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| Charge “A victoria do feminismo”, de Alceu Chichôrro. |
A Dominação Masculina, para Pierre Bourdieu (2002), ocorreria por diferentes práticas que dividem as funções do homem e da mulher no meio social, reservando a esfera pública, a soberania, espaços de poder ao homem e a esfera privada e espaços de menor prestígio às mulheres. O autor parte do pressuposto de que a sociedade, como é organizada e pensada, possui uma visão androcêntrica, tendo como ponto de referência e comparação sempre uma visão masculina.
Na visão de Bourdieu, as características de cada gênero seriam construídas buscando dividir e realçar diferenças entre os gêneros ditos enquanto opostos, fazendo ênfase a todas as visões culturalmente pertinentes a essa diferença. Essas divisões, como defende o autor, seriam inscritas socialmente nos corpos que promoveriam uma ordem masculina e poderiam ser observadas por meio das divisões sociais do trabalho, por exemplo, ou de rituais coletivos ou privados, que buscariam distanciar as mulheres das tarefas de maior prestígio social.
Buscamos, portanto, identificar como A Dominação Masculina seria incorporada pelo periódico O Dia, através de quatro publicações após a conquista do voto feminino no Rio Grande do Norte, em 1927. As quatro publicações se dividem em duas charges e duas piadas, que tratam da conquista do voto feminino no Brasil.
O jornal O Dia foi um empreendimento com fins comerciais, publicado diariamente na cidade de Curitiba que pertencia a um grupo de prestígio da cidade, tendo sido fundado, em 1923, por Caio Machado (1885-1954), jornalista e político, e David Carneiro (1870-1928), de família abastada pelo cultivo da erva mate no estado.
Na década de 1920, a luta pelo voto pelo voto feminino se tornou o foco principal das atividades da FBPF (Federação Brasileira pelo Progresso Feminino), criada em 1922. Para alcançar o tão almejado objetivo, foi realizada com uma campanha eficiente e muito bem difundida e as sufragistas brasileiras alcançaram seu objetivo principal em 1932. Bertha Lutz (1894-1976), principal representante do movimento nesse período, e a FBPF fizeram da imprensa e de conexões dentro da esfera governamental poderosas ferramentas políticas, ao mesmo tempo em que cresciam cada vez mais as adeptas ao feminismo em todo o Brasil (Hahner, 2003).
O primeiro estado brasileiro a ser espaço de conquista do voto feminino no Brasil é o Rio Grande do Norte. Raquel Soihet (2013), explicando esse processo, afirma que, com a candidatura e eleição do senador Juvenal Lamartine (1874-1956), a campanha pelo voto feminino tomou maior propulsão, e, sendo um dos políticos adesos à causa feminista, tinha o propósito de tornar a mulher eleitora e, também, elegível. Conforme João Batista Cascudo Rodrigues (1982), anteriormente à posse do cargo, Lamartine teria promovido as mudanças necessárias no código eleitoral do estado, solicitando a José Augusto Bezerra (1884–1971), que era o então presidente do estado, a inserção do art. 77 no Código Eleitoral do estado. O artigo promovia o direito de ser votado aos cidadãos que atendessem aos requisitos legais, independentemente do sexo, que se concretizou com a promulgação da Lei nº 660, em 25 de outubro de 1927.
A partir da conquista do voto feminino no Rio Grande do Norte e da discussão em torno desse ocorrido, trazemos, então, as publicações que fizeram parte do jornal diário O Dia, publicado diariamente na cidade de Curitiba e que trouxe em suas páginas, em diversos momentos, o debate sobre a conquista de direitos pelas mulheres e a emancipação feminina.
As charges são uma forma sarcástica, direta e humorística de trazer o conteúdo ao público, assim como as piadas, sendo interessante considerar que esses textos ocuparam lugares de certa relevância nas edições: as charges de Alceu Chichôrro (1896- 1977) ocuparam sempre as capas e as piadas estavam presentes na página 2, na coluna Escapamento Livre. A charge selecionada, como já mencionado, pertence ao autor Alceu Chichôrro que, usando o pseudônimo de Eloy, ilustrava as páginas d’O Dia com seu personagem Chico Fumaça.
