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Cena do filme '7 Cajas' (2012).O peso do desconhecido: Victor e o fardo das sete caixas que prometiam uma saída, mas trouxeram o perigo. No labirinto do Mercado 4, cada passo é uma negociação entre a vida e a morte
Na filosofia contemporânea o pesquisador Achille Mbembe, em sua obra, conceitualiza um fenômeno o qual denomina através do termo “Necropolítica”, que descreve o poder de decidir sobre quem deve viver e quem pode ser abandonado à morte. (MBEMBE, 2018) É o poder passivo do soberano, aqui representado através do Estado. Outro processo intimamente relacionado à Necropolítica é o capitalismo. Durante a colonização, o corpo humano tornou-se o primeiro objeto de apropriação capitalista, sendo transformado em mercadoria para sustentar sistemas de exploração e acumulação. Esse processo inicial resultou na escravização e exploração de populações marginalizadas, criando uma hierarquia racial econômica que se perpetua até os dias atuais.
No contexto contemporâneo, essas mesmas populações continuam a ser as principais vítimas das políticas de tortura, controle e violência legitimadas pelo poder soberano, revelando a continuidade histórica de mecanismos de opressão estruturados pelo capitalismo. Dentro desse mecanismo, a morte se torna uma mercadoria, assim como os corpos que são considerados matáveis. Ou seja, alvos de uma desumanização violenta que os tornaria invisíveis da proteção e do reconhecimento do Estado e da Sociedade. Um exemplo que podemos trazer é a forma como os sujeitos que habitam nas comunidades são tratados pelo Estado, que ignora direitos, se omite, além de não demonstrar interesse pelas demandas desses grupos. Manifestando-se dentro desse contexto, o Estado age através da Necropolítica, adotando uma postura de negligência em relação a esses corpos os quais são desumanizados.
Apesar da inação estatal, no âmbito das artes, as denúncias manifestam-se de forma significativa e constante. Em 2012, os cineastas Juan Carlos Maneglia e Tana Shémbori lançaram o filme intitulado 7 Cajas, que destaca a visibilidade de indivíduos marginalizados por meio dos personagens que transitam e trabalham no mercado 4, situado na cidade de Assunção. No decorrer da apresentação da história, é possível identificar processos que evidenciam a marginalização e a destruição simbólica de indivíduos considerados "invisíveis" em uma sociedade estruturada em torno de dinâmicas de poder e exclusão, que são representados através de personagens que simbolizam a luta cotidiana pela sobrevivência, em um contexto permeado por desigualdades sociais e econômicas.
Ao longo da narrativa, somos apresentados aos personagens, com destaque para o protagonista, Victor, seu nome, que poderia ser associado à ideia de "vitória", contrasta de forma marcante com sua realidade pontuada pelo trabalho informal e mal remunerado, na qual não há espaço para conquistas significativas. Encantado pela possibilidade de alcançar a fama, Victor descobre uma maneira de gravar vídeos de si mesmo utilizando um celular que sua irmã mais velha está negociando com uma amiga. No mercado, Victor é contratado para transportar sete caixas, sob a condição explícita de não saber o conteúdo que está carregando. Essa restrição não apenas ressalta a precariedade de sua condição socioeconômica, evidenciado pela afirmação de sua irmã, que pontua a impossibilidade de Victor adquirir o celular devido ao seu elevado custo, como também evidencia sua submissão às dinâmicas de controle exercidas pelo ambiente em que vive.
Também conhecemos outro personagem chamado Nelson, encarregado de transportar as 7 caixas com Victor, e que enfrenta uma situação crítica ao precisar adquirir um medicamento para seu bebê gravemente doente. Posteriormente, é revelado que cada caixa ou caixote contém partes do corpo de uma mulher brutalmente assassinada pelos homens que contrataram Victor e Nelson para realizar o transporte, expondo a violência extrema e a desumanização presentes nas relações de poder e exploração retratadas no filme.
Apesar de seus esforços para negociar a compra a crédito na farmácia, seu pedido é categoricamente recusado pela funcionária, evidenciando a barreira de acesso a recursos essenciais imposta por sua condição socioeconômica. Nelson também está inserido no mesmo sistema opressor que envolve Victor e, em decorrência das desigualdades estruturais que permeiam sua realidade, acaba trabalhando para o mesmo empregador que ofereceu a Victor o enigmático trabalho de transporte das caixas. É possível identificar a atuação da Necropolítica ao longo do filme, manifestando-se de forma contundente nas vidas de todos os personagens apresentados, ao evidenciar como suas existências são reguladas e precarizadas por um sistema que decide quem pode viver e quem está destinado à morte social ou física.
Podemos citar, por exemplo, que em uma das cenas do filme, observa-se a presença de um homem, uma mulher, uma pessoa transgênero e um homem algemado, todos interagindo com um policial que também está sentado na mesma caminhonete. Em seguida, um corpo é descartado de forma abrupta e desprovida de qualquer cerimônia no interior do veículo. Essa cena revela a naturalização da morte naquele contexto, evidenciada pela ausência de qualquer demonstração de espanto ou pesar por parte dos envolvidos. A morte, nesse cenário, assume um caráter banal e recorrente, sendo encarada como um evento cotidiano, inclusive pelos agentes da autoridade policial presentes.
