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O Cinema da Denúncia: Cláudio Assis e sua Marginalidade do Real.

Imagens retiradas do Portal Adoro Cinema.


Essa postagem origina-se de uma pesquisa, em nível de doutorado, que encontra-se em andamento. A hipótese que norteia a pesquisa é a validação da existência de um projeto estético e político no interior da linguagem cinematográfica do cineasta Cláudio Assis. Para o processo de investigação partimos, primeiramente, como fonte os filmes Amarelo Manga (2003), Baixio das Bestas (2006) e Febre do Rato (2011).
Os três títulos têm como diretor o cineasta Cláudio Assis. Não há uma linearidade narrativa nestas produções, mas há a presença de escolhas estéticas e políticas que sinalizam para a existência de um projeto estético e político no interior desta linguagem cinematográfica.
Como base na problemática principal, a pesquisa até então desenvolvida buscou traçar ao leitor o problema da autoria cinematográfica, que se apresenta como necessária para podermos situar Cláudio Assis como autor e dar-lhe a outorga de estabelecer um projeto cinematográfico em suas obras. Além disso, observarmos os filmes, descortinando a sua composição estética e as questões narrativas e sociais. Para compreender qual projeto cinematográfico é este que queremos mostrar e defender ao leitor. 
Anterior ao processo de pesquisa cabe destaque que nossa pesquisa está circunscrita em um diálogo entre História e Cinema. O objeto Cinema-Filme, para o historiador, data do final do século XX. Dentro dos ditames da pesquisa histórica, Marc Ferro foi o primeiro intelectual que chamou atenção sobre essa aproximação. Em sua obra Cinema e História (1992), no capítulo “Coordenadas para uma Pesquisa”, Ferro (1992, p. 17) aborda:


Entre cinema e história, as inferências são múltiplas, por exemplo: na confluência entre a História que se faz e a História compreendida como relação de nosso tempo, como explicação do devir das sociedades. Em todos esses pontos o cinema intervém. (...) Desde que o cinema se tornou uma arte, seus pioneiros passaram a intervir na história com filmes, documentários ou de ficção, que, desde sua origem, sob a aparência de representação, doutrinam ou glorificam.

Ferro (1992) deixa claro que o Cinema intervém na sociedade, buscando explicá-la. Mas sabe-se que não é somente isso, o Cinema traz várias versões da sociedade, criadas em prol dos interesses de um determinado grupo social, ou ainda, pode ser vista como arma ideológica para alteração do status quo.
Frente ao que o Cinema pode realizar na esfera social, Ferro (1992, p. 15) aponta:

Não é suficiente constatar que o cinema fascina e inquieta: os poderes públicos e o privado pressentem também que ele pode ter um efeito corrosivo e que, mesmo controlado, um filme testemunha. Noticiário ou ficção, a realidade cuja imagem é oferecida pelo cinema parece terrivelmente verdadeira. É fácil perceber que ela não corresponde necessariamente às afirmações dos dirigentes, aos esquemas dos teóricos, à análise das oposições.

O filme ganha uma autonomia quando entra em contato com o público, pois, no processo de troca, na recepção, não é possível controlar quais caminhos interpretativos serão postos à obra em questão. É de se observar que, por esse motivo, o Cinema inquieta e questiona, isto é, inquieta o público e quem produz, e questiona a todos.
O historiador Robert Rosenstone, em sua obra A história nos filmes, os filmes na história (2015), traça a relação entre os filmes e a História, pontuando que os filmes, sejam históricos ou não, também registram/escrevem a História, e salienta que, através de uma visão desconstrutivista, os filmes narram a História do mesmo jeito que são narrados em páginas.
Ainda mais, pensando na importância das mídias sociais para a reflexão social, ele nos traz exemplos de algumas polêmicas:

Na França, o documentário de três horas e meia de Marcel Ophuls sobre a colaboração dos franceses com os nazistas, A Dor e a Piedade, foi mantido fora do canal estatal que o financiou e quando A Batalha de Argel, banido por duas décadas, finalmente estreou na década de 1980, arruaceiros de direita vandalizaram algumas salas em que o filme estava sendo exibido. Na Alemanha, Uma Cidade Sem Passado foi denunciado por mostrar que os líderes de uma cidade eram cúmplices do regime nazista (Rosenstone, 2015, p. 16).


Anterior ao movimento das censuras aos produtos audiovisuais, havia obras cinematográficas que deram abertura às temáticas de caráter social:


Na Argentina, o longa-metragem dramático A História Oficial deu publicidade ao caso dos Desaparecidos, as pessoas que sumiram durante o regime militar, e conquistou apoio para as Mães da Praça de Maio, um movimento de mulheres que procuravam seus filhos e filhas desaparecidas. Nos Estados Unidos, a polêmica em torno de JFK – A Pergunta que não quer calar gerou a abertura de um inquérito parlamentar sobre o relatório da Comissão Warren a respeito do assassinato do presidente (Rosenstone, 2015, p. 17).


Portanto, é imprescindível compreender que a fonte cinematográfica, particularmente os filmes, torna-se, evidentemente, uma fonte para a História, uma vez que revela imaginários, visões de mundo, padrões de comportamento, mentalidades, sistemas de hábitos, hierarquias sociais cristalizadas em formações discursivas e tantos outros aspectos vinculados a uma determinada sociedade historicamente localizada (Barros, 2012).
No quadro abaixo, é possível visualizar todos os caminhos possíveis que o binômio Cinema-História nos oferece como trilha para a reflexão histórica:

Fonte: Barros (2012, p. 62).