A charge foi publicada em 09 de novembro de 1927 na capa da edição, na parte inferior esquerda e ganha destaque na página. Era composta por um homem e uma menina, ainda criança, que aparentavam ser pai e filha e conversavam sobre a conquista do voto feminino no Rio Grande do Norte. A menina diz: “Eu queria ser senadora!...” e o pai responde: “Não póde ser filha; senadora vae ser sua avó, eu arranjarei para você o logar de consul na ilha das Marrecas!...” A charge é denominada Scena Futura, tendo em vista a recente conquista das mulheres e, portanto, infere-se que a ilustração buscaria trazer uma previsão do futuro da sociedade, em que meninas sonhariam com cargos políticos desde criança (O Dia, 09 nov. 1927, capa).
Charge “Scena futura” (O Dia, 09 nov. 1927, capa)
O diálogo pareceu demonstrar ironia e sarcasmo ao tratar da conquista das mulheres no estado potiguar. A menina, tida enquanto ingênua, desejaria um cargo de patente alta na política e o pai fez piada com a situação, afirmando que ela teria um cargo de cônsul, representante diplomático de determinada localidade enviado ao estrangeiro, na ilha das marrecas, um lugar fictício que aparentou tratar de maneira ofensiva às mulheres.
Outra charge que fez uso de sarcasmo ao tratar da questão foi publicada na capa da edição de 17 de novembro de 1927 e estava localizada na parte inferior esquerda da página, em um tamanho que ganha destaque. A ilustração era composta por uma mulher de cabelos curtos, com vestido curto que possuía abertura nas costas e salto alto com as pernas cruzadas. A figura feminina ocupava boa parte da imagem e ela segurava um boneco de um soldado, enquanto o personagem Chico Fumaça e seu companheiro Totó estavam ao fundo, observando.
A mulher, apresentada no diálogo como A Feminista, afirmou: “Agora podemos votar e ser votadas. Só nos resta cair no sorteio militar e formarmos córpos, batalhões e exquadras…” O Fumaça, responde: “Ahi sim… serei militarista! Vou servir num corpo de mulher!...” (O Dia, 17 nov. 1927, capa).
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Charge “A victoria do feminismo”, de Alceu Chichôrro. |
As vestimentas e o penteado da mulher representada na charge apresentam uma ideia de mulher moderna, que mostrava as pernas, as costas e possuía cabelos curtos, uma imagem sexualizada da mulher. A mulher afirmava que, agora, podendo votar e ser votada, poderia entrar para o serviço militar, fazendo uma crítica à luta das mulheres: se conquistaram o direito de votar, deveriam ter também o dever de entrar para o serviço militar. Chico Fumaça fez um trocadilho com a palavra ‘corpo’, em que, no contexto trazido pela mulher, significa o conjunto formado por soldados e, Fumaça associa ao corpo feminino. A charge parece ironizar a conquista feminina e, a partir dela, fez um trocadilho de cunho sexual, objetificando o corpo feminino, objeto do desejo masculino.
O tom satírico em relação aos direitos femininos não era exclusivo das charges de Chichôrro. Na coluna denominada Escapamento Livre, foram trazidas diversas piadas sobre o assunto, sempre com um teor que aparentava ridicularizar a possibilidade de participação política das mulheres. Segue um exemplo da referida coluna publicada em 03 de dezembro de 1927:
Referências
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 2ª ed. Tradução de Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
HAHNER, June Edith. Emancipação do sexo feminino: a luta pelos direitos da mulher no Brasil, 1850-1940. Trad. Eliane Tejera Lisboa. Florianópolis: Ed. Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2003.
RODRIGUES, João Batista Cascudo. A mulher brasileira: direitos políticos e civis. 2ª Ed. Editora Renes: Rio de Janeiro, 1982.
SOIHET, Rachel. Feminismos e antifeminismos: mulheres e suas lutas pela conquista da cidadania plena. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013.
Texto de: Larissa Souza de Lima, mestranda em História - PPGHIS/Unila
Revisão: Rosangela de Jesus Silva, docente da área de História da Unila.
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