Pular para o conteúdo principal

A análise temporal na história: a abordagem de Braudel e a série "Dark"

 

A discussão sobre temporalidade na história é um tema fundamental e complexo, que tem sido objeto de debate entre historiadores e teóricos há muito tempo. Fernand Braudel, um dos principais expoentes da historiografia moderna, desenvolveu uma abordagem que propõe uma análise da história em diferentes camadas temporais, que se interconectam e se sobrepõem.

Braudel dividia o tempo histórico em três estratos: o longo prazo, que abrange as mudanças mais profundas e duradouras, como as estruturas econômicas e sociais; o médio prazo, que engloba os eventos políticos e culturais que acontecem em um intervalo de algumas décadas; e o curto prazo, que se refere aos acontecimentos cotidianos e às mudanças mais imediatas.

Essa abordagem pode ser aplicada a diferentes contextos históricos, incluindo produções culturais, como é o caso da série de streaming Dark, uma obra de ficção científica e de viagem no tempo que se passa em três períodos de tempo diferentes (1953, 1986 e 2019), e acompanha as consequências de um evento catastrófico que afeta gerações de personagens. No âmbito da série, o longo prazo se faz presente por meio das estruturas sociais e familiares que influenciam a trajetória dos personagens ao longo de décadas, incluindo as dinâmicas de poder e as relações entre pais e filhos. Já o médio prazo é caracterizado pelas transformações políticas e culturais ocorridas nos anos mencionados, as quais impactam de modo direto as escolhas e ações dos personagens. O curto prazo, por sua vez, é identificado nos acontecimentos cotidianos que constituem a trama da série, como as decisões tomadas pelos personagens e suas imediatas consequências na história. Ao aplicar a abordagem temporal de Braudel, Dark explora o efeito cumulativo de pequenos eventos e ações que, com o passar do tempo, acarretam impactos significativos e duradouros na vida dos personagens.

A discussão sobre a temporalidade na história é uma questão fundamental que envolve diferentes abordagens teóricas e metodológicas. A série Dark é um exemplo de como a temporalidade pode ser utilizada de forma criativa e complexa em uma produção cultural. A abordagem de Fernand Braudel é uma das muitas perspectivas que podem ser utilizadas para pensar esse tema complexo e fascinante, pois permite explorar o impacto de eventos em diferentes escalas temporais. Ao aplicar a abordagem de Braudel, Dark oferece uma visão rica e profunda da história e das relações humanas, pois explora as consequências de ações e eventos em diferentes momentos da história.

 


 

Referências

BRAUDEL, F. História e Ciências Sociais: a longa duração. Revista de História, [S. l.], v. 30, n. 62, p. 261-294, 1965. DOI: 10.11606/issn.2316-9141.rh.1965.123422. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/123422. Acesso em: 26 maio. 2023.

DARK. Criado por Baran bo Odar, Jantje Friese. Alemanha: Netflix, 2017-2020.

 

Jim Artie Roquette Valente, estudante de História da UNILA.

 

Postagens mais visitadas deste blog

Histórias transnacionais, História Global e História-mundo: conexões pela história

A partir do final do século XX, uma parcela dos historiadores, de diferentes origens, passou a questionar a predominância de uma perspectiva nacionalista da história. A compreensão dos Estados nacionais como unidades quase naturais (ou, ao menos, essencializadas) dos processos históricos, percepção que remonta à disciplinarização da História no século XIX, passou a ser contestada, tendo em vista os eventos históricos que marcaram a mudança para o nosso século. A mundialização, ou globalização, a formação de blocos transnacionais como a União Europeia e o Mercosul estão entre os eventos que formaram esse contexto de questionamento ao paradigma nacionalista. Em um movimento muito articulado aos estudos latino-americanistas, como apontou Barbara Weinstein (2013), os historiadores do outrora chamado “Terceiro Mundo”, em especial a partir das décadas de 1980 e 1990, puseram em dúvida sobretudo a ausência de protagonismo de suas regiões nas narrativas históricas. América Latina, África, Ási...

O núcleo integralista de Foz do Iguaçu (1935-1937)

MONTEIRO, Diego. O sigma nas cataratas: o Integralismo em Foz do Iguaçu (1935-1955). Epígrafe , São Paulo, v. 14, n. 2, p. 338–368, 2025. A Ação Integralista Brasileira (AIB) foi bastante presente no contexto paranaense. O ano de 1935 marcou um momento de fortalecimento, visto que, de  acordo com Rafael Athaides, além da capital do estado, Curitiba, mais regiões iniciaram a instalação e subsequente consolidação de seus próprios núcleos, sendo elas: o Litoral, o Sul, o Centro, o Norte e o extremo Oeste paranaenses (ATHAIDES, 2011, p. 16). O Oeste paranaense era considerado pelos integralistas da província paranaense como um lugar selvagem e isolado, porém de grande importância para que o movimento se tornasse presente desde o Oceano Atlântico até a fronteira do estado com Argentina e Paraguai (ATHAIDES, 2012, p. 129-130). A ideia de um extremo-oeste “remoto” e “vazio” não era exclusiva aos integralistas, pois, segundo Liliane da Costa Freitag (2007), o Estado brasileiro também consi...