Pular para o conteúdo principal

O núcleo integralista de Foz do Iguaçu (1935-1937)


MONTEIRO, Diego. O sigma nas cataratas: o Integralismo em Foz do Iguaçu (1935-1955). Epígrafe, São Paulo, v. 14, n. 2, p. 338–368, 2025.

A Ação Integralista Brasileira (AIB) foi bastante presente no contexto paranaense. O ano de 1935 marcou um momento de fortalecimento, visto que, de  acordo com Rafael Athaides, além da capital do estado, Curitiba, mais regiões iniciaram a instalação e subsequente consolidação de seus próprios núcleos, sendo elas: o Litoral, o Sul, o Centro, o Norte e o extremo Oeste paranaenses (ATHAIDES, 2011, p. 16).

O Oeste paranaense era considerado pelos integralistas da província paranaense como um lugar selvagem e isolado, porém de grande importância para que o movimento se tornasse presente desde o Oceano Atlântico até a fronteira do estado com Argentina e Paraguai (ATHAIDES, 2012, p. 129-130). A ideia de um extremo-oeste “remoto” e “vazio” não era exclusiva aos integralistas, pois, segundo Liliane da Costa Freitag (2007), o Estado brasileiro também considerava essa região como um “vazio demográfico”.

A fim de justificar a colonização do Oeste, o Estado brasileiro perpetuou o discurso oficial de que a região oeste do Paraná seria ‘vazia’, ‘isolada’, ‘praticamente abandonada’, e entregue à ação das obrages estrangeiras, isto é, latifúndios cujos objetivos eram a exploração de erva-mate e de madeira por trabalhadores em péssimas condições de trabalho e de vida (PRIORI et al. 2012, p. 78-80). O território era, de fato, de difícil acesso. Entrar nele somente era possível por meio da navegação pelo Rio Paraná, da estrada de ferro Guaíra-Porto Mendes e de uma rota terrestre, em péssimas condições de travessia, que conectava Guarapuava a Foz do Iguaçu. Para complicar a situação, o transporte via barco ou trem era controlado pelo governo argentino e pela Companhia Mate Laranjeira, uma empresa de origem paraguaia (PRIORI et al. 2012,  p. 80).

O próprio Plínio Salgado, Chefe Nacional da AIB, já havia pensado o Oeste, em seu romance A Voz do Oeste, ambientado no período colonial brasileiro, como um espaço desabitado, que, através de uma marcha heróica dos bandeirantes paulistas, deveria ser civilizado por meio da ocupação e da conquista (MELLO; TREVISAN, 2023, p. 141). Esse discurso é semelhante ao utilizado pelos partidários de Plínio Salgado para sua expansão ao oeste paranaense, porém, desta vez, os “bandeirantes” seriam os próprios integralistas.

Conforme Athaides, a proximidade com as Cataratas do Iguaçu era um fator carregado de simbolismo para os militantes do integralismo. Jorge Lacerda, um dos principais nomes da AIB no Paraná e diretor do jornal integralista curitibano A Razão, chegou a comentar nas páginas do periódico que, devido à presença das cataratas, seus companheiros integralistas de Foz do Iguaçu poderiam até “sentir a propria voz do Brasil, espumando desesperadamente na garganta incomensurável de seus abismos, como num grito de dôr e de desespero, dirigido ao céo, que parecia, já nos havia abandonado” (A Razão, 27/09/1935). A fundação de um núcleo integralista na Tríplice Fronteira era, então, uma questão simbólica, política e ideologicamente importante para os principais nomes da AIB no Paraná.

