sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Batlle e a “Universidad de las Mujeres”.



A sociedade uruguaia passou por notórias transformações após os períodos de governo de José Batlle y Ordoñez. No plano econômico pode-se citar a promoção da nacionalização de setores estratégicos e a atuação do Estado como agente do crescimento.
No plano social, várias foram as leis que “modernizaram” o aparato estatal e romperam com vários preconceitos e comportamentos existentes no país. Como exemplos podemos citar a proibição do trabalho de menores de 13 anos, a garantia do direito de 40 dias de licença maternidade, o repouso semanal obrigatório e a jornada de trabalho de oito horas.
Essas e várias outras medidas aceleraram a separação entre a Igreja e o Estado, diminuindo a influência religiosa nas decisões do Estado, possibilitando, por exemplo, a aprovação da lei do divórcio por iniciativa da mulher, a aprovação do voto feminino em 1932 e o ensino público gratuito.
Outro exemplo bastante inovador apareceu no ano de 1911, mais precisamente em 2 de junho daquele ano, quando o Presidente José Batlle y Ordoñez e o Ministro da Justiça e Instrução Pública da época, J. A. Blengio Rocca, apresentaram o projeto de Lei da "Universidad de Mujeres". Tratava-se da criação de uma instituição de ensino voltada à educação feminina em níveis superiores, pois a participação deste público na formação pós-básica era muito pequena. O mundo do conhecimento científico, das decisões políticas e da atuação social estava centrado em um universo machista e excludente.
Durante uma conferência no Sindicato dos Médicos, a Dra. Paulina Luisi, primeira médica uruguaia e militante feminista na primeira metade do século 20, ironizou o discurso da casta médica da época. A frase dita por Luisi traduz bem o sentimento da época:

"En este país, que sin embargo es el mío, carezco de la autoridad requerida para hablar de asuntos serios, científicos o sociales, porque la pícara naturaleza no me concedió el privilegio de pertenecer al sexo masculino."

Ainda que tenhamos que encarar a necessidade de ampliação de políticas inclusivas e cenários bastante difíceis para as mulheres nos dias de hoje, iniciativas inovadoras e de coragem para romper com a padronização existente podem transformar realidades, mesmo que a médio ou longo prazo.
Segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, as mulheres uruguaias apresentam importante acréscimo no nível de instruções nas últimas décadas. Nos anos 1960, por exemplo, 44,7% das mulheres haviam completado de 4 a 6 anos de estudo; 14,3% de 7 a 9 anos; e 9,5% de 10 a 12 anos. Na década seguinte, 40,4% do total de estudantes de nível superior era composto por mulheres.
Esta vertente política saída da bancada colorada consolidou o Uruguai como um Estado moderno e, além disso, empoderou as mulheres de maneira não comum à época. Críticas à parte, certamente esta é uma das razões de hoje o Uruguai ser considerado o país mais laico da América Latina, com os menores índices de analfabetismo e com uma legislação e discussão avançadas em assuntos como aborto, casamento homoafetivo, adoção de crianças por parte de casais do mesmo sexo, a mudança de nome e de sexo na identidade e o ingresso de homossexuais nas Forças Armadas.

Referências:

- http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/O-batllismo-do-seculo-21
- http://www.monografias.com/trabajos81/indagatoria-feminismo-uruguay-siglo-xx/ 
- http://mujeresquehacenlahistoria.blogspot.com.br/2008/09/siglo-xix-paulina-luisi.html
- http://mazinger.sisib.uchile.cl/repositorio/lb/filosofia_y_humanidades/vitale/obras/ 
- http://www.cepal.org/ 

Maria Aparecida Webber, Maria Paula Padrón, Maria Silvina Sosa Vota, Mariana Elizabeth Fernández Presa e Katrina Petrika Dal Pizzol.

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