O quadro fornece os caminhos para o ofício do historiador. Logo, nossa pesquisa está centrada em compreender os filmes do Cláudio Assis como representações de uma sociedade, englobando ainda a sistematização deste fundo representacional, fundamentado em intenções e dirigidos para a concretização de um projeto cinematográfico fincado em escolhas estéticas e políticas.
Observamos que:

O cinema é “produto da história” – e, como todo produto, um excelente meio para a observação do “lugar que o produz”, isto é, a sociedade que o contextualiza, que define a sua própria linguagem possível, que estabelece os seus fazeres, que institui as duas temáticas. Por isso, qualquer obra cinematográfica - seja um documentário ou pura ficção – é sempre portadora de retratos, de marcas, de indícios significativos da sociedade que a produziu. (...) A mais fantasiosa obra cinematográfica de ficção tem por trás de si ideologias, imaginários, relações de poder, padrões culturais (Barros, 2012, p. 67-68).


Estudar o local de produção e o local que o filme busca projetar/representar na tela é uma das incumbências  dos estudos históricos do Cinema. Visualizar os temas que aparecem em determinado filme em torno da sua fundamentação histórica dá massa para a análise a ser feita. Observar o filme como produto e como objeto artístico requer um olhar duplo. Assim,

Ao tratar o filme como agente ou como fonte, o historiador terá de fazer face ao complexo e fundamental problema da reconstrução do real, seja no nível das relações sociais, seja no nível da psicologia social, das chamadas mentalidades ou do imaginário, ou ainda das articulações destas com a ideologia e com as relações sociais de determinada sociedade (Nóvoa, 2012, p. 46).

O estudo dos filmes no campo histórico requer uma metodologia própria, que traz elementos específicos das ciências vizinhas e da área da comunicação, assim, nos estudos:

Devem-se tanto examinar o discurso falado e a estruturação que se manifesta externamente sob a forma de roteiro e enredo quanto analisar os outros tipos de discursos que integram a linguagem cinematográfica: a visualidade, a música, o cenário, a iluminação, a cultura material implícita, a ação cênica – sem contar as mensagens subliminares que podem estar escondidas em cada um desses níveis e tipos discursivos, para além do subliminar, que frequentemente se esconde na própria mensagem falada e passível de ser traduzida em componentes escritos (Barros, 2012, p. 80).


Por tratar-se de um objeto e fonte representacional, que possui a vivacidade do movimento e som, adere-se a um conjunto de novas ferramentas para o historiador analisar esta fonte e identificar o sentido histórico frente aos seus interesses. Como os nossos interesses envolvem a compreensão da existência do projeto cinematográfico de Cláudio Assis e a sua validação, realizamos uma leitura cuidadosa dos três filmes já citados para elencarmos os seus elementos estruturais e formais.

Nosso estudo tem como característica ser de natureza representacional, e a nossa escrita histórica é uma representação feita no presente por meio da linguagem e dos conceitos disponíveis, a fim de criar significados sociais sobre determinada noção da realidade histórica, adentrando no campo teórico de situar o discurso histórico em um tempo e espaço (Ankersmit, 2012).

Por fim, a presente pesquisa encontra-se em processo de feitura, ganhando corpo e novos caminhos no seu feitio investigativo. Como possibilita a pesquisa em História, novos olhares são dados às fontes debruçadas, e novas hipóteses e objetivos são formulados ao decorrer do caminho da produção da tese.


Referências 

ANKERSMIT, Frank. A escrita da História: a natureza da representação histórica. Londrina: Eduel, 2012. 332p.


ASSIS, Cláudio; SACRAMENTO, Paulo, e LACERDA, Hilton. Amarelo Manga. [Filme-Vídeo]. Produção: Cláudio Assis e Paulo Sacramento. Direção de Cláudio Assis. Roteiro: Hilton Lacerda. Fotografia: Walter Carvalho. Trilha Sonora: Jorge Du Peixe, Lúcio Maia. Direção de Arte: Renata Pinheiro. Figurino: Andrea Monteiro. Montagem: Paulo Sacramento. Montagem de Som: Ricardo Reis. Elenco: Chico Díaz, Dira Paes, Jonas Bloch, Leona Cavalli, Matheus Nachtergaele, Taveira Júnior. Brasil. 2003. 100 min. Ficção. Colorido.


ASSIS, Cláudio. Baixio das Bestas [Filme-vídeo]. Produção: Cláudio Assis e Júlia Moraes. Roteiro: Cláudio Assis e Hilton Lacerda. Fotografia: Walter Carvalho. Trilha Sonora: Pupillo. Elenco: Caio Blat, Dira Paes, Fernando Teixeira, Hermila Guedes, Irandhir Santos, Marcélia Cartaxo, Mariah Teixeira, Matheus Nachtergaele. 2007. 80 minutos. Colorido. Ficção.


ASSIS, Cláudio. Febre do Rato [Filme-vídeo]. Produção: Cláudio Assis. Roteiro: Hilton Lacerda. Fotografia: Walter Carvalho. Trilha Sonora: Pupillo. Elenco: Ângela Leal, Conceição Camarotti, Hugo Gila, Irandhir Santos, Juliano Cazarré, Maria Gladys, Mariana Nunes, Matheus Nachtergaele, Nanda Costa, Tânia Granussi, Victor Araújo. 2011. 110 minutos. P&B. Ficção.


BARROS, José D’Assunção; NÓVOA, Jorge. Cinema-história: teoria e representações sociais no cinema. 3 ed. Rio de Janeiro: Apicuri, 2012. 360p.


ROSENSTONE, Robert A. A história nos filmes, os filmes na história. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015. 248p.


Daiane Stefane Lima Antunes – Doutoranda do Programa de pós-graduação em História da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).

Revisão: Rosangela de Jesus Silva, docente da área de História da Unila.

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