Foi no A Razão que, em 1935, mais precisamente em agosto, apareceram as primeiras informações sobre os adeptos do integralismo em Foz do Iguaçu. De acordo com o jornal, havia, naquela ocasião, 36 filiados à AIB na cidade, que ainda não possuía seu núcleo formado oficialmente. Este seria formalmente oficializado entre o final de outubro e o início de novembro do mesmo ano, chefiado pelo então professor e diretor do Grupo Escolar Bartolomeu Mitre, Carlos Zewe Coimbra (A Razão, 07/10/1935). A notícia não chegou por acaso. Carlos Zewe se correspondia com o jornal de Curitiba, sendo responsável por enviar as informações do núcleo da fronteira até a capital, conseguindo também novas assinaturas para A Razão. Entre elas, destaca-se a de Frederico Eschmann, um colono de Villa San Pedro, no Paraguai, que teria se interessado pelo conteúdo do jornal-propaganda do integralismo. Ao final de outubro de 1935, A Razão noticiava que o núcleo iguaçuense já contava com 58 membros, um crescimento expressivo em poucos meses de existência (A Razão, 07/10/1935).

Em novembro daquele ano, informações sobre o braço da AIB em Foz do Iguaçu apareceriam novamente nas páginas de um jornal do Sigma, desta vez no A Offensiva:


Um dos ultimos que teve seu nucleo installado foi o longinquo e fronteiriço municipio de Foz do Iguassú, limitrophe com o Paraguay e a Argentina. Entregues os seus destinos ao enthusiasmo e ao ardor jovem do bravo companheiro Zeve Coimbra, o recem-fundado nucleo da Foz do Iguassú se apresenta desde já como um dos mais futurosos da provincia paranaense, sendo extraordinario o numero de Inscriptos até esta data (A Offensiva, 16/11/1935, p. 10).


Como é possível observar, há uma ênfase do jornal ao quão distante é o município de Foz do Iguaçu, levando em consideração, é claro, que A Offensiva era publicado no Rio de Janeiro, à época capital da República. Uma interpretação possível é que, ao mostrar que o integralismo havia chegado até os limites do país, o periódico realiza uma exaltação do alcance da ideologia e do partido (AIB), com o intuito de provocar uma sensação de que o movimento estava no auge de sua popularidade. Além disso, pode-se perceber, neste trecho, uma manifestação do caráter nacional da Ação Integralista Brasileira. Ao contrário dos partidos estaduais que dominavam a política no Brasil dos primeiros anos da República até a década de 1930, a AIB se mostrava como um partido de mobilização nacional, que estaria presente em todos os cantos da nação. É interessante comentar também que apesar de mencionar que havia um “extraordinário numero de inscriptos”, a matéria em questão não fornece os números exatos de membros que fariam parte do núcleo iguaçuense.

O “bravo companheiro com ardor jovem” era natural da cidade da Lapa, também no Paraná. Carlos Zewe Coimbra foi professor e diretor do Grupo escolar Bartolomeu Mitre, vereador de Foz do Iguaçu e, posteriormente, por um pequeno período, chegou a presidir a câmara municipal local, no período entre 1936 e 1937.

De acordo com os registros das Atas das Sessões Ordinárias da Câmara Municipal de Foz do Iguaçu, Coimbra assumiu, pela primeira vez, uma cadeira na casa em 1932, ainda como membro do Partido Social Democrático (PSD), e retornou em setembro de 1936 como suplente. Essa filiação seria o assunto inicial de que trataria em um discurso seu, transcrito na ata da sessão ordinária de 30 de setembro de 1936, atribuído, porém, à sessão do dia 28 de setembro do mesmo ano, de cunho bem acalorado, que se inicia com uma explicação inicial, em tom de prestação de contas, do então vereador aos demais companheiros de legislatura.

