sábado, 2 de março de 2013

A arte e o supérfluo.

Benvenuto Cellini - Saleiro de Francisco I (1543) - Kunsthistorisches Museum, Viena.

Já vimos como a arte está associada a um sentimento de admiração na cultura ocidental. Mas é muito pouco para conceituarmos o que é arte. Jorge Coli acrescenta que a arte é marcada pelo supérfluo, ou seja, por aquilo que não é vital para os homens. A arte não teria, portanto, uma função específica e muitos objetos perdem a sua utilidade original quando ganham o estatuto de arte. No entanto, isso não deve ser visto necessariamente como algo negativo:
“Mário de Andrade disse uma vez que a arte não é um elemento vital, mas um elemento da vida. Não nos é imediatamente necessária como a comida, as roupas, o transporte e descobrimos nela a constante do supérfluo, do inútil. (...).
Benvenuto Cellini, em 1540, realiza, para o rei Francisco I da França, um saleiro. Mas “um saleiro que em nada se assemelha aos saleiros comuns”, como diz o próprio artista em suas memórias, pois se trata de uma extraordinária escultura dos deuses do mar e da terra, Netuno e Ops, sobre um pedestal ricamente ornado (...). A desproporção entre a função banal e o trabalho artístico é evidente e assinala fortemente o quanto a arte significa supérfluo.
Não se trata apenas de embelezamento, de ornamento. Trata-se de algo próprio à ideia que possuímos da arte. Em nossa cultura, ela se encontra no domínio da pura gratuidade. (...).
Já vimos como a instalação de um objeto em museus transforma-o em arte. A colher de pau de minha avó, o porta-garrafas, a roda de bicicleta, o mictório de Duchamp, colocados em pedestal ou vitrina, permitem a eclosão de sentimentos, de instituições evocadoras. A forma da colher, os traços que o tempo nela deixou, o eriçamento do porta-garrafas, a beleza abstrata da roda de bicicleta, a estranheza do mictório, surgem como por encanto. Mas, ao mesmo tempo, note-se que esses objetos perderam sua função utilitária: “artística”, a colher de pau deixou de fazer sabão. Sua transformação em arte acarretou o gratuito: ela não faz mais parte de um sistema racional de utilidade. E, livre, o supérfluo emerge como essencial.
(...).
Tentemos explicar melhor. No passado, e ainda hoje, os objetos artísticos possuíram funções sociais e econômicas que permitiram sua constituição e seu desenvolvimento: antes de ser arte, (...) [um] crucifixo foi objeto de culto (...). Da igreja (...) para o museu (...) a passagem impõe a perda da função primitiva.” (COLI, Jorge. O que é Arte. 15 ed. São Paulo: Brasiliense, 1995. p. 87-91).

Peças sacras do Museu Aleijadinho de Ouro Preto, Estado de Minas Gerais.

Prof. Paulo Renato da Silva.

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