro de 1889:

 "O povo brazileiro no exercicio solene dos diretos da soberania (...) vem selar com o cunho de sua adesão o grandioso movimento operado a 15 de novembro de 1889. A República Federativa dos Estados Unidos do Brazil está proclamada! Sob a bandeira da República, passaram para o domínio  da história os velhos partidos e aclamando o renscimento da consciencia nacional - só brasileiros se agrupam em torno do-altar da Pátria - defendendo com a fé inabalável de sua confiança, no Governo instituido, o pensamento democrático que dormitava em seu seio. Nessa fase de organização, é necessário, para o complemento do grande ato popular, que se congreguem todos os cidadãos, para a consolidação do regime da liberdade-que é simbolo da paz e da confrartenização nacional. Esta província que é hoje o Estado de Mina Geraes, se orgulha de contemplar, após um seculo de lutas indefesas pela causa da democratica a glorificação de seus filhos, martires do depotismo monarquico da casa de Bragança, erguendo ao lado do partíbulo de Joaquim José da Silva Xavier, o trono onde assenta a Magestade Popular da Pátria Brasileira.(...)Viva a República Federativa dos Estados Unidos do Brazil! Viva o Estado de Minas Geraes!  Viva o Governo Provisório!  Viva o Exercito!  Viva a Armada!"
Ainda nessa mesma edição, apresenta a mensagem do Governo Provisório ao ex-imperador:

No dia 17 de novembro, 10:33 da manhã, Manoel Deodoro da Fonseca, então Chefe do Governo provisório envia ao ex- imperador D. Pedro  D'Alcantara um mensagem de retirada do país: 

"(...)Obedecendo, pois,  às exigencias urgentes do voto nacional, com todo respeito devido à dignidade das funções públicas, que acabas de exercer, somos forçados a noticicar-vos que o governo provisório espera do vosso patriotismo o sacrifício de deixardes o território brazileiro, com vossa família, no mais breve termo possivel(...)"

O espaço da mulher na República advém de sua retratação em Marianne na França do século XVIII, curiosamente, no jornal 'A Pátria Mineira' o poema de uma mulher é usado em comemoração à proclamação.

Hosannas a Patria Livre

Dispertou da lethargia
O gigante americano
Foi banida a monarchia
Pelo povo soberano.
Já surgiu a nova era
Para o povo das palmeiras,
“Já raiou a liberdade”
Nestas plagas brazileiras.
A’ Quintino e a Deodoro,
Os heróes do grande feito
Eu envio as mensagens
Do mais fervoroso preito.
Sítio, 19 de novembro de 1889.

(A Patria Mineira. N. 28,21 de novembro de 1889, p.3)


Revista Ilustrada - 16/11/1889
             

Da divulgação pela Revista

A Revista Ilustrada publica no dia 16 de novembro de 1889, um dia após a proclamação da República, o seguinte texto:

“A' hora de entrar a nossa folha no prélo os actos do gabinete 7 de Julho e a indifferença da corôa a tantos abusos deram os seus legitimos fructos: foi proclamada a Republica Federal Brazileira, unico regimen que convem á nossa patria e que havia de ser um facto mais hoje mais amanhã.
O gabinete demisionario, precipitou porém os acontecimentos, e hoje em plena paz, no meio do regosijo popular sauda-se, de todos os lados, o novo e fecundo regimen da democracia, do direito e do futuro da America.(…)
Realisaram-se nossos vaticinios, e sentimo-nos felizes, porque isso tenha acontecido, em meio do regosijo e da confraternisação mais admiravel que se tem visto entre Povo, Exercito e a Armada Nacional.
Honra ao civismo dos Brazileiros!”

Sendo uma revista de cunho republicando, viu a queda do império como uma consequência dos atos desse regime. De cunho positivista, via a República como modernidade e progresso.

Na edição do dia 7 de dezembro, Júlio Verim publica um texto em que expõe que a República seria uma última etapa do progresso, iniciado com a independência e seguido pela abolição. E que a nação Brasileira alcançará o progresso sem nenhuma guerra. Certamente aqui se destaca com maior clareza a sua ideologia positivista.