Ao discursar, Carlos Zewe se apresentava como fundador do núcleo integralista de Foz do Iguaçu, pelo qual, segundo ele, se tornou chefe. Sua migração partidária teria ocorrido após um desentendimento doutrinário e ideológico com seu ex-partido, o PSD, principalmente porque, segundo Coimbra, o partido não havia apresentado “programma algum” ao município. A troca, ainda de acordo com o vereador, teria ocorrido pouco tempo após as eleições municipais de 1935, nas quais foi eleito como suplente pelo PSD. Porquanto, dizia-se livre para tomar qualquer posição política que desejasse dentro da câmara. Entretanto, alegava que, desde que se declarou integralista, “não teve mais sossego” e passou a ser perseguido dentro e fora do meio político. Para demonstrar citou suas exonerações dos cargos de inspetor escolar do município e, principalmente, dos postos de professor e de diretor do Grupo Escolar Bartolomeu Mitre, o qual ocupava desde 1931. Por fim, destacou seus afastamentos como ilegais. Nas suas palavras, sentia-se, no entanto, realizado: “Os meus inimigos gratuitos estão contentes, porém eu rio-me delles e sinto-me feliz de ter cumprido com o meu dever” (Ata da Sessão Ordinária do dia 30/09/1936).

Citando o lema do movimento: “Deus, Pátria e Família”, Coimbra continuou o discurso, se declarando como “integralista convicto” e se designando como representante do integralismo naquela câmara, ao lado de seu “prezado chefe” e dos demais “companheiros de ideal" lá presentes.

Quanto ao “prezado chefe” ao qual Carlos Zewe Coimbra se refere em seu discurso, trata-se do ex-prefeito e, à época, vereador de Foz do Iguaçu, Heleno Schimmelpfeng. Membro de destaque da política local naquele contexto, Heleno era filho de Jorge Schimmelpfeng, primeiro prefeito do município. Seguindo os passos de seu pai, foi nomeado prefeito em 1928, sucedido em 1930 por Júlio Pasa (SILVA, 2014). Continuou na política municipal como vereador e, com a criação do núcleo integralista da cidade em 1935, se filiou ao partido de Plínio Salgado.

De acordo com uma ficha individual de Carlos Zewe Coimbra produzida pela DOPS, por volta de 1936, Schimmelpfeng assumiu a chefia do núcleo de Foz do Iguaçu, após uma renúncia de Coimbra, possivelmente motivada pelas exonerações que o professor sofreu por sua opção partidária (DOPS/PR, Ficha Individual 09.313).

Em novembro de 1936, Coimbra foi eleito para a presidência da câmara, cargo que ocupou até o fechamento da casa após o golpe do Estado Novo em 1937. Carlos Zewe Coimbra, Heleno Schimmelpfeng e os “demais companheiros de ideal” permaneceram por pouco tempo, cerca de alguns meses a um ano, como vereadores e militantes integralistas na cidade. Entretanto, um episódio legislativo se destaca: em 4 de junho de 1937, Heleno Schimmelpfeng pediu que a câmara nomeasse um representante em Curitiba para que este “agisse junto aos poderes públicos”. Para isso, indicou o chefe da província paranaense da AIB, o advogado Manoel Vieira Barreto de Alencar, para ocupar o cargo, sugestão que, de acordo com a ata do mesmo dia, foi aprovada por unanimidade pelos presentes na sessão.

Ao final de 1937, com o fechamento da câmara, Coimbra foi remanejado pelo interventor do Paraná, Manoel Ribas, para a cidade de Cornélio Procópio, ao norte do estado, onde, de acordo com a documentação da DOPS, continuou a exercer suas atividades como militante integralista.

Este texto é uma versão adaptada do meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em História - Licenciatura, na UNILA, defendido em novembro de 2025. A quem se interessar pelo assunto, o trabalho foi publicado como artigo pela Revista Epígrafe, da Universidade de São Paulo, o qual está listado nas referências bibliográficas abaixo.

Referências Bibliográficas

Fontes

A Razão. Curitiba, Ano I, Nº 18, 22, 23 e 26. Delfos - Espaço de Documentação e Memória Cultural/Instituto de Cultura, PUCRS - Porto Alegre, RS. A Offensiva. Rio de Janeiro, Ano II, Nº 79, 16 de novembro de 1935. Fundo Plínio Salgado. Arquivo Público Histórico de Rio Claro/SP.

