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| Fonte: BCC, [1965].In: Banco de Conteúdos Culturais (BCC). Disponível em: http://www.bcc.org.br/fotos/galeria/017652. Acesso em: 8 jun. 2026. |
Em 1965, o Brasil ganhava uma de suas obras mais ricas e influentes da história do cinema nacional. Dirigido e escrito por Luís Sérgio Person, São Paulo Sociedade Anônima expõe a realidade vivida por inúmeros trabalhadores em meio ao processo de industrialização, que até hoje sujeita operários a condições precárias em fábricas não só no Brasil, mas em toda a América Latina.
Inicialmente, somos introduzidos ao protagonista Carlos em um momento conturbado de sua vida em meio à "selva de concreto" da crescente capital paulista. O filme intercala presente e passado a fim de mergulhar na vida pessoal do personagem e das mulheres que o cercam, ao mesmo tempo em que retrata a rápida e intensa industrialização paulista, especialmente a automobilística, que explodiu na Grande São Paulo no final da década de 1950.
Até o fim da primeira metade, a obra utiliza diversos recursos narrativos para conferir energia à obra, como exemplo disso se destaca a edição do longa, que vai e volta no tempo e intercala diferentes momentos de forma ágil, a fim de demonstrar o estilo de vida frenético de um jovem vivendo na metrópole. A partir de uma montagem não linear e composições ricas em detalhes, o espectador é bombardeado com informações, ficando preso à tela por uma trama aparentemente sem rumo. Essa estrutura reflete o acentuado processo industrial brasileiro, impulsionado principalmente a partir do ano de 1956 como uma das principais campanhas do governo Juscelino Kubitschek.
O então presidente possuía metas ambiciosas para a nacionalização da indústria, utilizando o transporte e a manufatura como alicerces para validar seu slogan político: "50 anos em 5" e o seu Plano de Metas governamental. Segundo o artigo O DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL BRASILEIRO NO GOVERNO JK E SEUS IMPACTOS SOCIAIS, dos economistas Vinicius Costa Brandão e Carla Adriana Meneses da Rocha, “O Plano de Metas tinha entre suas diretrizes o investimento em infraestrutura e em energia, grandes investimentos nos setores da indústria de siderurgia e automobilística” (BRANDÃO e ROCHA, 2016, p.02)
Dessa forma, o filme nos aproxima de Carlos enquanto acompanha sua rotina, na qual ele busca um emprego e frequenta um curso de inglês. É nesse contexto que conhecemos as personagens femininas fundamentais para a história: Hilda e Luciana. Carlos é apresentado como um homem falho e, por vezes, grosseiro com suas parceiras; contudo, no início do filme, vemos seu cotidiano de forma frenética e vital, assim como das jovens mulheres que o cercam, as quais também expressam uma perspectiva de prosperidade e futuro, condizente com o crescimento econômico da capital.
A partir desse ponto, com os protagonistas estabelecidos, o longa muda sua linguagem e adere a um tom macabro e fúnebre, com a trilha sonora e a direção de arte se transformando gradualmente em algo desconfortável e desesperançoso. Revelam-se as tragédias da vida de Carlos e as máquinas ganham cada vez mais espaço na trama, chegando a sufocá-lo. As sombras ganham mais proeminência e contraste, criando momentos sombrios e melancólicos que representam os indivíduos em meio a uma cidade que parece não ter fim. A cidade de São Paulo ganha vida e se torna um personagem próprio, estabelecendo uma relação de desamparo e hostilidade para com o protagonista, que se vê preso às atribuições da fábrica, alienando-se da própria realidade em prol do labor. Tudo o que o cerca gera sentimentos de ansiedade, uma vez que o remete ao trabalho na fábrica, a dominação do ambiente laboral se encontra em cada rua, esquina ou comércio por onde passa, tornando nosso protagonista um prisioneiro desse sistema.