Agrupá-los em um mesmo veículo simboliza a convergência de suas trajetórias marcadas pela precariedade, destacando que todos, direta ou indiretamente, são vítimas das dinâmicas de exclusão e controle impostas pela Necropolítica. Isso inclui também os personagens que representam os bandidos no filme, os quais, inseridos na mesma dinâmica estrutural, acabam expostos e se tornam alvos vulneráveis ao roubo e à própria violência que impõem a outras pessoas. Em uma das cenas os bandidos são assaltados por dois adolescentes que no momento do assalto, furtam seus celulares. Exploradores e explorados são impactados de maneiras distintas, contudo, essa circularidade evidencia como a Necropolítica exerce sua influência de forma incisiva sobre os sujeitos marginalizados. Esse processo perpetua ciclos de opressão e vulnerabilidade, consolidando dinâmicas de exclusão que atravessam e estruturam as relações sociais.
Dentro desse ciclo, é perceptível que a vida perde seu valor intrínseco, uma vez que a ausência dos meios básicos de sobrevivência desumaniza os indivíduos, relegando-os a uma condição de existência precária e descartável. A banalização da morte permeia todo o filme, manifestando-se de maneira contundente em diversos momentos. Em uma cena específica, Victor, sentado sobre um dos caixotes, é recriminado por sua amiga chamada Lis, que naquele momento acha uma falta de respeito da parte de Victor. Ao justificar sua atitude, Victor afirma que "ela já está morta", referindo-se à mulher que havia sido esquartejada, cujos restos mortais foram distribuídos em sete caixotes. Essa fala não apenas revela a indiferença frente à brutalidade da violência, mas também evidencia a desvalorização intrínseca da vida humana, refletindo a naturalização da precariedade e do sofrimento no contexto social retratado.
De acordo com o Victor Evangelista dos Santos (2024) os objetos de consumo tornam-se símbolos de distinção social, refletindo as desigualdades estruturais que delimitam a percepção do indivíduo negro dentro das relações hierárquicas de ser e não-ser. Podemos introduzir dentro do universo de “7 cajas”, que o anseio de Victor e sua amiga Liz pelo celular ilustra como as dinâmicas de consumo na sociedade contemporânea foram apropriadas pelo ideário capitalista, evidenciando não apenas a centralidade dos bens materiais como mediadores de status e pertencimento, mas também a ausência de empatia e o esvaziamento de valores éticos relacionados à vida humana.
Nesse contexto em que a exposição se perpetua de forma exaustiva, esses indivíduos tornam-se alvos vulneráveis à violência e à desumanização. Victor, acompanhado por sua amiga Liz, revela a ausência de acesso a formas de lazer ou alternativas que promovam a construção de perspectivas de esperança. A ilusão de escapar do cenário de negligência estatal conduz ambos à banalização da morte, embora por caminhos distintos, enquanto redirecionam suas aspirações à obtenção de um celular que, ao transcender sua funcionalidade prática, emerge como um símbolo de pertencimento social e de projeção identitária. Esse objeto encapsula a tentativa de afirmar sua existência em um contexto de precariedade e exclusão sistêmica, tornando-se reflexo das dinâmicas perversas da falta de políticas sociais e da atuação desenfreada da Necropolítica.
Portanto, o filme constitui-se como uma ferramenta cultural que denuncia as desigualdades sociais impostas pelo Estado e por sua máquina de barbárie, que subjuga corpos marginalizados à violência de suas práticas cruéis.
Referências Bibliográficas
BELLO, Luiz. Censo 2022: Brasil tinha 16,4 milhões de pessoas morando em favelas e comunidades urbanas. Agência de Notícias do IBGE, 8 nov. 2024. Disponível em: <https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/41797-censo-2022-brasil-tinha-16-4-milhoes-de-pessoas-morando-em-favelas-e-comunidades-urbanas>. Acesso em: 3 out. 2025.
EMICIDA; RAEL. Levanta e Anda. In: O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui. [S.l.]: Laboratório Fantasma, 2013. 1 disco sonoro.
FERREIRA, antonio celso Literatura: A fonte fecunda. In: PINSKY, carla bassanezi, LUCA, tania regina de (ORGS). o historiador e suas fontes. São paulo: Contexto, 2017 ou 2009
MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política de morte. 1. ed. Editora n-1, 2018.
SANTOS, V. E. O Objeto de Distinção Social: A realidade do negro frente a dinâmica do ser e não-ser. 2024.
(Este texto foi escrito como atividade da Disciplina "Poéticas Latino-Americanas V", ofertada pelo professor Marcelo Marinho do Curso de Letras, no segundo semestre de 2024.)
Juliana Mendes Sá, graduada em História- América Latina na Unila. Email: mendessajuliana@gmail.com
Revisão: Rosangela de Jesus Silva, Professora da área de História da Unila.
