O país com cheiro de fruta madura: representações sobre o calor no Paraguai em Barrio Palestina (2024), de Susana Gertopán.
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| Capa de Barrio Palestina |
Em minha primeira ida a Asunción em dezembro de 2010 ou 2011 – não me recordo exatamente –, uma inscrição em uma parede me chamou a atenção: “Con ese calor no se pude pensar, Nietzsche”. A inscrição parecia ter sido feita naquele dia, pois fazia muito calor naquele verão assunceno. O riso imediato provocado por aquele exemplar de humor paraguaio quebrou momentaneamente o cansaço. Ainda não sabia que estava diante de uma representação recorrente sobre o país, como se observa no romance Barrio Palestina (2024), da escritora paraguaia Susana Gertopán, nascida em Asunción em 1956.
O romance tem um fundo biográfico. O livro conta a história de Móishele e sua família. Como judeus, se veem obrigados a sair da Polônia antes da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e migram para o Paraguai para fugirem do avanço do nazismo sobre a Europa. História similar marcou a família de Gertopán.
O romance é narrado por Móishele e o calor como elemento da narrativa aparece já na sua chegada ao porto de Asunción:
El barco asomó la proa a la costa. Miles y miles de naranjas desparramadas, en el suelo, doraban el paisaje. Hacía mucho calor, el sol ardía, rabioso.
Desembarcamos, me acerqué a mi padre, buscando su protección, Él me tomó del hombro y caminamos juntos. Mi madre y Féiguele le iban detrás.
Fuimos hasta la aduana.
Un hombre de tez obscura revisó nuestros pasaportes. Inútilmente intentó pronunciar el apellido, resignado, selló los documentos y se lo devolvió a mi padre. Hablaba un idioma desconocido. No lo entendíamos.
El calor era cada vez más intenso, insoportable [grifos meus]. (Gertopán, 2024, p. 58).
O calor potencializa o primeiro contato da família com o desconhecido. O calor em si, em excesso, já era desconhecido. As laranjas douradas, no chão, parecem reproduzi-lo como pequenos sóis aos pés dos recém-chegados. O desamparo se manifesta quando Móishele busca proteção em seu pai, e sua mãe, com o irmão caçula, seguem atrás da figura patriarcal, em uma reprodução dos papeis de gênero tradicionais. Na aduana, o homem “de pele escura” e idioma incompreensível personifica o contato com o desconhecido e o calor se torna “mais intenso, insuportável”.
No porto são recebidos pelo tio Jaim. O caminho até a nova casa é marcado pelo desconcerto. “Ya no tolerábamos el cansacio y la ansiedad por llegar, llevábamos la ropa húmeda de sudor y estábamos sedientos.” (Gertopán, 2024, p. 60). Ao chegarem à nova casa, tia Mindú também se refere ao calor: “– ¡Vengan, entren, acá hace mucho calor, necesitan tomar agua fresca!” (Gertopán, 2024, p. 61). Ainda sob o impacto da chegada, Móishele sintetiza a apreensão pelo desenraizamento forçado e o calor aparece indiretamente sob o recurso poético do “ar que cheirava fruta madura”:
Seguía sin creer que eso fuera realidad, no entendía qué hacía yo, Móishele, parado en esa casa tan extraña, tan vieja, en un lugar tan lejano, donde todo era tan diferente, tan distinto: el clima, las calles, el idioma, hasta el aire que olía a fruta madura. (Gertopán, 2024, p. 61).
Uma vez instalados no cômodo que seria a sua nova moradia, o calor volta a marcar algumas das tensões que movem a narrativa:
Viendo que éramos muchas personas las que estábamos dentro de la pieza y para darle más luz y ventilación, mi padre intentó con mucho cuidado abrir la ventana, pero mi madre le pidió que la mantuviese cerrada.
Si la abres sentiremos más calor.
Mi padre respondió con un gesto de desaprobación en el rostro, dio media vuelta y dejó de lado las manijas de las persianas desvencijadas y respondió:
Reitze, si vamos a vivir acá es mejor que empecemos a acostumbrarnos al calor, si existen otras familias que se acostumbraron, ¿por qué nosotros no? ¿Qué tenemos de diferente a la familia de Jaim y Mindú?
En ese momento no entendí el significado de las palabras de mi padre, pues me era difícil creer que alguna vez podríamos adaptarnos no solo a la temperatura sino a todo lo que nos rodeaba. (Gertopán, 2024, p. 63-64).
O desejo de manter a janela fechada representa a dificuldade de adaptação de Reitze, mãe de Móishele, a qual evita sair de casa e mantém o filho caçula em situação similar, usando o calor como um dos motivos: “A Féiguele tampoco le dejaba salir, siempre tenía una excusa para mantenerlo acostado y quieto, era el sol, o la temperatura, o los insectos.” (Gertopán, 2024, p. 79). Féiguele é tratado pela mãe como uma pessoa doente. O pai de Móishele, mesmo contrariado com o exílio, tenta se inserir no novo país e começa a trabalhar. As diferentes perspectivas sobre o presente e o futuro afastam os membros da família uns dos outros. “Odiaba a mi padre, odiaba a mi madre, odiaba a Féiguele, odiaba a todos, quería volver, quería estar en Varsovia, en mi casa.” (Gertopán, 2024, p. 83).
