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| Elaboração própria (2026). |
Toda escola tem um jeito próprio de funcionar. Tem escola em que os estudantes circulam com mais liberdade, conversam mais com os professores e participam das decisões. Tem escola em que tudo é mais rígido, silencioso e controlado. Tem escola em que o grêmio estudantil é valorizado. Tem escola em que qualquer tentativa de organização dos alunos já é vista como problema. Nada disso acontece por acaso.
É aqui que entra uma ideia importante para quem estuda educação: a cultura escolar. De modo simples, cultura escolar é o conjunto de normas, práticas, valores, rituais, símbolos e formas de comportamento que organizam a vida dentro da escola. Ela aparece no currículo, nas regras de convivência, no uniforme, nas filas, nos horários, nas punições, nas festas, nos murais, nas reuniões, nos conselhos de classe e até na maneira como professores, estudantes, direção e funcionários se tratam no cotidiano.
A cultura escolar não está apenas nos documentos oficiais. Ela está também na prática. Uma lei pode dizer uma coisa, o projeto político-pedagógico pode dizer outra, e a vida real da escola pode funcionar de um jeito bem diferente. Por isso, estudar cultura escolar exige olhar para além da legislação. É preciso observar como as regras são aplicadas, como os sujeitos resistem, adaptam ou reproduzem essas regras, e como cada escola transforma normas gerais em práticas concretas.
Mas existe uma diferença importante entre cultura escolar e cultura da escola. A cultura escolar é mais ampla. Ela envolve padrões historicamente construídos no sistema educacional, como a divisão das turmas por séries, o controle do tempo por aulas, a autoridade do professor, a avaliação por notas, a ideia de disciplina e a organização dos conteúdos. Já a cultura da escola diz respeito ao modo particular como cada instituição vive tudo isso. É o “jeito daquela escola”. Duas escolas podem seguir o mesmo currículo e a mesma legislação, mas ter ambientes muito diferentes.
O ensino de História entra nessa discussão porque ele ajuda a mostrar que a escola não é uma coisa natural, pronta e imutável. A escola tem história. Suas regras têm história. Seus rituais têm história. A forma como os estudantes são avaliados, organizados, vigiados ou convidados a participar também tem história. Quando a aula de História mostra isso, ela deixa de ser apenas um espaço para decorar datas e passa a ser uma ferramenta para compreender a vida social.
Ensinar História, nesse sentido, não é simplesmente contar o que aconteceu no passado. É ajudar os estudantes a entenderem como o passado se relaciona com o presente e como essa relação influencia as escolhas do futuro. Uma aula de História pode discutir a ditadura militar, por exemplo, mas também pode perguntar como práticas autoritárias permanecem em instituições democráticas. Pode estudar a escravidão, mas também discutir o racismo presente nas relações escolares. Pode tratar da história dos movimentos estudantis e, ao mesmo tempo, refletir sobre a participação dos alunos na escola de hoje.
É aí que aparece a educação histórica. Enquanto o ensino de História pode ser entendido como a prática de ensinar conteúdos históricos, a educação histórica se preocupa com algo mais amplo: como as pessoas aprendem a pensar historicamente. Ela pergunta como os estudantes constroem sentidos sobre o tempo, como interpretam fontes, como comparam versões, como percebem mudanças e permanências, e como usam o conhecimento histórico para se orientar na vida.
Para Rüsen, a História ganha sentido quando ajuda os sujeitos a interpretar suas experiências no tempo e a se orientar na vida prática. É por isso que o ensino de História não deve ser visto apenas como transmissão de conteúdos, mas como formação da consciência histórica. Em outras palavras, o aluno aprende História para compreender de onde vêm certas práticas, por que elas permanecem e como podem ser transformadas.
“a consciência histórica é a suma das operações mentais com as quais os homens interpretam sua experiência...” (RÜSEN. 2001)
A consciência histórica aparece quando o estudante entende que a escola onde ele vive não nasceu pronta: suas regras, símbolos, conteúdos, formas de disciplina e critérios de comportamento foram definidos historicamente. Por isso, também podem ser analisados, questionados e transformados. Em modelos escolares mais rígidos, por exemplo, rituais de disciplina, controle da aparência e registros de comportamento não apenas organizam a rotina, mas ajudam a produzir uma identidade escolar baseada na obediência, na padronização e na vigilância.
