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La independencia y el indígena, de Branislava Susnik: considerações sobre o trabalho dos intelectuais durante a ditadura do general Alfredo Stroessner (1954-1989) no Paraguai.

La filóloga y antropóloga eslovena Branislava Susnik (Medvode, 28 de marzo de 1920-Asunción, 29 de abril de 1996)

Em 8 de maio, foi realizada a primeira reunião do Grupo de Estudos sobre Paraguai, composto por docentes e estudantes da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) e da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE).

O primeiro texto debatido foi La independencia y el indígena, de Branislava Susnik (1920-1996). O livro foi publicado em 2011 pela editora Intercontinental, como parte da Coleção Independência Nacional. Naquele ano, o Paraguai comemorou o bicentenário de sua independência. O texto de 2011 é uma versão resumida de El rol de los indígenas en la formación y en la vivencia del Paraguay, publicado originalmente em dois volumes em 1982 e 1983. A versão publicada pela Intercontinental concentra-se nos impactos da colonização sobre os povos indígenas que habitavam o atual território paraguaio.

Neste texto, nosso objetivo é pensar a obra em seu contexto original de publicação, o início da década de 1980, quando o general Alfredo Stroessner ainda estava no governo paraguaio (1954-1989). A leitura da obra levanta questões importantes sobre a biografia de Susnik, sua produção intelectual e as implicações políticas, diretas ou indiretas, do seu trabalho.

Susnik nasceu em Medvode, no então Reino da Iugoslávia. Atualmente a cidade faz parte da Eslovênia. Em 1947, no pós-Segunda Guerra Mundial, emigrou para a Argentina e, em 1951, chegou ao Paraguai a convite de Andrés Barbero, fundador do Museu Etnográfico – ainda existente em Asunción. Segundo Guido Rodríguez Alcalá, no final da Segunda Guerra,

(…) ella abandonó Yugoslavia para evitar (según sus propias palabras) los campos de concentración. Las persecuciones no le impidieron adquirir una sólida formación universitaria en su país y otros países europeos. Sus estudios abarcaban la arqueología, la historia, la etnografía y la lingüística. (…). Su gran conocimiento de los idiomas comprendía el de diecinueve idiomas indígenas. Eso le daba suficiente solvencia para comprender a los indígenas del Paraguay. (Alcalá, 2011, p. 7).

Em 1952, Barbero faleceu e Susnik assumiu a direção do Museu Etnográfico, função que desempenhou até sua morte em 1996. Ou seja, Susnik esteve à frente da instituição durante toda a ditadura Stroessner. Além disso, por aproximadamente 20 anos, chefiou o Departamento de Arqueologia e Etnologia Americana na Faculdade de Letras da Universidade Nacional de Asunción (UNA).

Um dos motivos apontados pela historiografia para explicar a longa duração da ditadura Stroessner é a repressão. No entanto, a colaboração e a subserviência também explicariam a longevidade do ditador paraguaio no poder. (López, 2010). É comumente destacada a “coloradização” da sociedade paraguaia, ou seja, o seu domínio pelo Partido Colorado e seus filiados, ainda que os motivos da adesão ao Partido variassem da espontaneidade à conveniência, passando pela necessidade de sobrevivência em meio a uma ditadura. (Nickson, 2010). Partido Colorado é o “nome popular” da Associação Nacional Republicana (ANR) à qual pertencia Stroessner.

A colaboração, a subserviência e a “coloradização” também atingiram o meio intelectual. Porém, a trajetória e a obra de Susnik indicam que houve resistências e limitações na adesão dos intelectuais ao stronismo.

A leitura de La independencia y el indígena demonstra a crítica da autora ao mito oficial de formação do Paraguai, calcado na perspectiva da mestiçagem harmoniosa entre o europeu e o indígena, mais precisamente o guarani. Susnik aponta os impactos da colonização sobre a organização sócio cultural dos diferentes povos indígenas; as divergências entre os colonizadores sobre a melhor forma de efetivar a colonização; desenvolve como se acentuaram as diferenças entre os povos indígenas e como se criaram novas cisões, inclusive internamente aos grupos, e aborda as revoltas indígenas contra os colonizadores. Em um momento no qual a ditadura Stroessner evocava o lema “Paz e Progresso”, a pesquisa de Susnik evidenciava os diversos confrontos que marcavam a história do território paraguaio.

Poderíamos citar diferentes exemplos, mas um dos mais representativos é a descrição que a autora faz do mestiço, em confronto tanto com os espanhóis e criollos quanto com os indígenas. Os mestiços, sem o mesmo direito de explorar a mão de obra indígena como os espanhóis e os criollos, estimulavam revoltas indígenas, mas, segundo Susnik, visavam atender unicamente aos seus próprios interesses econômicos:

(...) el mestizo, viéndose prejudicado porque no recibía suficientes encomiendas, comenzó a luchar contra los españoles y criollos (…).

(…).

Los mestizos no hacían, sin embargo, ningún tipo de promesa a los guaraníes; ellos buscaban simplemente que se amotinasen para luego poder hacer de nuevo sus rancheadas y apoderarse de los guaraníes y obligarlos a prestarles servicios. (Susnik, 2011, p. 59-60).

