quinta-feira, 6 de abril de 2017

(Teoria da) História e ficção científica: A Chegada (2016)

Filmes de ficção científica podem oferecer ótimas oportunidades de reflexão sobre história e teoria da história. O gênero de ficção científica pode produzir narrativas ancoradas sobre diferentes possibilidades de pensar a evolução das sociedades humanas, bem como, pelo contato imaginado com outros “seres” que habitam o universo, produzir reflexões interculturais que desnaturalizam nossas formas de pensar, nossos valores e nossos modos de vida.
O filme A Chegada (EUA, 2016, dirigido por Denis Villeneuve), proporciona uma reflexão desse tipo, a respeito de um fundamento básico de nossas percepções: nossa forma de apreender o tempo. Baseado no conto “História da Sua Vida” (1999), de Ted Chiang, o filme retrata a chegada de seres extraterrestres à Terra, e a tentativa dos humanos de compreenderem as intenções desses visitantes, buscando formas de comunicação com eles. Para tal, é recrutada uma linguista, a Dra. Louise Banks (protagonista da trama), que procura desvendar a linguagem daqueles seres. A cientista chega a uma descoberta: os seres extraterrestres possuíam uma diferença fundamental em relação aos humanos, que se refletia na expressão de sua linguagem. A diferença estava na forma de apreender o tempo: os extraterrestres percebiam passado, presente e futuro de uma só vez, e não da forma sequencial pela qual os humanos percebem. Desse modo, em sua linguagem, não havia uma sucessão de termos, ou unidades linguísticas, mas um aglomerado, que poderia ser interpretado a partir de qualquer ordem, ou ponto de sua imagem (ao contrário das frases humanas, que precisam ser colocadas em ordem para serem compreendidas). Ao compreender a linguagem daqueles seres, a cientista adquiriu a capacidade de pensar como eles. Assim, em sua mente, passado, presente e futuro deixaram de ser instâncias separadas, e ela pôde ver toda a experiência de sua vida de uma vez, a cada instante.

Cena do filme A Chegada (2016)

O filme trabalha com a ideia de que nossa concepção de tempo é linear, característica de nosso pensamento que seria típica da modernidade. Essa concepção linear viria substituir, ao menos no Ocidente, uma concepção cíclica de tempo, que se baseava na limitação de situações possíveis à natureza humana, e na consequente repetição de fatos e estados históricos. A partir do século XVIII, e em especial de uma específica noção de progresso, a imagem do tempo como “flecha”, em direção ao futuro, veio a substituir a imagem de “ciclo” do tempo. Tal mudança não é, porém, consenso entre os historiadores das ideias. O historiador Paolo Rossi, por exemplo, prefere pensar na coexistência entre a “flecha” e o “ciclo”:

De fato, não creio que a modernidade possa ser colocada sob a categoria do tempo linear. Creio na presença simultânea e na coexistência difícil, em nossa tradição, de uma concepção linear e de uma concepção cíclica do tempo; e acredito, ainda – por conseguinte -, que, em nossa tradição, operam diferentes imagens do progresso ou do crescimento do saber (ROSSI, 2010 p. 105).

Com efeito, já na modernidade, pensadores retomaram a ideia de um tempo cíclico (o caso mais notável seria Nietzsche, e a ideia de um “eterno retorno do mesmo”). A própria ideia de progresso, como algo necessariamente positivo, é questionada por Rossi, que vê uma tensão entre esperança e angústia nas visões sobre o futuro desde o Renascimento. Esse debate deve ainda, por certo, examinar concepções de tempo (antigas ou modernas) fora das tradições europeias ou ocidentais, como no caso de tradições indianas de concepção do tempo cíclico (cf. BOGER, 2013); o tempo não como uma flecha, uma linha reta, mas como uma curva, sem começo nem fim.
Na visão de um dos principais escritores de ficção científica do século XX, o norte-americano Philip K. Dick (1928-1982), ficção científica seria um gênero caracterizado por tratar de ideias, por nos fazer pensar sobre diferentes possibilidades de ser e compreender a realidade. O filme A Chegada e o conto que o inspirou fornecem um ótimo ensejo para pensarmos nossas concepções de tempo, e o efeito que estas têm sobre nossas experiências de vida.

Referências bibliográficas:
BOGER, Simone Regina. O ciclo do tempo: a Índia e a perspectiva de renovação da história. São Paulo: Editora Brahma Kumaris, 2013.
CHIANG, Ted. História da sua vida e outros contos. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2016.
ROSSI, Paolo. O passado, a memória, o esquecimento: seis ensaios da história das ideias. São Paulo: Editora UNESP, 2010.

Prof. Pedro Afonso Cristovão dos Santos

Um comentário:

  1. Ótima análise, historiografica a respeito do filme.
    É importante quebra com este ensinamento cronológico europeu, pois há tantas linhas temporais pararela à do ocidente europeu, como o tempo asiático ou o do oriente Médio, e aprendê-los só nos faria ver o mundo de uma bem mais completa como os septoides no filme.

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