Heleno Schimmelpfeng: Auto de apreensão e auto de declarações, 02/10/1943. Prontuário 499b, Topografia 55. Dossiê “Subdivisão Policial de Foz do Iguaçu”, Dops-PR, Arquivo Público do Paraná.

Livros-ata das Sessões Ordinárias da Câmara de Vereadores de Foz do Iguaçu: Períodos de 1914-1933, 1936-1947 e 1947-1956. Arquivo da Câmara Legislativa Municipal de Foz do Iguaçu.

Bibliografia

ATHAIDES, Rafael. A instalação da província paranaense da AIB: do “início esquecido” à fundação oficial (1932-1934). IN: Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH, São Paulo, 2011.

______. As paixões pelo sigma: afetividades políticas e fascismos. 2012. Tese (Doutorado) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2012.

FREITAG, Liliane da Costa. Extremo-oeste paranaense: história territorial, região, identidade e (re)ocupação. Tese (Doutorado em História). Universidade Estadual Paulista (UNESP), Franca, 2007. 

MELLO, A. D. de B.; TREVISAN, N. P. A “geografia fantástica” e a polêmica identidade paulista: A Voz do Oeste de Plínio Salgado (1895-1975). Boletim Paulista de Geografia, 1(109), 2023, pp. 132–145. 

PRIORI, Angelo; et al. A história do Oeste Paranaense. IN: ______. História do Paraná: séculos XIX e XX. Maringá: Eduem, p. 75-89, 2012.

SILVA, Micael Alvino da. Breve História de Foz do Iguaçu. Foz do Iguaçu: Epígrafe, 2014.

Texto por: Diego Monteiro, Mestrando em História pelo PPGHIS da UNILA.

Revisão: Rosangela de Jesus Silva, docente da área de História da UNILA.

Postagens mais visitadas deste blog

“Se for, vá na paz”: Bacurau, solidariedade e a insubmissão dos povos marginalizados.

Fachada do museu de Bacurau. Disponível em: < https://revistarosa.com/1/ bacurau-a-proposito-de-sangue- mapas-e-museus >. Acesso em: 21 mai. 2026.   No ano de 2026, o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho vivenciou o ponto mais alto de sua carreira com as indicações ao Oscar do filme “O agente secreto”. Todavia, essa não foi a primeira vez em que um lançamento de Kleber estimula discussões e alcança grande repercussão midiática. Se em “O Agente Secreto”, ele percorre a Recife de 1977 para abordar a perseguição da ditadura militar brasileira executada contra o professor universitário Armando, no filme Bacurau , lançado em 2019 e pelo qual ganhou o prêmio do júri no Festival de Cinema de Cannes, ele busca evidenciar a luta pela sobrevivência de uma comunidade que vive isolada no sertão nordestino. Em Bacurau , o povo mostra que não está fadado às mesmas tragédias que vitimaram seus antepassados. Consciência que o Brasil de hoje necessita aprender. A história do filme gira...

"Progresso Americano" (1872), de John Gast.

Progresso Americano (1872), de John Gast, é uma alegoria do “Destino Manifesto”. A obra representa bem o papel que parte da sociedade norte-americana acredita ter no mundo, o de levar a “democracia” e o “progresso” para outros povos, o que foi e ainda é usado para justificar interferências e invasões dos Estados Unidos em outros países. Na pintura, existe um contraste entre “luz” e “sombra”. A “luz” é representada por elementos como o telégrafo, a navegação, o trem, o comércio, a agricultura e a propriedade privada (como indica a pequena cerca em torno da plantação, no canto inferior direito). A “sombra”, por sua vez, é relacionada aos indígenas e animais selvagens. O quadro “se movimenta” da direita para a esquerda do observador, uma clara referência à “Marcha para o Oeste” que marcou os Estados Unidos no século XIX. Prof. Paulo Renato da Silva. Professores em greve!