terça-feira, 29 de maio de 2012

"O eurocentrismo morreu", diz historiador Robert Darnton.

Leia a seguir trecho de entrevista dada pelo historiador norte-americano Robert Darnton à Folha de São Paulo de hoje:
"FOLHA - A crise na Europa parece ter fermentado uma clara sensação de insatisfação política, que já derrubou governos, e, aparentemente, afeta a psique europeia. Como o sr. avalia o momento histórico no continente e quais seriam os paralelos?
ROBERT DARNTON - Acho justo dizer que há uma crise de confiança na Europa. Claro, há uma base econômica, com o desemprego em alta e bancos quebrando ou com risco de quebrar. Mas a questão vai além: há dúvidas sobre o futuro da Europa em si.
Há sinais de descontentamento nas pequenas comunidades -- imagine a fragmentação espiritual no norte da Itália, no leste da Espanha ou mesmo nos Bálcãs -- com a unidades políticas fundamentais, sejam nacionais ou europeias, questionadas. É uma balcanização fora dos Bálcãs.
As pessoas estão refletindo sobre a Europa e seu lugar no mundo, e, ao fazer isso, pensam em países como o Brasil, a Turquia, a China e as novas potências emergindo. Quando eu vou à Europa, noto uma sensação de exaustão, de estar ficando para trás na corrida.
No norte da Europa, as coisas vão bem. Mas é claro que o ressentimento dos gregos em relação aos alemães e dos alemães em relação aos gregos mostra que algo está fora de sincronia. Portanto é justo dizer que os europeus estão questionando a Europa.
A percepção de importância europeia persiste, mas a auto-estima parece afetada. Faz sentido?
Eu concordo, é uma sensação de ter sido ultrapassado e não estar mais no ªfast trackº da história. E não só na economia, quando eles veem a qualidade da literatura, do cinema, da música que vêm da América Latina, aparece essa exaustão, e a vitalidade desse outro lado do mundo os ofusca. Há lados positivos, há um centro de estudos brasileiros em Paris florescendo, por exemplo.
Mas o eurocentrismo morreu. A noção de que a Europa dita o ritmo na vida cultural não é mais verdade. Não que a cultura europeia tenha se esgotado, mas hoje os americanos -- tanto os norte-americanos quanto os latinos -- são mais centrais para a cultura.
Ainda há literatura europeia florescendo.
Verdade, há coisas boas. Há essa frase do Âfilósofo alemão do século 18] Hegel, ªa coruja de Minerva abre suas asas após o anoitecerº, que quer dizer que a cultura floresce quando os países parecem estar em declínio. As pessoas que conheço lá, jornalistas, críticos literários, seguem produzindo. Mas quando vou ao México ou ao Brasil, sinto uma vitalidade que não sinto mais em Paris ou Londres -- há Berlim, claro, que é uma cidade vibrante.
A exaustão, além da economia, vem de onde?
É difícil apontar, mas acho que um dos pontos de dificuldade é a educação superior. As universidades estão sofrendo na Europa inteira.
As universidades italianas estão no caos, e os estudantes que obtêm doutorados na Europa partem para os EUA ou a América Latina porque lá não há lugar para eles, seja em física ou em filosofia. A Alemanha, que tinha um ótimo sistema, está tentando manter tudo em pé e manter seus centros de excelência, mas as universidades alemãs estão oferecendo seminários para turmas de cem pessoas, o que é inviável. As universidades francesas estão em má forma, sem o financiamento adequado, e na Inglaterra, que tem o melhor sistema, o financiamento afundou. Há um declínio na aprendizagem, e isso se reflete na sociedade. A Europa está sem recursos para manter esse maravilhoso sistema de universidades funcionando.
É o dilema do ovo e da galinha, o declínio na educação afetará a economia.
É um círculo vicioso, e há provas de que investimentos em educação melhoram a economia em vários aspectos, não só tecnológico, mas ao produzir uma força de trabalho que tenha domínio da linguagem, por exemplo. Quando eu vejo as pessoas na Europa cometerem erros de gramática, eu me preocupo. Pode soar pedante, besta, mas a deterioração da gramática é um sintoma da deterioração cultural.
Qual seria o papel cultural dos emergentes, quase sempre deixados em segundo plano nos altos círculos?
Há mais interesse nos EUA pela América Latina. Na Europa, sempre houve uma certa condescendência. Mas nos EUA eu diria que é mais ignorância do que outra coisa. Temos tanta coisa em comum com o Brasil que há uma abertura para a experiência latina nos EUA do que na Europa, embora a ignorância esteja lá ainda. Muitos amigos e alunos meus hoje falam espanhol, alguns falam português e há gente interessada em mandarim. Houve uma mudança no centro de gravidade cultural, e acho que haverá cada vez mais colaboração entre a América do Norte e a do Sul. Temos muito a aprender, e deveríamos começar tirando vantagem dessa nova habilidade linguística.
O português não se disseminou tanto [nos EUA como o espanhol], mas há uma vitalidade cultural popular no Brasil que fascina os americanos. Eu acho que vamos ver aumentar o intercâmbio cultural entre o norte e o sul nas Américas e menos na Europa, embora eu fique impressionado com a sofisticação das pessoas em São Paulo que sempre sabem a última novidade da Rive Gauche. Vocês têm uma intelligentsia que não existe nos EUA, onde o prestígio de ser um intelectual é menor do que em outros lugares.
Em Harvard, onde o sr. está, isso não parece verdade.
Ah sim, os professores de Harvard se levam a sério demais, mas eu tento evitar... Mas acho que as universidades deveriam querer ter cada vez mais estrangeiros participando de sua vida.
Tem sido uma meta, mas não sei se é um desejo genuíno de atrair o melhor ou uma questão financeira.
É genuíno, as universidades prosperam com talento, e muitos desses talentos estão fora dos EUA. Por causa disso, o MIT [Massachusetts Institute of Technology] é um lugar mais vibrante do que Harvard, achou eu, embora estejamos trabalhando com eles em vários projetos, inclusive nas bibliotecas...
(…).
O sr. deu uma entrevista à minha colega da Folha Claudia Antunes, no ano passado, na qual mostrava otimismo com a Primavera Árabe. Como se sente mais de um ano depois?
Como um estudioso da Revolução Francesa, eu estava esperando sintomas de liberação em todas as frentes, e hoje estou procurando sintomas de reação, que é o que acontece em tempos revolucionários. O lugar mais excitante é o Egito. É claro que houver reações, é interessante ver como o aumento de criminalidade e a desordem foi explorado por alguns candidatos à Presidência.
Parece ser tudo sobre o que eles falam hoje.
Eles também falam do movimento islâmico, da Irmandade Muçulmana, que foi parte do movimento desde o início. O que parece estar menos forte é o radicalismo secular.
Acho que estamos agora em 1791 [da Revolução Francesa],e não em 1789, quando há um período de profunda preocupação com a ordem e a necessidade de se construir uma nova estrutura civil, com uma nova Constituição.
Estou acompanhando o noticiários obre as eleições, atentamente, e há espaço para otimismo cauteloso. A Irmandade Muçulmana deve ganhar poder, o que é normal -- afinal, é um país muçulmano. Há muito medo do islã e incompreensão nos EUA.
Mas eu sinto que o momento de fervor utópico passou e deu lugar ao momento de construção e consolidação. É menos dramático, mas é muito promissor. Só o fim da tortura, das prisões arbitrárias e, espero, da corrupção são um passo enorme adiante."
Em tempo, os erros de digitação estão no site do jornal.
Professores em greve!

