A produção da consciência e o adoecimento na urbanidade: uma análise sob a ótica do materialismo histórico-dialético e da psicologia histórico-cultural
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A vida urbana contemporânea não é um cenário neutro, mas uma objetivação das necessidades de reprodução do capital. A organização das cidades, os tempos de deslocamento e a precarização dos serviços são determinações materiais que precedem a consciência individual. Como aponta Alvares (2021), o materialismo se contrapõe ao idealismo ao entender que a matéria existe antes do pensamento; logo, a forma como as relações sociais são desenhadas determina a base da nossa psique (ALVARES, 2021, p. 1).
O esgotamento sentido pelo sujeito urbano não é uma escolha de estilo de vida ou uma falha de “gestão de tempo”, mas uma resposta à base material que reduz a existência humana à sua capacidade produtiva. Essa estrutura impõe jornadas exaustivas e uma pressão constante por desempenho que aniquila o tempo de descanso e o autocuidado.
À luz do materialismo histórico-dialético, tais condições configuram a “imagem subjetiva da realidade objetiva”, onde o sujeito passa a se perceber prioritariamente como um apêndice do processo produtivo, vinculado a um trabalho que pouco imprime significado à sua experiência vital (ALVARES, 2021, p. 7).
Para compreender a profundidade desse adoecimento, é preciso resgatar a categoria trabalho como fundamento ontológico do ser social. O trabalho é a atividade por meio da qual o ser humano transforma a natureza e, nesse processo, transforma a si mesmo, humanizando-se. No entanto, sob a égide do capital, essa relação sofre uma inversão radical.
A pesquisa social revela que o trabalhador, ao ser historicamente separado dos meios de produção, perde o controle sobre o processo e o produto do seu trabalho, rompendo-se o nexo entre sua atividade vital e o sentido do seu esforço (OLIVEIRA et al., 2011, p. 54).
Predomina, assim, a ideia do trabalho como mero meio de sobrevivência: gerar riquezas sem usufruir do que foi gerado. Nesse processo de alienação, a essência do ser humano é pervertida e reduzida ao status de mercadoria, tornando-se um objeto no interior do meio de produção.
A Psicologia Histórico-Cultural (Melo; Lima: Oliveira Neto, 2023), postula que a consciência é mediada por instrumentos e signos, sendo a “palavra” o principal produtor de sentido a partir do que o indivíduo compreende e encarna em sua própria subjetividade. Contudo, na lógica produtiva contemporânea, os sentidos são capturados por uma semântica do capital.
Quando o que está posto na lógica social são expressões como “o trabalhador é digno do seu salário” ou a glorificação do “sacrifício”, o que se produz em termos de sentido é inversamente relacionado ao conceito do trabalho como força criativa.
Conforme discutido em Tuleski, Chaves e Leite (2019), o método materialista permite desvelar como a lógica produtiva fragmenta a autopercepção do sujeito, limitando o cuidado de si à manutenção do sustento (TULESKI; CHAVES; LEITE, 2019, p. 28). A ideia do descanso é marginalizada e rotulada como “preguiça”, exigindo que até o ócio seja produtivo.
Nesse contexto, a criatividade deixa de ser necessária e todos passam a produzir sob uma lógica de esteira, onde o ser humano vê-se limitado à mera funcionalidade técnica. Essa fragmentação leva a duas cisões críticas no processo de viver. A primeira refere-se à fragmentação da ideia comunitária, na qual os significados construídos coletivamente deixam de pertencer ao comum. A segunda diz respeito à fragmentação da própria pessoa, que passa a compreender que a vida se resume ao labor, não havendo nada além dessa lógica.
Quando o sujeito se torna inapto às atividades socialmente estabelecidas, rompe com essa estrutura e, geralmente, é patologizado. O surgimento de diagnósticos como o Burnout, são reflexos de um adoecimento que é, na sua raiz, histórico e social. Tuleski, Franco e Calve (2021) argumentam que a psicologia deve estar comprometida com a classe trabalhadora, combatendo a visão de que o sofrimento psíquico se reduz ao organismo individual (TULESKI; FRANCO; CALVE, 2021, p. 15).
O sofrimento é a expressão das contradições de classe no interior do capitalismo. A pessoa adoece não por uma falha química isolada, mas por ser classificada como “anormal” ou “irresponsável” por um sistema que exige produtividade baseada na repetição de processos e na inibição da criatividade, para que a mecanização do trabalho seja capaz de gerar lucro na sociedade de consumo.
Diante desse cenário, a psicologia não pode oferecer apenas estratégias adaptativas. Conforme propõem Melo, Lima e Oliveira Neto (2023), a práxis na clínica histórico-cultural deve visar a uma “clínica da transformação” (MELO; LIMA; OLIVEIRA NETO, 2023, p. 12). Isso implica reconhecer que o sofrimento psíquico é o resultado de um desenvolvimento impedido pelas amarras da exploração. O objetivo terapêutico desloca-se da “cura” de um organismo isolado para o fortalecimento do sujeito como ser social.
A clínica deve atuar na mediação entre o sofrimento e a consciência, auxiliando o indivíduo a apropriar-se da sua história para romper com a alienação e reencontrar o sentido criativo do seu agir. A saúde mental, portanto, é compreendida como o exercício da liberdade e da consciência em oposição à automação imposta pela vida urbana.
A reconstrução social do sentido do trabalho implica, necessariamente, um agir coletivo e uma ação política. O ponto fundamental de conscientização reside na compreensão de que o adoecimento não se reduz ao corpo ou à psique isolada, mas encontra suas raízes nas condições concretas de existência.