Um dos pontos mais interessantes da obra é o relato que a autora faz sobre os tavá, os povos indígenas. Os tavá foram organizados pela Coroa espanhola para racionalizar a produção econômica, reunindo os indígenas em um mesmo espaço e controlando a ação de criollos e mestiços sobre essas populações. A autora destaca que os tavá contavam com governos indígenas. Contudo, esses governos costumavam ser submissos à administração colonial:

El administrador generalmente quería un corregidor y un cabildo pasivo que aprobaran simplemente todos sus planes y así los administradores solían enriquecerse sobre la base de su manejo económico de los táva. Por eso trataban de contar con corregidores y un Cabildo indio que estuvieran de acuerdo con sus planes. Si bien el Cabildo, de acuerdo con las leyes, tenía que ser elegido anualmente por los guaraníes, lo cierto es que se formaron ciertas élites que usufructuaban los cargos casi permanentemente. (Susnik, 2011, p. 115-116).

Susnik valoriza a legislação espanhola, mas ressalta as limitações da participação indígena no governo dos tavá. Ao apontar “elites que usufruíam os cargos quase permanentemente”, não há como não pensar em Stroessner e seus aliados, que estavam no poder desde 1954, graças a eleições fraudulentas. É preciso cautela para não realizarmos uma leitura da obra de Susnik condicionada pela política paraguaia do período. No entanto, tampouco deve ser minimizado o peso do presente sobre como olhamos e problematizamos o passado.

Para citar um último exemplo das vinculações da obra com o Paraguai do início dos anos 1980, Susnik menciona as mudanças sofridas pelos indígenas chaquenhos, os quais eram originalmente coletores, caçadores e pescadores. Já contemporaneamente à sua pesquisa, a autora menciona que os indígenas chaquenhos exigiam “terras com sentido de bem produtivo”, porque toda a extensão do Chaco “seria insuficiente para eles, em virtude do empobrecimento da fauna e da grande mudança ecológica”, o que os levou a se adaptarem “às necessidades de sobrevivência biológica e cultural”. (Susnik, 2011, p. 100-101). Assim, o texto evidenciava problemas fundiários no país, em meio a um governo que se jactava de levar adiante a reforma agrária através do Instituto do Bem Estar Rural, fundado em 1963. Muitos anos depois da queda de Stroessner em 1989, o relatório final da Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai denunciou o uso do Instituto para distribuir terras entre aliados da ditadura.

Lorena Soler argumenta que a história das Ciências Sociais durante a ditadura Stroessner deve ser entendida a partir da “modernização conservadora” promovida pelo seu governo e não da vontade pessoal do ditador. Dentre outros pontos, a “modernização conservadora” aumentou o êxodo rural, a urbanização e a pressão sobre o ensino superior paraguaio. A autora considera, ainda, que a institucionalização internacional da área repercutiu no Paraguai:

Esto ocurría en un clima mundial de renovación cultural y politización profunda que, sin duda, tuvo un impacto marcado en los años 1960 y 1970 en Asunción, aun cuando el stronismo había puesto en marcha un feroz aparato represivo y policíaco de cara a impregnar de terror, miedo y sospechas el encuentro social. (Soler, 2014, s./p.).

Apesar de a pesquisa de Soler se concentrar na Sociologia, consideramos que apresenta elementos importantes para uma compreensão mais ampla do papel dos intelectuais no período, especialmente daqueles não alinhados com a ditadura. La independencia y el indígena pode ser lido como um exemplo da persistência dos intelectuais para manterem a sua autonomia e o exercício de crítica sobre o passado e o presente do país durante a ditadura de Stroessner, ainda que de modo “silencioso e solitário”, conforme expressa a biografia de Susnik no site do Museu Etnográfico, o qual dirigiu por tantos anos. (Museo Etnográfico Dr. Andres Barbero de la Fundación La Piedad, s./d., s./p.).


La filóloga y antropóloga eslovena Branislava Susnik (Medvode, 28 de marzo de 1920-Asunción, 29 de abril de 1996)
Branislava Susnik. Fonte da imagem: Alcalá, 18 ago. 2019.
REFERÊNCIA:

ALCALÁ, Guido Rodríguez. Branislava Susnik, exploradora del Paraguay. ABC Color, Asunción, 18 ago. 2019. Disponível em: <https://www.abc.com.py/edicion-impresa/suplementos/cultural/2019/08/18/branislava-susnik-exploradora-del-paraguay/>. Acesso em: 20 mai. 2026.

ALCALÁ, Guido Rodríguez. Prólogo. In: SUSNIK, Branislava. La independencia y el indígena. Asunción: Intercontinental, 2011.

LÓPEZ, Miguel H. Stroessner e “Eu”: a cumplicidade social com a ditadura (1954-1989). In: ROLLEMBERG, Denise; QUADRAT, Samantha Viz. (Org.). A construção social dos regimes autoritários. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

MUSEO ETNOGRÁFICO DR. ANDRES BARBERO DE LA FUNDACIÓN LA PIEDAD. Biografía Dra. Branislava Susnik. Disponível em: <https://www.museobarbero.org.py/bio-branislava-susnik.php>. Acesso em: 20 mai. 2026.

NICKSON, Andrew. El régimen de Stroessner (1954-1989). In: TELESCA, Ignacio (Org.). Historia del Paraguay. Asunción: Taurus, 2010.

SOLER, Lorena. “De pronto la Iglesia nos obligó a ser sociólogos”. Socialización política y stronismo. Los estudiantes de sociología de la Universidad Católica de Asunción (1971-1976). Nuevo Mundo, Nuevos Mundos, 2014. Disponível em: <https://journals.openedition.org/nuevomundo/66560>. Acesso em: 20 mai. 2026.

SUSNIK, Branislava. La independencia y el indígena. Asunción: Intercontinental, 2011.

Texto de: Paulo Renato da Silva, professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).

Revisão: Rosangela de Jesus Silvadocente da área de História da Unila.

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