A imagem abaixo ajuda a visualizar como uma cultura da escola pode ser produzida a partir de práticas institucionais. Documentos oficiais não ficam apenas no papel: eles podem orientar a padronização das práticas, fortalecer rituais e símbolos, controlar condutas e formas de apresentação pessoal, criar registros disciplinares e, com isso, contribuir para a formação de uma determinada identidade escolar. Mas esse processo nunca é mecânico. A cultura da escola também é feita de resistências, adaptações e disputas vividas no cotidiano.
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| Elaboração própria (2026). |
O ensino de História pode transformar a cultura escolar quando torna visível aquilo que parecia natural. Por que alguns corpos são mais vigiados do que outros? Por que certas histórias aparecem nos livros didáticos e outras quase nunca aparecem? Por que a participação estudantil às vezes é tratada como indisciplina? Essas perguntas não servem para “bagunçar” a escola, mas para formar sujeitos capazes de pensar criticamente, investigando fontes, versões, conflitos, mudanças e permanências.
Uma atividade simples pode transformar a própria escola em objeto de estudo. Os estudantes podem pesquisar a história da instituição, entrevistar ex-alunos, analisar fotografias antigas, consultar atas, observar mudanças no bairro, estudar antigos regimentos internos e comparar regras de diferentes períodos. Com isso, percebem que a escola também é um espaço histórico. Ela muda com o tempo, carrega disputas e guarda memórias.
Outra possibilidade é trabalhar com a história das experiências dos próprios estudantes. Muitas vezes, a escola trata os alunos apenas como quem deve receber conhecimento. Mas cada estudante chega à sala de aula com experiências familiares, culturais, religiosas, territoriais, raciais, de gênero e de classe. Essas experiências não são obstáculos ao conhecimento. Elas podem ser ponto de partida para uma aprendizagem mais profunda. Thompson ajuda a pensar isso quando valoriza a experiência como algo produzido na vida concreta das pessoas, e não como simples opinião sem importância.
Isso é fundamental para a formação de professores. Um futuro professor de História precisa compreender que a sala de aula não é um espaço vazio onde ele simplesmente deposita conteúdo. A sala de aula já tem cultura, conflitos, memórias, medos, expectativas e desigualdades. Ensinar História exige lidar com tudo isso. Exige escutar os estudantes, mas também oferecer instrumentos para que eles ultrapassem explicações imediatas e consigam interpretar historicamente suas próprias experiências.
Por isso, o ensino de História pode contribuir para a cultura escolar em dois sentidos. Primeiro, ajudando os estudantes a compreenderem a escola como parte da sociedade e da história. Segundo, ajudando a própria escola a repensar suas práticas. Uma escola que se pergunta sobre sua história, seus símbolos, suas regras e suas formas de poder tem mais condições de construir relações democráticas.
No fundo, a grande questão é esta: que tipo de sujeito a escola quer formar? Um sujeito que apenas obedece? Um sujeito que decora informações? Ou um sujeito que entende o mundo, participa dele e consegue imaginar mudanças possíveis? A resposta não depende apenas do currículo escrito. Depende da cultura escolar vivida todos os dias.
É por isso que o ensino de História importa tanto. Ele não muda a escola sozinho, mas pode abrir brechas. Pode transformar uma regra em pergunta, um ritual em objeto de análise, uma memória esquecida em tema de aula, uma experiência individual em reflexão coletiva. Quando isso acontece, a História deixa de ser apenas uma disciplina do passado e passa a ser uma prática de leitura crítica do presente.
Referências Bibliográficas
JULIA, Dominique. A cultura escolar como objeto histórico. Revista Brasileira de História da Educação, Campinas, n. 1, p. 9-43, jan./jun. 2001.
RÜSEN, Jörn. Razão histórica: teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Tradução de Estevão de Rezende Martins. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
SCHMIDT, Maria Auxiliadora; GARCIA, Tânia Maria F. Braga. A formação da consciência histórica de alunos e professores e o cotidiano em aulas de História. Cadernos CEDES, Campinas, v. 25, n. 67, p. 297-308, set./dez. 2005.
BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2008.
THOMPSON, E. P. A miséria da teoria ou um planetário de erros. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.
Texto Por: Gabriel Cesar Brunório
Graduado em História Licenciatura (UNILA) e Mestrando em História (UEPG )
Revisão:
Rosangela de Jesus Silva, docente da área de História da UNILA.