“ Belíssimos quadros tem oferecido nosso país, à contemplação do mundo, com a sua independência, com o dia 28 de Setembro e com a abolição decretada em meio de festas. Restava, porém, a coroação de todos esses heroísmos de um povo nobre, calmo e generoso.
Restava a coroação de todas essas grandes conquistas do progresso: restava a apoteose. Esta, finalmente, realizou-se a 15 de Novembro, enchendo de desvanecimento os corações brasileiros e assombrando o mundo. (…)
Era um encanto observar como progredíamos a olhos vistos e tanto, que alguém assustando-se com esse avançar prodigioso para todas as conquistas da liberdade, tentou pôr um cravo à roda do progresso, com o ministério 7 de junho.
Uma grande maré de civismo avolumou-se do seio das classes mais patrióticas, rodeou o velho trono e, de onda em onda, de crista em crista, cuspiu-o nas plagas da Europa, donde nos viera, libertando a América da única testa coroada, que servia de dique à realização da sua unidade republicana. (...)
Proclamada a republica, a America exulta, o velho continente pasma do heroismo dos seus netos, e no interior, todas as circumscripções do paiz levantam-se e acclaman as novas instituições, honrando-se com a união indissoluvel de todos os novos estados, erguendo bem alto o dogma de união, da integridade do nosso territorio, da ordem, do respeito aos direitos adquiridos e da mais leal fraternidade, para com todos os povos, do velho e do novo mundo. (…)
Hoje, os Estados Unidos do Brazil, teem no seu pavilhão as 21 estrelas, representando os seus
Estados, que, todos, se mostram contentes e orgulhosos do que se fez, desassombrando o nosso futuro e abrindo ao povo o caminho de todas as conquistas do progresso.
Deodóro, Quintino Bocayuva, Ruy Barbosa, Aristides Lobo, Benjamin Constant, Campos Salles, Wandenkolk e Demetrio Ribeiro, são os patriarchas desta jovem republica, que se prepara para a conquista de todas as glorias.
Salve Liberdade!
Vivam os Estados Unidos do Brazil!”

Nessa mesma edição, a revista coloca também ideias contrárias à república. Mesmo exaltando a República, o autor não deixa de criticar o novo regime, por exemplo, no que se tratava da conquista de cargos importantes no governo.

"Evidentemente, todos os que estavam nas boas graças da monarquia e do passado governo, não podem ver com bons olhos a atual ordem de coisas, que lhes aboliu os privilégios, pondo-os em pé de igualdade com todos os outros brasileiros. (...)
Hoje não! Os cargos, as honras, a própria glória estão no extremo limite de uma estrada franca e que todos podem trilhar. Quem tiver força, quem tiver talento, quem tiver mérito, quem tiver serviços, é fazê-lo valer.
Todos esses, não se poderão resignar-se nem servir com sinceridade um regime que os sacrifica, preferindo-lhes o mérito. (...)
Grande perigo será pôlos de sentinela em postos arriscados ou confiar-lhes a guarda das fortalezas, por outros conquistadas, a seu pesar. É mister experimentar a solidez desses laços, que estabelecem conosco lealdade desses protestos de adesão."


Mesmo influenciados por ideias republicanos, esses veículos da imprensa ainda hoje encontrados no arquivo público (os periódicos) e na Biblioteca Pública do Estado do Rio de Janeiro (Revista Ilustrada), tornam-se de grande valor narrativo dos acontecimentos históricos. Na Trajetória dos 122 anos da proclamação da República brasileira, muitos foram os mitos, poucos os heróis, tardia as mudanças, e inúmeras as versões.



Referências Bibliográficas

Jornal 'A Pátria Mineira'. Arquivo Público Mineiro.
Edição 28.  21 de novembro de 1889.

Jornal 'O Estado de Minas Gerais'. Arquivo Público Mineiro.
Primeira Edição. 20 de novembro de 1889.

Revista Ilustrada. Biblioteca Pública do Estado do Rio de Janeiro
Edição dos dias 16 de novembro e 07 de dezembro de 1889.

SILVIA, Camila de Freitas. O 15 de novembro na imprensa carioca. Revista do corpo discente do PPF - História da UFRGS.


Paulo Alves Pereira Júnior e Jéssica Lima Bonfim - Acadêmicos de História na Universidade Federal da Integração Latino Americana (UNILA).

Um comentário:

  1. Ótimo texto Paulo e Jessica !!!!

    Interessante ver como a imprensa brasileira "encarou" a proclamação,até por que os livros não costumam falar disso.

    Parabéns, continuem assim, crescendo juntos !!!

    Beijoo
    Marcelle

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