Se por um lado Gertopán recorre ao calor como recurso narrativo recorrente sobre o Paraguai para expressar as dificuldades existentes ou vividas no país pelos seus personagens, por outro a autora o ressignifica em uma das passagens mais importantes da obra, quando Móishele, acompanhado por Schloime, sai do bairro Palestina para conhecer melhor a cidade de Asunción. Como o Cândido de Voltaire, saindo das muralhas de seu castelo, Móishele começa a perceber outra cidade ao seu redor:
Nos alejamos unas cuadras más y finalmente llegamos al mercado. Las calles estaban pobladas de árboles cargados de frutas, decenas de ellas caídas alfombraban el suelo. Me era difícil creer que podíamos caminar tranquilos y libres, sin miedo.
(…).
(…). Me llamaban la atención las personas, los pájaros. Las murallas de las casas eran bajas y de ellas brotaban plantas y flores de diversos colores. En un momento me detuve a mirar el cielo, estaba azul, limpio, como los ojos del abuelo. (Gertopán, 2024, p. 85)
Na chegada, o ar com cheiro de fruta madura marca um dos estranhamentos de Móishele no Paraguai. Agora, as frutas, caídas pelo chão, são associadas à abundância, tranquilidade e liberdade. O Sol, que “ardia raivoso” no porto de Asunción, desta vez garante um céu azul que faz o protagonista se lembrar com afeto do avô que tinha permanecido na Polônia.
Contudo, as mudanças são lentas e instáveis. Móishele mantém o desejo de retornar à Polônia, assim como seus pais. Sua mãe dá sinais de adaptação ao Paraguai, mas isto não repercute prontamente na melhora da relação com os demais membros da família. Com o avanço da guerra, há angústia pela ausência de notícias sobre amigos e parentes. O calor frequentemente volta a aparecer na narrativa para expressar essas situações e sentimentos. O calor continua a marcar a diferença entre os adaptados e os não adaptados ao novo país:
- ¿Qué haces, Bérele? – pregunté.
- En verano, cuando las noches son muy calurosas, dormimos acá, afuera, en las piezas no se puede descansar bien; ven también tú, Móishele, saca un colchón, y duerme con nosotros y mira qué lindo se ve el cielo en las noches de verano. (Gertopán, 2024, p. 105).
Bérele vê o lado bom do verão, a possibilidade de contemplar o céu. No entanto, a família de Móishele apenas começa a demonstrar outra postura com o término da estação, antecedido pelo nascimento do caçula do tio Jaim e da tia Mindú. O nascimento do bebê, o final do verão, as duras notícias que chegavam da Europa e a passagem do tempo são os elementos que permitem a Móishele e seus familiares começarem a ressignificar o trauma provocado pelo deslocamento forçado. “Era una noche plácida y quieta, después de un largo verano el viento fresco regalaba un poco de alívio.” (Gertopán, 2024, p. 131).
A cerimônia de circuncisão do filho de Jaim e Mindú representa a sobrevivência do povo judeu e suas tradições, o que é acompanhado na narrativa por um clima ameno. “Un viento suave que olía a caramelo y azahar, paseaba por el corredor.” (Gertopán, 2024, p. 136). Azahar é a flor da laranjeira, o que ressalta o contraste entre o cheiro de fruta madura na chegada ao Paraguai e a renovação das tradições representada pela circuncisão do bebê; a flor de laranjeira é pequena, frágil, mas dá um fruto grande e robusto; sua cor, branca, remete à esperança de paz no bairro Palestina recriado por Gertopán.
Com o passar do tempo, a mãe de Móishele aceita a vida no Paraguai e deixa de pensar na volta para a Polônia. Começa a falar em espanhol, conhece as ruas de Asunción e vai sozinha ao mercado. A relação com o marido melhora e, juntos, vão tomar sorvete nos sábados à tarde com os vizinhos. O sorvete representa a superação do calor como empecilho para se adaptar ao Paraguai.
Para evitar spoiler, a realização de um sonho de Móishele também é acompanhada por um clima mais ameno: “La mañana se presentó fresca y soleada.” (Gertopán, 2024, p. 154).
O calor, frequentemente associado ao Paraguai, pode ser interpretado como um “esquema intelectual incorporado”, segundo a compreensão do historiador francês Roger Chartier (2002). Os esquemas intelectuais incorporados são compostos por representações frequentes sobre algo, alguém ou algum lugar, de modo a torná-los reconhecíveis. Essas representações têm relação com experiências próprias ou alheias, no presente ou no passado, e contém interesses diversos, dependendo de quem as difunde. Sempre há, evidentemente, o risco de difundirem estereótipos. Contudo, um exercício interessante para os historiadores é apreender as nuances e as variações. Gertopán, como tantos outros, recorre ao calor para falar sobre o Paraguai. Porém, em Barrio Palestina, os verões passam, trazendo alento, esperança e flores de laranjeira.
Referências.
CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 2002.
GERTOPÁN, Susana. Barrio Palestina. Asunción: 2024.
Texto por:
Paulo Renato da Silva, professor da área de História da UNILA.
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