As respostas a essas questões, como a luta pela redução das jornadas e pela escala 6x1, produzem ações de prevenção e promoção da saúde que precisam ser construídas pela classe trabalhadora organizada. Como afirmam Oliveira et al. (2011), o ser humano não nasceu para a mera sobrevivência; sua essência reside em imprimir significado no mundo (OLIVEIRA et al., 2011, p. 203).
Em última análise, a produção de saúde constitui uma forma de compreender a vida e o trabalho sob a ótica da dignidade. A superação do adoecimento social enfrenta-se na mediação entre a realidade concreta e as ações que visam oferecer à classe trabalhadora novos meios de intervenção social. Produzir sentido para o coletivo é uma experiência capaz de gerar novas subjetividades e reorganizar a relação do ser humano com o mundo.
Ao fundamentar-se no materialismo histórico-dialético e na clínica da transformação (MELO; LIMA; OLIVEIRA NETO, 2023, p. 45), a psicologia oferece não apenas um suporte ao sofrimento, mas uma ferramenta de emancipação, devolvendo ao trabalho seu caráter de força criativa, produtora de sentidos e de vida.
A análise das condições concretas de existência na urbanidade contemporânea revela que o sofrimento psíquico não é um erro de percurso, mas um produto da organização social. No entanto, a Psicologia Histórico-Cultural propõe que, se o homem é transformado pelas circunstâncias, ele também tem o potencial de transformar essas mesmas circunstâncias através da Práxis.
É neste ponto que a clínica assume um papel fundamental, deixando de ser um espaço de “ajustamento” do trabalhador ao sistema para tornar-se uma clínica da transformação. Como afirmam Melo, Lima e Oliveira Neto (2023), a prática clínica orientada pelo materialismo histórico-dialético deve focar no desenvolvimento das funções psíquicas superiores que foram atrofiadas pela alienação. O burnout, por exemplo, deixa de ser visto apenas como esgotamento individual e passa a ser compreendido como um impedimento do desenvolvimento do ser social.
A clínica, portanto, atua na mediação entre o sofrimento e a consciência, auxiliando o sujeito a apropriar-se da sua própria história e das ferramentas culturais para agir sobre o mundo de forma consciente.
Essa perspectiva clínica converge com a necessidade de uma “prática social transformadora” defendida por Alvares (2021, p. 7). A saúde deixa de ser a ausência de sintomas e passa a ser a capacidade do sujeito de exercer sua atividade vital de forma significativa.
Ao invés de oferecer apenas o alívio paliativo, a clínica da práxis busca reestabelecer o nexo entre o fazer e o sentir, rompendo com a fragmentação imposta pelo fordismo e pela exploração do tempo. A reconstrução social do sentido do trabalho implica, necessariamente, um agir coletivo.
O ponto fundamental de conscientização reside na compreensão de que o adoecimento não se reduz ao organismo individual, mas encontra suas raízes nas condições concretas de existência. A produção de saúde, nesses termos, constitui uma ação política de alta relevância: trata-se de devolver ao ser humano a valoração de sua ação criativa e a dignidade de sua existência para além do valor monetário.
As obras de Tuleski et al. (2019, 2021) e Oliveira et al. (2011) fornecem a base para entender que a luta pela saúde mental é, no fundo, a luta contra a lógica da mercadoria. Quando o cuidado se torna uma prática coletiva e a classe trabalhadora organizada intervém na realidade — reivindicando tempos e espaços que respeitem o ritmo humano — o trabalho pode voltar a ser um espaço de impressão de significado.
Em suma, produzir sentido é uma ação constitutiva do ser. A psicologia, ao fundamentar-se no materialismo histórico-dialético e na clínica da transformação (MELO; LIMA; OLIVEIRA NETO, 2023), oferece ao sujeito não apenas uma forma de sobreviver à urbanidade, mas a possibilidade de superá-la, transformando o sofrimento em motor de emancipação social.
Abimael Rodrigues dos Santos: graduado em Psicologia (UNICSUL); Mestrando em Ciência da Religião (PUC-SP).
Revisão: Rosangela de Jesus Silva: professora da área de História da UNILA
Referências
ALVARES, Deborah Miranda. O Método Materialista Histórico-Dialético e suas possíveis contribuições para pesquisas em educação, 2021.
MELO, Aline Guilherme de; LIMA, Ana Ignez Belém; OLIVEIRA NETO, José da Silva (org.). Práxis na clínica histórico-cultural: por uma clínica da transformação e do desenvolvimento. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2023. 258 p.
OLIVEIRA, Isabel Fernandes de; PAIVA, Ilana Lemos de; COSTA, Ana Ludmila Freire; COELHO-LIMA, Fellipe; AMORIM, Keyla (org.). Marx hoje: pesquisa e transformação social. São Paulo: Outras Expressões, 2011. v. 1. 284 p.
TULESKI, Silvana Calvo; CHAVES, Marta; LEITE, Hilusca Alves (org.). Materialismo histórico-dialético como fundamento da psicologia histórico-cultural: método e metodologia de pesquisa. 2. ed. Maringá: Eduem, 2019. 182 p.
TULESKI, Silvana Calvo; FRANCO, Adriana de Fátima; CALVE, Tiago Morales (org.). Materialismo histórico-dialético e psicologia histórico-cultural: expressões da luta de classes no interior do capitalismo. Paranavaí: EduFatecie, 2021. 438 p. E-book. Disponível em: https://doi.org/10.33872/edufatecie.materialismoepsicologia. Acesso em: 17 fev. 2026.