Um comentário:

  1. Eu não acredito que o eurocentrismo acabou. A não ser porque Robert Darnton agora quer deslocar o centro para o país dele. Não acredito que uma crise obrigue os europeus a não se perceber mais como centro do mundo, depois de 500 anos sentindo-se como tal. Não acredito que os estadunidenses intelectuais, assim de pedantes, como diz Darnton, agora queiram olhar para América Latina na busca de alguma coisa. Apenas acho que o entrevistado é amável com os jornalistas brasileiros. As classes altas da América Latina, mesmo chegada a sua era de decadência nunca olharam para outro lugar que não para sua classe social, para sua cultura e para si mesmos; foi o caso das elites de Trujillo, Popayán, Puebla, Recife, dentre outras da América Latina, que uma vez lhes chegou a decadência, não conseguiram acompanhar a era burguesa e se voltaram totalmente para si (ver José Luis Romero e seu livro sobre as cidades e as ideias). Sabemos que 60 ou 70% dos intelectuais estadunidenses acham justa a política externa estadunidense e comungam com ela. Não acredito que pela emergência econômica do Brasil ou da Índia, se produza mais cultura e que Europa decadente social e economicamente deixe de fazê-lo. Que a crise é certa, não duvido, mas que isso não condiciona uma sociedade a deixar de perceber-se como centro. Pelo contrário, lembro mais uma vez o papel de Pernambuco depois da crise do açúcar e a sua hegemonia cultural frente ao Nordeste. A intelectualidade latino-americana não vai deixar de perceber Europa como centro por causa da crise. A universidade não é a única que produz cultura, ela pode entrar em decadência, a cultura continua, também sem intelectuais, jornalistas, etc.
    Gerson Ledezma.

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