A fotografia brilha nesse quesito, criando composições que refletem da energia jovial dos protagonistas no início ao desamparo e solidão de se viver em favor do trabalho em uma cidade que torna seus moradores ocultos em meio aos grandes edifícios e centros comerciais: desde os momentos românticos do início até o terror brutal das fábricas e da metrópole que consome os sujeitos. Gradualmente, os personagens desaparecem em meio a multidões, prédios e automóveis, como se, em uma cidade de milhões de habitantes, todos fossem reduzidos ao anonimato imposto pelo capitalismo. A vida que Carlos possuía no início já não existe, o que é simbolizado por um novo personagem: Arturo, a representação da burguesia fabril. A importância de Arturo cresce conforme ele apresenta a Carlos o modelo de vida a ser seguido: trabalhar, casar, ter uma família e trabalhar ainda mais; modelo que traduz o conservadorismo do sistema patriarcal que serve de sustento para o funcionamento do capitalismo. Daí em diante, o que fazia sentido para Carlos desaparece e o homem que antes era questionado moralmente pelo espectador converte-se apenas mais uma estatística da exploração, se tornando desprovido de sua própria humanidade e fadado ao trabalho eterno.
O longa manifesta ainda a corrupção que compõe a falsa e efêmera prosperidade desse sistema. Expõe as engrenagens de uma estrutura comercial que opera mediante a limitação de sindicatos e a superexploração da classe social mais vulnerável: aqueles que o sistema tenta invisibilizar para renegá-los direitos mínimos. Fica claro que a futilidade e a fartura burguesa dependem diretamente da precariedade de inúmeros operários, o que se reflete na escrita de Brandão e Rocha “ainda em 1961, visualizamos que a lógica produtiva se manteve a mesma, servindo aos interesses das classes dominantes, adotando políticas que aumentassem os seus lucros, independentemente dos impactos que tais políticas podiam gerar nas camadas populares da sociedade.” (BRANDÃO e ROCHA, 2016, p.06)
O roteiro ironiza a lógica do capital ao destacar um Brasil que, mesmo em crise, reergue-se por meio das fábricas que dominam a paisagem das megacidades. Aparentemente, seus funcionários alcançam melhores condições, aprendendo até novas línguas. Contudo, o filme mantém o espectador atento e em dúvida sobre esse "progresso", refletindo na idealização que o Estado pretendia criar no cotidiano de seus cidadãos, conforme citado pelos economistas “desde sua campanha para a presidência da República, JK passou para a população o sentimento patriótico de colocar o Brasil em outro patamar dentro do cenário econômico mundial, fazendo com que o povo vislumbrasse melhor qualidade devida através desta nova lógica de desenvolvimento nacional.” (BRANDÃO, ROCHA, 2016, p.02)
O arco de Hilda (e, posteriormente, de Luciana) choca o público com um desfecho inesperado e melancólico. Uma morte repentina abre uma nova ótica: a da felicidade fácil e passageira que entrega corpos exaustos a um sistema doentio. Após o decesso dessa figura central, a direção renuncia ao estilo frenético e adota um ritmo mais padrão e monótono, espelhando a vida de Carlos, que retoma o alcoolismo e perde sua intensidade jovial.
Portanto, diante desse contexto, observamos Carlos ser gravemente afetado pela vida urbana capitalista. As consequências são sentidas não apenas por ele, mas por sua família, colegas e pelo público. O filme ecoa na figura de todos os demais "Carlos" e "Lucianas": trabalhadores exaustos que vagam pelas selvas de concreto resultantes do avanço liberal ocidental, presentes em São Paulo ou em qualquer outro centro tocado pelo modo de produção capitalista. E assim, ao chegarmos no epílogo da obra, sentimos o peso desta segunda metade do longa, que acaba com qualquer força e animosidade apresentadas no prólogo, resultadas de um destino exploratório e carente de qualquer prazer da vida fora do trabalho.
REFERÊNCIA:
BRANDÃO, Vinicius Costa. ROCHA, Carla Adriana Meneses da. o desenvolvimento industrial brasileiro no governo jk e seus impactos sociais, Informe Econômico, Julho, 2016. Disponível em: https://periodicos.ufpi.br/index.php/ie/article/view/1679/1504
Texto de: Júlio Cézar Cordeiro Pereira, estudante de História – Licenciatura na UNILA.
Revisão: Rosangela de Jesus Silva, docente da área de História da Unila.
